O Peruano Vargas Llosa e sua obra.

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Nesta quinta-feira, 07/10/2010, foi anunciado pela Academia Sueca, em Estocolmo, o nome do escritor peruano Mario Vargas Llosa como o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2010.

 

O prêmio foi conferido pelo conjunto de sua vasta obra em ficção e ensaio.

 

Nascido em 1936, o novelista e ensaísta já de há muito tem sido considerado um dos maiores nomes da literatura em língua castelhana, membro da Real Academia Española desde 1994, tendo recebido o Prêmio Cervantes em 1994 e o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras Espanha em 1986, entre outros.

 

Segundo o comunicado do comitê da premiação do Nobel, Vargas Llosa recebeu o prêmio “por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual”.

 

Sua vasta obra inclui ficção, teatro, ensaios de conteúdo social, biográfico e político, com destaque memorial e poético.

 

Entre suas principais obras estão

“Os Chefes” (1959).

“A Cidade e os Cachorros” (1963).

“A Casa Verde” (1966).

“Conversas na Catedral” (1969).

“Tia Júlia e o escrevinhador” (1977), misto de memória e ficção.

“A Guerra do Fim do Mundo” (1981), sobre a Guerra de Canudos.

“Elogio da Madrasta” (1988).

“A Verdade Das Mentiras” (1990).

“Lituma nos Andes” (1993).

“Peixe na Água” (1993), memória, sobretudo da sua inserção frustrada na política.

“Os Cadernos de Dom Rigoberto” (1997).

“Cartas A Um Jovem Escritor” (1997).

“A Festa do Bode” (2000), sobre a trama e o assassinato do Ditador Dominicano Rafael Trujillo.

“A Linguagem Da Paixão” (2001)

“Travessuras Da Menina Ma” (2006)

“García Márquez: historia de um deicídio (1971), entre outros.

 

Jorge Mario Vargas Llosa nasceu em 28 de março de 1936 em Arequipa, sul do Peru, cidade fundada em 15 de Agosto de 1540, pelo explorador espanhol, Francisco Pizarro, no local de uma antigo povoado inca.

 

Seus pais, Ernesto Vargas Maldonado e Dora Llosa Ureta, separaram-se após cinco meses de casamento, tendo a mãe residindo em Cochabamba, na Bolívia, onde o menino viveu a primeira infância em completo desconhecimento da existência do pai.

 

No seu livro memorial, “Peixe na Água”, Llosa conta que neste tempo sempre lhe disseram que seu pai houvera falecido, conveniência familiar denotando uma separação tumultuada e traumática.

 

Do pai, radio operador da empresa de aviação Panagra, dirá em análise pessoal, que padecia da doença multirracial e multicolorida da alma nacional peruana, que dividia a população entre “brancos” (pessoas de bom nível social) e “cholos”, (mestiços, pobres e desprezados).

 

Se a família paterna não tinha destaque e origem, a família materna, os Llosa, descendentes do Marechal de Campo Don Juan de la Llosa e Llaguno, fora importante e com pretensões aristocráticas, prosperidade que vinha decaindo, conduzindo-a à classe média com recursos modestos, tempo em que o menino nasceu, sem que o pai sucessivamente avisado tivesse qualquer interesse em conhecê-lo.

 

À notícia do nascimento da criança, Ernesto exigiu o divórcio de Dora, sendo Marito criado pala mãe, avós e tias, com muito carinho e apoio, uma lembrança que o memorialista repete: “vovozinho Pedro, vovó Carmen, Mamaé e todos seus irmãos se haviam comportado tão bem, dando-lhe (a sua mãe) carinho, protegendo-a, e fazendo-a sentir que, embora tivesse perdido o marido, sempre teria um lar, uma família”. 

 

Em Cochabamba, para onde a família Llosa se mudou. Mário conta: “o fato de não ter pai, ou, melhor dizendo, de meu pai estar no céu, não era algo que me atormentasse; ao contrário, essa condição me conferiu um status privilegiado, e a falta de um pai verdadeiro havia sido compensada com vários substitutos: vovô, e meus tios Juan, Lucho, Jorge e Pedro.

