O PROBLEMA CONTINUA

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Não se pode negar que os últimos prefeitos muito têm feito por Aracaju, mas um problema continua sem solução. Como ser político é mais vantajoso do que ser um estadista, medidas, de longo tempo de maturação, para melhorar a qualidade de vida da população, valem menos do que ter obras civis para serem mostradas. Todo este preâmbulo é para, mais uma vez, tentar chamar a atenção para um problema, cada vez maior, que está acontecendo em nossa cidade: é crescente o número de crianças que, em vez de estarem nas salas de aula, estão nas ruas, praças e avenidas esmolando. Complementação da renda familiar, campanha de conscientização de que a esmola não resolve, campanha de conscientização dos pais das crianças flagradas esmolando, sobre responsabilidade civil, são medidas que, se tomadas, poderiam resolver o problema. Um dia desses, eu vinha caminhando pela avenida Ivo do Prado e vi um ônibus, que ia em direção à Atalaia, com muitos menores agarrando-se nas janelas e porta traseiras e, inclusive, no cano de descarga, ou seja, uma aventura com altos riscos. Este ônibus parou num ponto e quando partia, o trocador impediu que aqueles menores continuassem a colocar em risco as suas vidas. O maior deles, aborrecido, procurou algo e encontrou uma lata de tinta, de um quilo vazia e atirou-a contra o ônibus. Eu chamei sua atenção, porque sua atitude poderia ter causado dano ao ônibus e ferido algum passageiro. Ele respondeu-me que atirou a lata para se vingar do trocador. Um senhor que assistiu nosso diálogo, disse: “Esses guris estavam instantes atrás, ali no canto daquela praça, cheirando cola. Eu até pensei em tomar-lhes a cola, mas raciocinei: E se a reação deles for violenta? E se para defender-me, eu causar-lhes algum mal? No fim serei eu o indiciado por transgredir o Estatuto do Menor e Adolescentes. Por isto, eu fiquei na minha e eles continuaram cheirando cola”. Na mesma avenida, mais à frente, no sinal da esquina com a Av. Augusto Maynard, enquanto as mães estavam sentadas nos bancos da praça e conversavam descontraidamente, seus filhos menores disputavam as janelas dos carros ali parados em troca de uns centavos. Este quadro, aliado ao quadro anterior, fez-me pensar: A sociedade, na sua frieza, desinteresse e para desencargo de consciência, faz de suas esmolas a essas crianças um trampolim para o vício e a prostituição. Será que a sociedade não consegue ver que essas esmolas dadas às crianças nas ruas são um desserviço à formação do caráter e personalidade desses menores? E as autoridades executivas, legislativas e judiciárias não poderiam descer de seus carros, às vezes, blindados, com ar condicionado e motoristas, sentir o drama dessas crianças e tomar alguma iniciativa no sentido de resolver o problema? E as associações de classe, não poderiam ter uma visão maior de cidadania e lutar, com o mesmo ardor que lutam para defender os seus interesses, para tirar essas crianças das ruas? E as religiões, inclusive proprietárias de estações de televisão, para ir além do que pregam, não poderiam adotar algumas dessas crianças? O que não adianta, é de um lado fazer campanha contra o desemprego e do outro manter colégios, os quais somente podem freqüentá-las aqueles que fazem parte da elite. A imprensa também poderia adotar esta causa, A um canal de TV, certa vez, eu sugeri que, através de debates, com a participação dos telespectadores, institucionalizasse uma campanha para retirar essas crianças das ruas. Como não dá “IBOPE”, ficou só na sugestão. Edmir Pelli é aposentado da Eletrosul e articulista desde 2000 edmir@infonet.com.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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