O Ogro e o Pequeno Polegar

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Com esse título, “O Ogro e o Pequeno Polegar”, o jornal francês, Le Figaro, apresentou em seu editorial de hoje, 6 de fevereiro, a sua compreensão do atual noticiário internacional, refletindo a absolvição do Presidente Donald Trump, no processo de impeachment que sofria no Senado americano, e os primeiros resultados do confuso e atabalhoado Caucus de Iowa, processo em que emergiu como vencedor o postulante centrista do Partido Democrático, Pete Buttigieg, jovem de 38 anos, Prefeito da pequena cidade de South Blend, do estado de Indiana, cujo maior destaque é orgulhar-se de ser homossexual.

Trump seria o Ogro?
Pete Buttigieg seria o Pequeno Polegar?

Orgulhos à parte, o jornalão parisiense enaltece Buttigieg, um desconhecido total, como um novo “Pequeno Polegar”, personagem do conto infantil homônimo dos Irmãos Grimm, e recontado por Charles Perrault, conferindo-lhe um carinhoso destaque na corrida eleitoral americana, oportunidade em que traça o Presidente Trump como um Ogro, o grotesco e ameaçador Bicho-Papão, espécie de “Papafigo”, antigo terror do meu tipo de criança.

 

Em verdade, o Presidente Trump incomoda o mundo afora, porque encara o sucesso de uma vertente ideológica que fustiga os infindáveis saudosistas de comunistas que resistentes aos ecos da multidão derrubando o muro de Berlim trinta anos passados, não aceitam ainda a ineficiência por ele denunciada e por outros gestores demonizados como “iliberais”, palavra nova que revela senão uma repulsa, por heresia, sem merecer o devido debate no diálogo das ideias.

 

Nesse contexto de 30 anos de orfandade, o último bastião da esquerda cravou trincheira na defesa da social democracia ocidental, e, sobretudo, na manutenção deficitária do perdulário “Welfare State”, chamado também de “Estado Providência”, ou “Estado de Bem-Estar Social”, imaginado, não por Marx, nem por Engels ou seus corifeus, mas por um outro alemão, o autoritário Otto von Bismarck em 1880, como limite acolhedor entre o socialismo real e o liberalismo econômico, dogma universalmente absorvido por vasto estuário encampado até pelos bem falantes Think-Thank, estado este que sem o qual não haveria possibilidade de vida nem salvação.

Quem vai vencer?
O Papafigo comia o fígado das crianças que andavam à toa na rua.

Se os “Liberais” sempre foram execrados como desumanos e cruéis exploradores visando o lucro do capital, e os neoliberais já não espantam criancinhas tirando-lhes doces, hoje são os “iliberais”, como Trump, Bolsonaro, Boris Johnson e Victor Oban que são rejeitados como “ogros”, essa figura nórdica que, no meu tempo de criança, volta a imagem infantil, retirava o “figo”, se estivéssemos na rua; à toa perambulando.

 

Dos que viviam à toa, Manuel Bandeira cantava as andorinhas: “Andorinha lá fora está dizendo: – Passei o dia à toa, à toa. Andorinha, andorinha, minha canção é mais triste: – Passei a vida à toa, à toa”.

 

Talvez, pensando à toa e à toa, estas ideologias estão contemplando sem entender nem responder o porquê da funesta constatação de Yaschas Mounk, que vê o povo cuspir na rua contra a democracia.

 

Mas, logo a democracia, essa rapariga promiscua que aceitava todos os sêmens de variar galáctico?

 

Pode a Democracia prescindir do povo, de sua vontade soberana?

 

Parece que soa assim o reverbero da grande imprensa que exala acidez nos seus comentários repelentes a tais escolhas.

 

Que coisa terrível, saber que a despeito de releitura da história, em farta interpretação de testemunhos gilets-jaunes, a França atual se dilacerando por irreformável, em melhor exemplo, sem profeta, anacoreta ou taumaturgo, ver sua grande imprensa lamentar em diluviana carpição, não a própria fervura no caldeirão imerso, mas o refrigério desfrutado por Donald Trump, em amplo prestígio popular, posando como candidato à reeleição sem rival sério do lado Republicano!

 

Que dizer do “Ogro” candidato e suas palavras terça-feira frente aos Senadores que tentavam apeá-lo do poder: “Há três anos, nós lançamos o grande retorno da America. Eu me coloco diante de vocês agora para partilhar os incríveis resultados : os empregos estão crescentes, a renda subindo rapidamente, a pobreza diminuindo, a criminalidade reduzindo, a confiança está aumentando e nosso país está prosperando e sendo altamente respeitado novamente . Os inimigos dos EUA são derrotados, a riqueza nos sorri e o nosso futuro é brilhante. Os anos de declínio econômico terminaram. Chega de promessas quebradas, recrudescimento do desemprego, banalidades desgastadas e desculpas constantes de esgotamento da riqueza , poder e prestígio americanos”.  

 

Palavras utilizadas com todas as hipérboles possíveis, com direito a reivindicar nos novos tempos, os idos gloriosos, utilizando todas as referências históricas disponíveis  para descrever um futuro que ele descreve radioso.

 

Trump louvou toda história americana  da qual ele se coloca como melhor exemplo do momento. “Como o mundo vê esta noite – disse o Presidente – a América é uma terra de heróis. É um local onde nasce a grandeza, onde os destinos se forjam onde as lendas assumem vida. Aqui onde nasceram Thomas Edison e Teddy Roosevelt e de números grandes generais como Washington, Pershing, Patton e MacArthur. Terra natal de Abraham Lincoln, Frederick Douglas, Amelia Earhart, Harriet Tubman, os irmãos Wright, Neil Armstrong e outros”.

 

Se o discurso foi excessivamente ufanista, o Presidente não perdeu a hora e o cenário para reafirmar a que veio, incisivo e percuciente: “Cento e trinta e dois legisladores desta sala votaram uma lei visando impor um controle socialista no nosso sistema de saúde, e aprovaram uma lei que obriga os contribuintes a subvencionar os cuidados a qualquer indivíduo que atravesse ilegalmente as nossas fronteiras, mas nós não deixaremos nunca o socialismo destruir o sistema de saúde americano”, palavras que alegraram os Republicanos e fizeram rugir os Democratas, sobretudo a Presidente da Câmara Nancy Pelose, que rasgou ostensivamente o discurso de Trump.

 

O noticiário falou que o discurso foi rasgado porque antes Nancy Pelose tivera sua mão rejeitada num comprimento de Trump.

 

Se foi, Trump não cometeu qualquer deslize.

 

Não era Pelose que tentara debaldemente tirar Trump da Presidência?

 

Se fosse em terras brasílicas, de Asmodeu ou outro Abreu não sobraria a Nancy um escarro seu?

 

Em descaro polido do Figaro, Trump é só um bicho papão, o ogro Papafigo, que por mérito só seu exclusivo, contra tudo e todos, está a frente da disputa presidencial americana.

 

Bonito e muito querido, todavia, é Pete Buttigieg, o “Pequeno Polegar”, o candidato azarão que o jornal parisiense quer ver suplantar o ogro,  retirando-lhe as “botas de sete léguas”.

 

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