 

O tormento começou quando, no período do governo José Luis Bustamante y Rivero, seu avô obteve um importante cargo político no governo, e a família transferiu-se para Piura, no norte do Peru. Ocorre então o reencontro de sua mãe e seu pai, havendo a reconciliação do casal, momento em que o menino, então com dez anos, vem conhecer seu pai, iniciando uma convivência de muitas turbulências e incompreensões.

 

Entre pai e filho existia uma completa dissonância. O pai, autoritário e severo, entendia que seu filho tivera uma educação amolecida pelos Llosa, cabendo-lhe dar firmeza, ordem e disciplina. Aos pendores iniciais para a leitura e à escrita, exigiu-lhe atividades menos apolíneas. Deveria servir à vida militar, por viril e promissora. Vargas Llosa é então matriculado contra a vontade num colégio militar.

 

Quanto à restrição paterna ao seu pendor literário, Llosa assumiu como missão de repulsa a vontade férrea de se tornar um escritor.

 

Assim, eis o jovem em contínua rebeldia à tentativa de emasculação paterna, envolvendo-se nos meios estéticos e literários, na imprensa escrita e falada, tudo o que era motivo de repulsa de seu pai, que irresignado e insensível preferia distanciar-se do filho a quem tinha pouca veneração.

 

Em “Peixe na Água”, Vargas Llosa conta que aos dezenove anos apaixonara-se perdidamente por uma cunhada de sua mãe, Julia Urquidi Illanes, treze anos mais velha, que era divorciada e a quem chamaria Tia Julia, no misto de ficção e realidade do notável “Tia Julia e o escrevinhador”.

 

Julia não era propriamente sua tia. Ela era a irmã mais nova de Olga, a sua tia de cortesia, esposa do seu Tio Lucho, namoro que ensejaria reparos e maus comentários. Mas nada impediu o conúbio com Mário falsificando a própria certidão de nascimento, e procurando um prefeito para realizar o casamento.

 

Desnecessário dizer que o consórcio, em trama de fuga, gerou comentários de escândalo, porque se invertia a explicação da sedução, dizendo que não fora o roubo da moça pelo namorado, mas um caso típico de abuso sexual de menor.

 

Neste particular, se houve o apoio incondicional e até hilariante de sua família materna, os Llosa, do pai sobrou uma reação terrível: saiu com revólver em punho, arrotando e maldizendo, em busca dos amantes para desfazer a união, acusando a nora rejeitada como corruptora de menores.

 

Neste tempo Mário já é um jornalista em ascensão, surgindo-lhes trabalhos que lhe permitiam suster a família. A busca do pai só arrefeceu quando ouviu do jornalista Porras Barrenechea quão tola era aquela reação. ”Casar-se é uma ato de hombridade Senhor Vargas. Uma afirmação de virilidade. Portanto, não é tão grave assim. Teria sido muito pior se o rapaz lhe saísse um homossexual, um drogado, não é mesmo?”

 

Mas a relação entre pai e filho restou traumática, o pai sempre lhe mandando recados e cartas ameaçadores pela mãe, com post-scriptum em intimidação: “que eu podia pedir proteção à polícia, mas isso não o impediria de me dar cinco tiros”.

 

A relação entre pai e filho não foi recomposta, sem o pai querendo ver o sucesso do filho, nem lhe reconhecendo a importância, mesmo quando emigrou para os Estados Unidos, onde pai e mãe por dificuldades financeiras exerceram atividades obreiras em empregos modestos e de pouca valia.

 

Do pai dirá também com um misto de tristeza e mágoa: “Embora sua sombra sem dúvida vá me acompanhar até o túmulo e embora até hoje, às vezes de repente, a lembrança de alguma cena, de alguma imagem, dos anos que estive sob sua autoridade me causem um súbito frio no estomago,… eu, ao fim e ao cabo seu filho, jamais soube corresponder-lhe, e, embora tivesse sempre procurado mostrar-me educado com ele, jamais lhe demonstrei mais afeto do que de fato sentia (ou seja, nenhum). O terrível rancor, o ódio ígneo de minha infância foram arrefecendo,… sempre que nos víamos, a cada dois, às vezes três anos, sempre por pouquíssimos dias, nossa relação era cortês, mas gelada.”

