O politicamente correto como farsa.

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Uma das coisas mais terríveis é a ditadura. Ao dizê-lo, não estou condenando as tiranias acontecidas no passado querendo com isso estabelecer uma imunização para o futuro dos povos.

 

A história tem revelado que os regimes autoritários nunca surgiram por acaso, daí a sua repetição em nuances e diferenças.

 

Também não quero bancar o ingênuo, imaginando que as origens do totalitarismo são tão simples que se possa coibi-lo com boas intenções e sentimentos carinhosos. A história se repete. E tal reprodução se faz em matiz multivariada. Porque ela, a história, não desabrocha apenas nas vertentes de tragédia e farsa como dissera Karl Marx no seu hoje hibernal “O Dezoito Brumário de Luis Napoleão”, mas que restou famoso em repetição ao esgotamento, por broncos e literatos.

 

Repetindo Marx em cascata, com aura de nobreza científica sobremodo, escamoteia-se à sofreguidão, que em ambos os casos e em todos os outros, fora sempre o povo que desejara a ditadura, por expressão manifesta. E não foi inútil, nem fútil, afinal a rebarbarização de costumes sempre é responsável por tal evolução cíclica, espiralada e progressiva, sempre se repetindo na comédia humana.

 

Mas, ao falar na desumana comédia, não estou a pensar na prosa de Balzac, nem no inferno dantesco, pois o cômico se faz mais trágico quando uma nova ditadura, a do politicamente correto, está se enraizando na nossa ambiência de terceiro milênio, do futuro que já chegou. E este futuro acontecido é mais uma etiqueta falsa que contamina a realidade e nos faz contidos e jungidos, indefesos perante o caos.

 

Hoje, porque não se teme a Deus, nem a qualquer deus, e o diabo aí também incluído, como anti-deus ou um deus às avessas, acreditamos que o politicamente correto seja a solução para os nossos traumas. E uma nova tábua de mandamentos, faz tabula rasa do antigo preceito de nossos antepassados.

 

É como se o novo testamento estivesse dando lugar a um novíssimo, em que se é permitido matar, corromper, roubar, adulterar, estuprar, perjurar e violar, tudo o que antes era falta grave ou pecado sem perdão. Hoje, se tudo ainda é condenável, ninguém o pode externar, afinal bem mais execrável é criar uma sombra de constrangimento ao contraventor ou culpado. No máximo podemos encará-lo como suspeito, sendo merecedor do anonimato que pacifica todos os ânimos.

 

Não podemos, sob pena de ignomínia maior do politicamente correto legal e faccioso, ser embaraçosos com os causadores do mal. Precisamos submetê-lo primeiro à ampla defesa que deve acontecer em suave decantação dos ânimos; ao esquecimento, se possível. E, jamais, mesmo tudo passado e julgado, execrá-lo como um malfeitor.

 

Acredita-se que a humanidade, em toda sua extensão e variedade, seja pura e bela. Esquecem que gema e ganga não estão presentes na natureza em proporções paritárias. Fosse assim, a áurea pepita não restaria rala na bateia do garimpo, e o cristal sem jaça se confundiria na desvalia dos minerais silícicos.

 

A beleza existe, a generosidade também, mas isso não quer dizer que a humanidade seja bela em toda sua extensão e variedade, e haja ternura em ampla disseminação entre homens e mulheres. E o politicamente correto nos impõe considerar que a virtude é inerente ao humano, e a bondade um caráter irrestrito de toda a humanidade.

 

O politicamente correto entende que nos devemos enganar uns aos outros porque no terceiro milênio, o agasalho do império da lei protege o homem do lobo, seu semelhante.

 

E o resultado é a insegurança inerme do próprio homem que está a viver em moradas providas de paliçadas e armadilhas, verdadeiras jaulas de feras.

 

Este é o nosso cenário de modernidade.

 

Mas, a humanidade é boa e previdente! Repete o tolo que encara o mal como fruto de ausência de afagos e avareza de carinhos.

 

É possível alcançarmos deste modo, só com afagos e carinhos, um mundo melhor sem o uso do desforço para coibir a desorganização da sociedade?

 

É possível sanear a natureza sem a preocupação da geração do lixo, a partir das águas servidas no banho matinal ou na descarga dos dejetos, esgotos e cloacas em demanda do rio e do mar?

 

É possível inverter o binômio, comodidade-sustentabilidade, sem que resvalemos nas boas intenções das indecisões ou das decisões inócuas?

 

É possível tudo isso só com persuasão suasória, palavras candentes e boas maneiras?

 

Reflitamos nossa atual ambiência e realidade, diante do muito a preservar e construir, sobretudo neste ano de eleições gerais e definições políticas.

 

Mas, logo agora quando a alma nacional parece-nos pacificada, sem traumas e insatisfações generalizadas, devemos pensar em dilemas? Não bastou Fukuiama parecer coberto de razão, com o ocidente vivendo o fim da história e a morte das utopias igualitárias?

