O pior feitor…

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Há um aforismo atribuído aos romances de Joaquim Manoel de Macedo, Bernardo Guimarães ou até mesmo às crônicas dos remadores de Bem-Hur, que “o pior feitor é aquele que já foi escravo”.

No caso dos remadores de Bem-Hur, o feitor é um homem tão necessário quanto cruel e indiferente se firma no comando do chicote.

 

Ele é o responsável pela manutenção da ordem e pela boa sincronia da oscilação dos remos, em amplitude e freqüência, sem lassitude ou displicência. Ele é como o carrasco que a sociedade elege para executar os que lhe são indesejados.

 

Na forca ou no garrote vil, empunhando a espada cortante ou o machado contundente, desferindo o cutelo da guilhotina a nivelar cidadania, ou equalizando-a em culpas e desculpas, nos fuzilamentos de muitas balas ou nos envenenamentos gasosos de falas gozosas e anestésicas, sempre ali está o carrasco a matar em sangria, ou higienicamente com assepsia.

 

Com maior crueldade ou anestesia, dirão os que se horrorizam na excedente maldade das fogueiras medievais, mas não se incomodam com as cadeiras elétricas atuais, onde a pirólise e a incineração da antiguidade é trocada em modernidade e mesma maldade pela eletrólise ou pela cerebrina combustão, tudo terrível e rotineiramente cabível, se a lei assim o decidir, aos que não merecem perdão.

 

Enfim, o feitor é tão necessário como o carrasco para a execução da sua tarefa. E a sociedade os quer eficientes; iguais ao promotor, o advogado e o juiz; uma extensão do estado para exercer a vontade coletiva expressa na lei e nos regulamentos.

 

Victor Hugo, que lastimara os condenados à morte diante da vingança do estado mais justiçando que julgando, dissertara em Os Miseráveis este texto lapidar sobre a construção e a condenação ao cadafalso:

 

“O patíbulo não é simples armação de madeira, não é máquina: o patíbulo não é engenho inanimado feito de madeira, ferro e cordas. Parece um ser que possui não sei que iniciativa sombria; dir-se-á que essa armação vê, que essa máquina entende, que esse mecanismo compreende, que essa madeira, esses ferros, essas cordas têm vontade própria. No pesadelo amedrontador em que lança a alma, o cadafalso se mostra terrível, confundindo-se com sua tarefa. O patíbulo é o cúmplice do carrasco; devora, alimenta-se de carne, sacia-se com sangue. É uma espécie de monstro fabricado pelo juiz e pelo carpinteiro, um espectro que parece viver uma vida feita de todas as mortes que ocasiona.”

 

Mas se existe a lei, há a necessidade do seu cumprimento; daí o carrasco, o juiz e o carcereiro. Daí também por inteiro e sem asco, o infeliz cloaqueiro e sua incumbência de lixeiro e de descasco.

 

Para estes só há sucumbência e castigo. A sociedade não lhes quer bem, nem se preocupa com o asco de sua missão. Trabalho, sobremodo essencial, mas na rabeira da remuneração salarial. Tarefa desinfeliz e terrível, porque lhes falta tudo em agradecimento e respeito.

 

Que o digam a ausência de luvas e botas, as deficiências de meias-luvas ou de cambotas, sem falar em outras insuficiências mais inglórias de displicências remuneratórias. Mas, a lei é a lei, e alguém manda, impõe e determina que sejam desobstruídos os esgotos, saneando os miasmas e escoadas as decomposições de muitas náuseas e nojos.

 

E assim eis de novo o feitor, alguém que irá convencer a outros da incumbência por conveniência, sem fraquejar em ambivalência entre os sutis limites da decência e da indecência. Que é a decência? – perguntará o feitor. Será a decência um rochedo inabalável em mar revolto? Será uma verticalidade palmeiral firmando eloqüência e gerando o desabrigo? Será um singrar de barco em indiferenças de marolas e correntezas sempre em frente? Será o homem tão sábio e tão perfeito um bom definidor em permanência para o que seja decência ou indecência? Sem falar que o homem é afeito, e muito bem, à maledicência e à maleficência!

 

Assim, eis o feitor necessário enquanto dos remadores de Bem-Hur reverbera o eco em cascatas, nos remos em sincronia: “O pior feitor é o que foi escravo”.

 

Mas, diante de insatisfações várias de ordem sindical a dissertar algozes e explorados, é interessante chamar Lênin, este grande comandante de massas e condutor de povos, porque de audaz combatente do autoritarismo do imperial russo e do seu parlamento, tornou-se mais cruel e totalitário, afinal embora assim parecesse, não era nem doce nem terno. E também não convivia bem com a divergência, mistério só conhecido quando rejeitando a social-democracia ocidental, recusou as liberdades consentidas, preferindo as delicias incontidas de uma ditadura, dita bem-vinda só porque bem nascida no seio de sua cabeça e não do proletariado, como bem o exprimia.  