 

Em 1982, aproximei-me da literatura de Vargas Llosa quando li o notável “A Guerra do Fim do Mundo”. Ali o romancista peruano narra a saga sertaneja de Canudos.

 

Se os Sertões representam o ápice da geopoética brasileira, no dizer de Gerardo Mourão, Mário Vargas Llosa apaixona-se pelo tema de tal modo que sai percorrendo os mesmos caminhos de Euclides da Cunha, quase cem anos depois para ver os nichos dos cemitérios de Monte santo, Entre Rios, Abadia, Barracão, Itapicuru, Cumbe, Natuba e Mocambo.

 

Prosssegue o peruano crítico da literatura telúrica povoando os sonhos e as noites de Alagoinhas, Uauá, Jacobina, Itabaiana, Campos, Itabaianinha, Geru, Riachão Lagarto e Simão, tentando seguir as pegadas esquecidas de Antonio Mendes Maciel, Antonio Conselheiro, misto de santo e guerreiro, em missão mística de salvação da alma em jejuns privações e sacrifícios. Misturando personagens verdadeiros e fictícios, gente simples e outros nem tanto, por orgulho e impiedade.

 

Contar uma história sem maldade, sem vezos maniqueístas e ideológicos, narrando o drama dos desprovidos de tudo, como Tibúcio da Mota, sua inválida concubina e três filhos que na seca “tinham comido todo o comível, e quando isso acabou, tudo o que era verde e, por fim, tudo o que os dentes podiam triturar. O vigário Dom Casimiro que os enterrara garantia que não tinham morrido de fome mas de ignorância, por comerem o couro da sapataria e beber água da Lagoa do Boi, fervedouro de mosquito e pestilências que até os cabritos evitavam.”

 

Que só restara Toinho e a irmãzinha, salvos com dietas e rezas. Toinho virando homem feito, frágil e franzino, sensível á pregação dos Lazaristas, sendo chamado Beatinho, e que depois seguiu o Conselheiro quando este passara por Pombal.

 

E a irmãzinha sendo criada na fazenda do Barão de Canabrava, o dono de Canudos, em futuro e esperança de exploração do corpo e da alma.

 

Falar de Galileu Gall, pseudônimo de um combatente da liberdade, nascido escocês, auto-proclamado revolucionário e frenólogo, perseguido por duas sentenças de morte, libertário propagador das idéias de Proudhom e Bakunin a professar que “a propriedade é a origem de todos os males sociais e que o pobre só romperá as correntes da exploração e do obscurantismo pela violência.”

 

Ouvir o espanto do Tenente Pires Ferreira que vira a procissão virar feroz exército armado até o dente. Falar de João Grande, de Pajeú, contar a história do aleijado de Natuba, nascido com as pernas muito curtas, a cabeça enorme, entrevado e retardado, andando de quatro patas como um animal. Que logo ficou conhecido como um leãozinho, o Leão de Natuba, cuja utilidade só teria serventia como exposição do grotesco no Circo do Cigano, onde era explorado, mal alimentado e vilipendiado.

 

Que como humano apaixonara-se por uma linda garota, Almudia, filha do funileiro Zózimo, cantando-lhe uma canção, feita só para ela. Tendo o Leão sido caçado, acusado de ter enfeitiçado Almudia com uma doença letal.

 

É preso e amarrado, só seria solto se Almudia se curasse, do contrário seria torrado na fogueira. Almudia morre, o Leão assiste o enterro aprisionado. Depois fazem a fogueira, vão queimá-lo como herege, feiticeiro, um coisa ruim sem merecer amparo ou perdão. Eis que surge para salvá-lo o Santo homem, com sua bata azul, perguntando a Zózimo: “Você a enterrou com seu melhor vestido em um caixão bem feito? Vamos rezar ao Pai para que a receba regozijado no céu.” Depois manda o funileiro desamarrar o aleijado Leão.

 

À relutância do pai enraivecido, ameaça: “Quer que sua filha vá para o inferno? Não são as chamas de lá mais quentes, não dura mais que as que você quer acender, supersticioso, ímpio, pecador! Arrependa-se do que queria fazer, venha e desamarre, peça-lhe perdão e rogue ao Pai que não mande sua filha para onde está o Cão por sua covardia e maldade, por sua pouca fé em Deus.” E o Leão liberto arrasta-se e segue o beato de camisolão azul pelas estradas espinhentas e inóspitas.