 

Pois é! Que terrível! Morreram as utopias e seus radicais foram calados. Estão envergonhados, aplaudindo o stato quo em palmas de unha, sussurrantes. E o marasmo é tão grande em monotonia e calmaria que não se percebe no Brasil um desejo generalizado de mudanças, tanto no âmbito federal como estadual, embora nossos problemas de insolvência, desigualdade e ignorância permaneçam sem remédio ou previdência.

 

A perdurar o mutismo do noticiário, as eleições de 2010 consolidarão os feitos de 2006, todos querendo estar ao lado do governo federal e estadual, sobretudo no federal com Lula, embora se fale que sua candidata, a ministra Dilma Roussef, não seja de bom palato eleitoral.

 

E a oposição que está ainda sem candidato declarado, continua sem se firmar em consistência e diferença. Sabe-se que o seu candidato deverá ser o governador paulista José Serra, mas ninguém sabe ainda o que pensa e prega a oposição. E a oposição repete a exaustão: o Serra é o Serra, ora essa! Como se fora mais um dogma de ocasião.

 

E eu que rejeito dogmas, permaneço sem opção, afinal o problema da oposição tem sido a sua absoluta falta de posição, em inteligência e criatividade; Experimentou reeditar um golpismo démodé à Carlos Lacerda, e tem parecido mais feia que a vassoura caricata de Jânio Quadros ou o seu mal cheiroso sanduíche de mortadela.

 

Mas o politicamente correto me condena por julgá-la assim sem misericórdia ou ternura.

 

Anima-se a oposição em postulado ou escólio, aspirar-se como a única alternativa de poder, porque isso lhe parece de bom tom nas democracias.

 

Seria a alternação no poder, de grupos e de oligarquias, uma condição precípua e necessária da democracia politicamente correta a cada refrega eleitoral?

 

Se o é, para que serviriam os homens e suas idéias? Bastar-lhes-ia uma combinação de sucessão consentida, semelhante aos acordos café-com-leite da república velha, cheia de rebeliões e insurreições.

 

E assim volta a minha pergunta incorreta politicamente, querendo cobrar-lhes coerências e definições: Que pensam os partidos rechaçados do poder sobre a economia, a independência do banco central, a previdência social, o desbaste da máquina pública, as políticas sociais de redução das desigualdades, o descomprometimento com a educação e com a saúde?

 

O que se pretende quanto às ações na segurança, na política do aborto, da menoridade penal, da transgenia na agricultura, das pesquisas em células-tronco, da descriminalização das drogas e da imoral reserva de cotas escolares?

 

Quem souber que a exalte com ênfase. Porque o correto politiquês recomendará por absoluta covardia, evitar conflitar a unanimidade bem comportada, e assim ser bem melhor restar insosso, indefinido, sendo falso ou burlesco, em doçura de cajurana.

 

E assim, fugindo da discussão que eleva, prefere-se demonizar Dilma Roussef pintando-a de virago e chamando-a de mentirosa, enlameando até o seu passado de luta como deletério e sem fibra, tentando lhe colocar um chifre de rinoceronte na testa, mandíbulas de jacaré e fumos de dragão. Porque no preceito politicamente correto, o que vale é ganhar a eleição. “O feio é perder”. Ou então: “Caluniai! Algo sempre fica!”

 

Mas, não será tal reincidência em crítica, uma persistência no erro destrambelhado do senador equivocado a merecer reprises de força e gana?

 

E é bonito colocar tantos adornos mal embonecados num rosto feminino, só porque uma mulher conseguiu se firmar por competência e garra num mundo de homens?

 

Não seria melhor um debate das idéias acima listadas, sem caricaturas injustas e infaustas?

 

É neste cenário lamentável que se apresenta a próxima eleição. E ainda falam no politicamente correto como necessário nas relações humanas.

 

“Nas contendas da vida – repete o colégio dos grandes homens – não exija a educação do seu adversário. Demonstre a sua!” E isso não é eufemismo de pregação adocicada. É um convite ao preparo para a vida, adestrando-se e armando-se para o bom e leal combate.

 

Mas, não é assim o conselho vigente ao desarmar os espíritos para a luta da vida, que é sempre suada e renhida.

 

E a vida continua; uns vencendo, outros não tanto.

 

Tentar se firmar no caráter, na seriedade e no proceder honesto, constitui melhor valia que a indiferença dos que só conseguem ser mornos e indiferentes.

 

E a mornura do politicamente correto, cheia de pruridos de não-me-toques, nunca construirá um mundo melhor, à base de conveniências por farsas.

 

Que a próxima eleição se desenvolva no livre debate das idéias, sem farsas politicamente corretas, peias demagógicas, figuras vazias ou denúncias mal fundadas. Que o eleitor lhas seja imune, pelo menos!

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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