O Poder das Redes na Resolução Criativa de Problemas

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Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e as filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um dos seus fios. Tudo o que faz à teia, faz a si mesmo.

Trecho da carta do Cacique Seattle

Por força do meu trabalho, hoje em dia, estou conectado a várias redes (virtuais ou reais), todavia a minha experiência em trabalhar com redes iniciou em 1996, através de um projeto que desenvolvi com um grupo de parceiros e, naquela ocasião, acreditava que incentivar as pessoas para que fizessem parte de uma rede de comunicação virtual seria uma atividade interessante.

O mais importante disto tudo é que a análise que faço hoje é que foi mesmo muito importante e interessante para a maioria das pessoas que compuseram essa rede. Embora para muitas pessoas dessa organização a rede não tivesse nenhum valor prático, o meu acompanhamento diário da sua evolução me permitiu fazer conexões e tirar conclusões ao longo de quatro anos, o que a tornou para mim e muitos outros um campo de experiências fantástico e sem similar. Conviver com essa rede virtual (e real) que basicamente era uma rede de relacionamentos me permitiu poder observar, analisar, acompanhar, testar, tirar conclusões fantásticas que dificilmente em outras situações teria tido essa oportunidade.

Do ponto de vista do processo criativo/criatividade, posso afirmar que acompanhei o resgate do potencial criativo de várias pessoas que resolveram fazer daquela rede o seu canal de expressão. Pessoas tímidas que acreditavam não saber de expressar bem, gradativamente foram organizando a qualidade do seu pensamento de maneira fantástica à medida que souberam sabiamente utilizar a rede como uma ferramenta pró-ativa para a expressão dos seus pensamentos e sentimentos e, consequentemente se permitiram trabalhar com o “julgamento adiado”.

Ao longo dos anos em que durou essa experiência tive a oportunidade de acompanhar vários estilos de participação na rede: 1 – Os que apenas “repassavam” textos e mensagens de terceiros; 2 – Os “arredios e desconfiados” que apenas liam os textos e ocasionalmente me enviavam mensagens elogiando ou criticando; 3 – Os “empreendedores“ que geraram alguns produtos: comentários sobre cinema, os acontecimentos da semana, etc; 4 – Os ”religiosos“ que resolveram passar o evangelho do dia, mas esqueceram de perguntar que os participantes da rede queriam aquele produto e como resultado geraram uma polêmica sem precedentes; e 5 – os ”fogueteiros“ que começavam a se colocar intensamente e a todo instante e desapareciam na mesma velocidade que tinham aparecido; 6- os ”observadores“ aqueles que a exemplo dos processos da vida, literalmente preferem apenas observar; e 7 – os “sábios” (para mim) que a utilizaram profundamente e puderam aprender e amadurecer bastante com ela.

Ao longo dos quatro anos pude observar criteriosamente o que acontecia à rede e que similarmente poderia dizer que era um reflexo, uma réplica do que acontecia – também – na organização. Ou seja, as mesmas atitudes estavam permeando os todos os processos, em pequena, em média e em larga escala. Muitas vezes em momentos de “crise” percebia que era necessário conversar com os seus integrantes (mais ou menos 500) e escrevia sobre os sentimentos que naquela ocasião percebia que estavam em evidência. Muitas vezes constatei que as coisas se acalmavam e situação se esclarecia ou voltava ao normal.

Por conta dessa experiência fui comprovando o quão importante e vital para uma organização é manter viva uma rede desse tipo e o quão salutar poderá ser esse investimento que na verdade é irrisório, quando comparado aos resultados que poderão ser obtidos quando essa ferramenta é utilizada com sabedoria.

Daí, constato surpreso que esse não é – infelizmente – um hábito nosso; pois convivo como participantes de redes internacionais cuja discussão vai do planejamento estratégico, discussão de temas, solução de problemas e até o estabelecimento dos preços dos seus eventos.

Assim sendo, percebo que muitas redes não vingam por alguns motivos essenciais:

1 – primeiro os seus participantes não estão preparados, seja pelos idealizadores/condutores da rede, seja por suas organizações para o verdadeiro trabalho em rede, seja virtual, seja real (times, equipes, etc).

2 – A criatividade só acontece quando os participantes entendem que poderão fazer diferentes contatos e em questão de minutos, discutir idéias, selecionar e gerar soluções potencialmente enriquecedoras

3 – Para que isso aconteça, é necessário, antes de tudo se compreender que todos precisamos saber tratar e lidar com as informações que nos são disponibilizadas e, ao invés de considerá-las – apenas – como “poder”, entendermos que informação dentro do conceito atual da nova ciência é antes de qualquer coisa “alimento”.

Daí a necessidade que as pessoas sentem de informações no âmbito pessoal, profissional ou organizacional. Todos precisamos delas para realizar bem o nosso trabalho e, constatamos que à medida que nos são suprimidas ou resguardadas, fato muito comum naquelas organizações nas quais a informação é considerada “poder”, tem-se como  resultado as comuns crises de comunicação que geram insatisfação e desorientação para grande parte dos empregados.

Tenho constatado, hoje em dia, que muitas dessas informações que alguns gerentes teimam em guardar e considerá-las como “estratégicas” (e “ultra-secretas”) estão disponibilizadas nos portais internet e intranet das suas organizações. Coisas da vida…

Todos precisamos de informações para fazer bem o nosso trabalho. As redes poderão muito bem suprir esse papel uma vez que quando essas informações são sabiamente disponibilizadas e as pessoas são abastecidas com informações seguras e significativas todas poderão lidar com os questionamentos que surgem nas suas áreas de trabalho e através das redes de comunicação discutir problemas e gerar soluções criativas.

O pensamento linear sempre fez com que a informação fosse filtrada por níveis de confiança, ou seja quando menor fosse a posição do indivíduo na organização menor o seu poder de ser informado. Isso fazia com que muitas vezes as pessoas tentassem resolver problemas mas não conseguissem chegar ao final do processo por falta de informação. Com o conceito de que a informação é “alimento” e associando-a ao trabalho das redes a informação poderá ser distribuída na organização como um todo e as discussões ao serem levantadas nas redes permitirão que diferentes percepções sejam confrontadas e assim as soluções criativas possam a ser obtidas mais rapidamente e de melhor qualidade. Dessa forma essas soluções encontradas permitirão também que haja um maior comprometimento dos participantes do time que as gerou e, como conseqüências todos se sentirão como partes ativas do processo.

Portanto, restringir o fluxo natural da informação não faz dos executivos “bons e confiáveis”, porque na verdade ao retê-las eles estão se comportando como “porteiros”, selecionando quem pode e quem não pode fazer um bom trabalho, ou seja, com essa atitude poderão estar impedindo que pessoas competentes possam fazer um bom trabalho.

Portanto, as redes são consideradas hoje ferramentas poderosas para as organizações, pois quando bem utilizadas e administradas poderão criar condições que não apenas gerem novos conhecimentos mas principalmente permitam com que possam ser compartilhados livremente.

Embora alguns velhos “comandantes” organizacionais ainda resistam, está provado que as organizações que incentivam o desenvolvimento das redes permitindo que as pessoas estejam ligadas umas às outras através da tecnologia e do significado compartilhado na verdade estarão permitindo que os seus “soldados” possam tomar decisões que garantam além do sucesso da batalha que também se tornem muito mais eficientes e felizes.

Fernando Viana é presidente da Fundação Brasil Criativo
presidente@fbcriativo.org.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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