Assim vai descrevendo o peruano, como à maneira do mestre Jesus, Antônio Maciel vai fazendo discípulos e seguidores entre marginais, rejeitados e explorados, em suas andanças peripatéticas, rezando e apascentando as almas, consolando prantos e reformando os campos santos, levantando ermidas e recuperando jazigos e cemitérios.

 

Em Monte Santo o Conselheiro erguera as igrejinhas ao longo do monte que se fez cenário de sacrifício peregrinação e Via Sacra, mas dali fora enxotado por incompreendido. Ferira os brios e os sentimentos da igreja e o seu padroado. Até uma Santa Missão fora mandada para fustigar sua missão que se tornava perigosa, afrontando à república nascente e o casamento civil.

 

E o que Euclides da Cunha descrevera e narrara, em termos de geografia, antropologia e estratégia, Vargas Llosa fez um romance de louvação à vida em sonhos e angústias, em medos, risos e dores. Onde explorados e exploradores vivem a mesma trama, com os homens e as mulheres sendo capazes de heroísmo, violência e sacrifícios, em barbaria de gestos e ações de boa vontade. Um livro notável de se ler.

 

Outro grande Livro do peruano laureado com o prêmio Nobel de Literatura é “A festa do Bode.”

 

Neste romance, a temática é a violência corrupta do ditador Dominicano Rafael Leônidas Trujillo Molina, o Pai da Pátria da República Dominicana, generalíssimo presidente de negra lembrança por trinta e um anos de um poder ilimitado.

 

O tema percorre o ano de 1961, quando Urânia, filha do Senador Augustín Cabral, tempo em que o ditador seria assassinado num dos raros atentados de perfeita execução. Llosa entremeia o romance narrando fatos inerentes à cidade de Trujillo, hoje São Domingos, em que o ditador mandava matar e torturar com um simples aceno de cabeça. Lascivo e corrupto, Trujillo se fizera bode no imaginário popular por sua fama de estuprador e de insaciável apetite sexual.

 

Num misto de realidade e ficção, Vargas Llosa introduz personagens verdadeiros como Trujillo, seus filhos Ramfis e Radamés, tolos, corruptos e perdulários, o Senador Balaguer, moderado e pragmático herdeiro da presidência dominicana, esteio responsável da transição democrática, e outros surgidos da ficção como a jovem Urânia, filha do Senador bajulador e desfibrado Augustin Cabral, uma adolescente que fora desvirginada por Trujillo, com o consentimento de seu pai, que assim se felicitava em troca de benesses e evitando castigos e perseguições.

 

E outros verdadeiros como o caso das irmãs Mirabal, que foram encontradas mortas, caídas do alto de uma cordilheira, num suposto desastre de automóvel. Acidente que acontecera porque Minerva Mirabal, “ainda adolescente se atrevera a desfeitar Trujillo em pessoa, não aceitando dançar com ele; por isso seu pai perdera a prefeitura de Ojo de Água e depois fora preso.

 

Assassinato das três irmãs Minerva, Pátria, e Maria Tereza Mirabal, e do motorista que as conduzia em La Cumbre, no alto da cordilheira setentrional, quando voltavam de uma visita aos maridos de duas delas, Minerva e Maria Tereza, presos na fortaleza de Puerto Plata.

 

À parte isso e a despeito de tanta sujeira na alma, Trujillo era enlouquecido por limpeza. “A aparência é o espelho da alma – filosofava o ditador, recomendando que seus auxiliares se ensaboassem todos os dias e usassem uniformes bem passados – Se alguém fede, dizia, as melecas escorrendo do nariz, não é uma pessoa a quem possa confiar a higiene pública!”

 

Também era profundamente lascivo, tinha necessidade como velho senil de aventuras com mocinhas, algumas delas filhas de seus colaboradores como Urânia. Naquela noite da festa do bode, por exemplo, ele programara se refestelar na juventude de Yolanda Esterel, garota de dezessete anos que lhe oferecera flores em nome da Juventude Sancristobalense na semana anterior. O velho ditador adotara para si “a receita de Petrônio e do rei Salomão: uma xoxotinha fresca para devolver a juventude a um veterano de setenta primaveras.”

