O que aprendi com Bell Hooks

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Nascida Gloria Jeans Watkins, a escritora norte-americana Bell Hooks, partiu para o Orun deixando um legado para além das mulheres negras, mas para toda a sociedade que, assim como eu, precisa romper com as barreiras do colonialismo da linguagem e do ser.

Conheci a obra de Bell Hooks em 2015, recém-chegada no curso de doutorado em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Matriculei-me numa matéria ministrada pela profa. Dra. Miriam Grossi sobre Gênero e interseccionalidades. Nestes encontros, assim como Bell, me reconheci em minhas avós, e reconheci um feminismo através de minha ancestralidade que não era esse que está nos livros de autoras ocidentais ou em grupos mais radicais, mas um feminismo com atravessamentos, que respeita contextos, trajetórias, narrativas.

Bell me ensinou que ,“como o desejo, a linguagem rompe, recusa-se a ser encerrada em fronteira”, e isso me tocou profundamente, tamanha a complexidade que é a linguagem de nossos ancestrais, tamanha a violência de apagamento das linguagens que não sejam as hegemônicas. E diante da complexidade de seu pensamento crítico, formamos um grupo para apresentar um seminário sobre feminismos negros, em que teríamos que falar sobre Bell, Patricia Collins, Angela Davis e Gloria Anzaldua, autoras que desde então, não consigo parar de ler sempre que preciso, e preciso sempre.

Nesse processo, num grupo formado por uma sergipana, uma alagoana, uma paraibana, um cubano, uma mineira e uma gaúcha, fizemos um vídeo sobre uma conversa entre elas, e eu tive a grande honra de interpretar Bell Hooks. Ao longo de nossos encontros e nossas trocas, formando laços que até hoje seguem acarinhando nossas relações à distância, pensei sobre um trecho de um dos inúmeros artigos dessa grande autora que diz:  “Reconhecer que nós tocamos uns aos outros na linguagem parece particularmente difícil numa sociedade que quer que acreditemos que não há dignidade na experiência da paixão, que sentir profundamente é ser inferior”.

Bell Hooks deixa um grande legado com obras significativas não somente para quem é ou está na academia, mas para uma sociedade que ainda desconhece o amor como ação, o amor-próprio, o amor à sua história, o amor como prática de liberdade e o amor como cura. Leiam Bell Hooks, ela mudará as suas vidas, assim como mudou a minha.

*Dedico esse texto à minha irmã de axé, Reco de Xangô, que fez sua  passagem no dia 16 de dezembro, após um infarto. Meu coração está dilacerado, mas guardarei os fortes abraços, a sua alegria em nossos encontros e o início de nossa amizade, compartilhando o roncó em meu primeiro bori no Ilê Axé Omin Mafé, em 2012. Te amo, Reco, que nosso pai Xangô esteja lhe acolhendo com muito amor e luz. OLORUN KOSI PURÊ.

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