 

“Todo poder aos sovietes”, dirá em palavras belas a promulgar o partido único e o esmagamento das oposições. Nada que houvesse sido pregado antes, igual ao feitor que fora escravo, igual ao líder grevista que abocanhando o poder massacra quem se lhe opõe ao arbítrio e à vontade; tudo dentro da lei, e no fiel cumprimento da lei, igual a Getúlio Vargas modificando até a própria lei para favorece-lo e à própria grei. ou modificando a prnto da lei.tar algozes e exploradoses

 

“Aos inimigos, a Lei.” Dizia o nosso caudilho sorridente, a fertilizar constituições violentando-as. Igual a Lênin, Hitler e Stalin, mas,… bem mais brando, embora muitos não o achem ainda.

 

Ora, com alguma brandura ou excessos na cana dura o feitor sempre usa a força bruta que ameaça, convence ou pune. Pelo menos é assim que trabalha o feitor que fora escravo. Aquele que sabe onde reside a fragilidade dos seus comandados.

 

E o feitor ex-escravo não é burro; é sagaz, ambicioso e carreirista. Não fosse assim morreria escravo. E os que nasceram para escravos, escravizados e humilhados sempre o serão; por livre escolha inclusive, afinal só os néscios e os tolos endeusam os ídolos de pés de barro, que se lhes parecem luminosos e clarividentes.

 

Mas o culpado nunca será o feitor, afinal o escravo, igual ao remador de Bem-Hur, tem por missão se exaurir na sua função muscular de força viva, porque o barco não pode parar, embora muitos, pela greve ou por assembléia, afirmem ser isso possível.

 

Vem também de Lênin a resposta contundente tanto ao grevismo e ao assembleísmo como a todos que julgam parar o barco na greve ou no motim em seu proveito, pessoal, corporativo ou funcional: o estado proletário é “um sistema de violência organizada”, necessário para “livrar a terra russa de todos os insetos daninhos”.

 

Dirá depois, aumentando o tom e o medo, em plena gestão de feitor, impondo a produção como uma obrigação inexorável a não merecer vacilações e paralisações: “Aqui serão mandados para a prisão uma dúzia de ricos, uma dúzia de escroques, uma meia dúzia de operários que se recusam a trabalhar,… Em outros lugares, eles terão que exibir um cartão amarelo, de modo que o povo inteiro possa vigiar essas pessoas perversas… Ou ainda, será fuzilado no mesmo local um indivíduo a cada dez culpados de parasitismo

 

Em que o grifo se faz necessário, porque eram considerados parasitas e inimigos da nação todos os movimentos paredistas e grevistas. Ou seja: nunca provoque um feitor que já foi escravo, um líder grevista que virou gestor, ou um agente de motins que se tornou comandante repressor. A resposta nunca será terna e condescendente, porque o feitor que já foi escravo não gosta de acariciar seus comandados.

 

E num testemunho de que o bom comando não se faz em excessos de fraquezas, em março de 1919, vinte e um meses após sua posse, Lênin mandou Félix Dzerjinski ‘calar’ 10.000 operários das usinas Poutilov que se reuniram paralisando a produção, só por oposição “à ditadura do comitê central e da Tcheka”.

 

E o desfecho da rebeldia se fez com a usina retomada à força, restando um saldo de duzentos operários mortos, sumariamente, mediante pelotão de fuzilamento.

 

Do mesmo modo, na cidade de Astrakhan, no sul do Rússia, em pleno delta do Volga a caminho do mar Cáspio, um regimento de infantaria porque se recusara a atirar contra uma manifestação de operários, a tragédia se fez maior: a Tcheka enfurecida perdeu o controle dos seus atos e afogou entre 2.000 e 4.000 operários recalcitrantes. Algo parecido, em choros de inexcedíveis carpideiras, com a desocupação da usina de Volta Redonda, em que foram três e não milhares os operários mortos.

 

É o dilema dos remadores de Bem-Hur assassinados às chicotadas, indefesos e agrilhoados aos remos, voltando ao tema do novo feitor em sua missão.

 

Porque, no final do contexto, ao cruel gestor na execução do mando, pouco interessa o fuzilamento em unidades, em centenas ou em dezenas de milhares. Para o editorial do Pravda de 1920, por exemplo, no alvorecer da deliciosa república do proletariado, “o melhor lugar para um grevista, aquele pernilongo amarelo e nocivo, é o campo de concentração”, com Lênin exigindo até o uso compulsivo de “execuções maciças” para debelar uma greve de ferroviários.

 

Ou seja; uma coisa vira outra coisa, quando se muda de lado, ou para o outro lado, do mando e do balcão.

 

E não se trata de mera mudança de sistema de referencial galileano ou machiano; a mudança é de comportamento, de ousadia, entremeados de coragem e indiferença, afinal sempre existirão os incapazes e os capazes de tudo, inclusive com belos discursos, dourando a pílula ou escondendo a pústula.

 

E neste universo de tantos bons moços e bem mais capazes de tudo, o totalitário continua a rimar com o colérico atrabiliário, igual a tantos tiranos e tiranetes, que não aceitando a divergência, usam a lei e seus excessos para esmagar quem lhes surge pela frente como óbice ou oponente.

 

Nada que se imaginaria, em alma e em essência, num feitor que sofrera como escravo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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