 

O encontro com Yolanda Esterel, porém, não aconteceria. O velho bode teve o seu carro seguido por outro em buzina desesperada parecendo ser conduzido por um motorista embriagado. Eram os seus matadores, com um projétil lhe arrancando o ombro e o braço esquerdo, por início de fuzilaria.

 

Frederick Forsyth, em o Dia do Chacal, coloca o seu personagem ”O Chacal” (CHArles CALthroup) como um atirador de precisão que estivera presente no atentado de Trujillo, sendo este o seu verdadeiro assassino mediante tiro certeiro no quebra-vento do para brisa, único local vulnerável. Segundo Forsyth o carro de Trujillo só não exibia blindagem naquele minúsculo local.

 

Não foi bem assim. O complô fora bem planejado e executado. E tudo vem bem contado por Vargas Llosa. No mais vale a máxima de Ortega y Gasset: “Nada do que o homem foi, é ou será, não foi, não é nem será para sempre; na verdade, chegou a sê-lo num dia e noutro deixará de sê-lo.”

 

Por fim, lembremos que em “Peixe na Água”, Vargas Llosa fala da sua campanha a presidência do Peru, em 1990, defendendo um projeto moderno de liberalismo econômico.

 

O Peru vinha de uma ditadura de esquerda do General Alvarado, e terminava o primeiro governo do Presidente Alan Garcia. O país inca estava vivendo uma estagflação, necessitando urgentes reformas econômicas. No campo político vivia refém da guerrilha do Sendero Luminoso.

 

O desemprego, altíssimo, era justificado por uma lei trabalhista incompatível com a modernidade. Os trabalhadores se tornavam estáveis após três meses de experiência nas empresas, só podendo ser despedidos por justa causa. Como isso representava uma impossibilidade, reinava a informalidade e o desemprego maciço. 

 

A reforma agrária do General Alvarado desmantelara o agronegócio, fazendo surgir cooperativas deficitárias e improdutivas. O ensino público era medíocre e rotineiramente paralisado por greves. Havia um excesso de empresas e bancos estatais, deficitários e pouco operantes.

 

A proposta de Vargas, nos moldes de Thatcherismo previa uma ampla privatização, atingindo as escolas públicas com a sua substituição de bolsas de estudo para carentes, a transformação das cooperativas em empresas com os seus trabalhadores tornados acionistas, um compromisso com o rigorismo fiscal e a diminuição do estado.

 

Desnecessário dizer que tais teses não seriam aceitas, surgindo uma grande campanha contra o seu nome, vindas dos partidos de esquerda, sobretudo, que o acusavam de ser ateu, sonegador de impostos (sua grande renda era tributada no exterior pela grande publicação de livros), imoral e até ligações incestuosas foram citadas.

 

Sua segunda esposa, Patrícia, com quem tivera três filhos, era sua prima. Sua primeira esposa da qual se divorciara em 1964 era sua tia.

 

Enfim tudo que na campanha o colocava em defensiva, em explicações sucessivas. Houve até um boato dizendo que Julia, sua primeira esposa, lhe negaria o voto, fato desmentido por ela a tempo, mas que resultaria em queda na preferência.

 

Enquanto isso seus adversários da esquerda eram ultrapassados por um desconhecido chamado Albert Fujimori, peruano, filho de japoneses, que apenas pregava a eficiência nipônica, montado num trator e com um gorro na cabeça.

 

O resultado da eleição todo mundo sabe; Fujimori venceu a eleição, depois deu um auto-golpe, permanecendo no poder como mais um ditador realizando a insolvência peruana.

 

Mário Vargas Llosa continuou um escritor fascinante. Não precisou do eleitorado peruano, para isso. Tornou-se um cidadão do mundo com seus livros de uma delicia incomparável, dando a vida a muitos personagens interessantes como a “chilenita” de “Travessuras da menina má”, e ampliando a vida de homens e mulheres de carne e osso, como o corta-cabeças Moreira César, Beatinho, o Leão de Natuba, merecendo os aplausos gerais neste momento em que a academia sueca, curvando-se à sua vasta criação, lhe concede o Prêmio Nobel, o maior prêmio da literatura universal deste ano de 2010.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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