O que vale mais, o escritor ou o livro?

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O título vem de José Roberto Torero [premiado autor de O Chalaça (Jabuti e Livro do ano 1995) e Pequenos Amores (Jabuti 2004) e dezenas de outros títulos] em seu texto publicado no Jornal do Dia desta quarta-feira 18 de Julho.

“O que é mais importante, o criador ou a criatura? Eu prefiro a criatura”, responde Torero.

Não lhe interessa que o autor seja vesgo, tenha sido baleado por mira mal assestada, um sobrevivente do tsunami japonês ou um cover de Carmem Miranda. O seu interesse é a criatura, isto é, a produção literária ofertada ao leitor.

O questionamento do título deriva do diferente interesse manifestado pelas resenhas literárias.

No lugar da análise dos escritos, maximizam-se os feitos da pessoa física do autor, sua vida pregressa, posicionamentos políticos e ideológicos, valendo mais ou pior, se lutou pelas liberdades democráticas ou se aplaudiu a tortura, em pouca ou nenhuma vergonha, se foi seviciado na infância, se largou a pederastia por debalde experimentação na busca reversa do ponto G, se é flamenguista ou corintiano, se rebola no Salgueiro, na Vai-Vai ou nas Italianas, se é crente, descrente ou discordante, enfim, tudo o que pode ensejar a rejeição ou a propagação da obra.

Em tais sinopses o mais importante não é o recheio do texto, mas a cartilagem de seu invólucro; a orelha do livro.

Neste particular, Torero relata o feito de Laura Albert, uma ex-punk balzaquiana, se fazendo passar por JT LeRoy, ou Jeremiah “Terminater” LeRoy, “um jovem de quinze anos, ex-viciado em heroína, que teria sofrido abuso sexual na infância e se prostituído para viver”.

E JT LeRoy é bom exemplo, porque a partir de seu viés curricular, Laura Albert virou best-seller, num sucesso tamanho que resolveu ir mais além fazendo o próprio LeRoy saltar da ficção para a realidade, por meio de um comparsa nunca acessível ao vivo e em cores, mas que via telefone, municiava entrevistas bombásticas pela imprensa, isso por dez anos, até que a falsificação foi descoberta e ambos, Le Roy e sua criadora, perdessem o estro, a criatividade, e a vendagem de novos títulos.

Algo parecido com David Nasser, o polêmico articulista de “O Cruzeiro” (Semanário de Assis Chateaubriand, e leitura imperdível da minha infância), que criou o folhetim “Giselle – A Espiã Nua Que Abalou Paris”, relato da bailarina fictícia, Giselle Montfort, publicado como verídico no jornal Diário do Norte, em 56 capítulos, num tempo em que eu nascia, e que depois, reunidos em quatro livros de bolso pela Editora Monterrey ZZ7, virou leitura obrigatória pelos da minha adolescência, como se fora um relato testemunhal da ocupação nazista na França.

Só que David Nasser cansou de Giselle, matou-a por fuzilamento, vendeu os direitos autorais e a série foi continuada pelo escritor espanhol, Antônio Vera Ramírez, que a assina com o pseudônimo de Lou Carrigan, produzindo vários títulos com a personagem Brigitte (conjuminância de Giselle com o General Erwin Von Rommel, a raposa do deserto?), cuja saga possivelmente continua por sequência familiar, arrastando, certamente, muitos leitores.

Assim, como produto de marketing ou simplesmente má fé, Giselle Montfort e JT LeRoy renderam muitas vendas por biografia tão fantástica quão reais, para engano e deleite do ledor, a morder gato por lebre.

Diferente do escritor, afirma Torero no seu questionamento entre o escritor e o livro, “ninguém quer saber a biografia de um médico que nos opera, do marceneiro que faz nossa mesa, nem do professor que ensina nossos filhos (o que seria bem mais importante)”.

E assim aconselha em fecho risível: “De qualquer forma, se você está escrevendo seu primeiro livro, aconselho gastar menos tempo com o texto e mais com sua autobiografia. Invente algo bem criativo. Diga que tem dois sexos, que é especialista em magia negra, que sua mãe assassinou seu pai e que foi amamentado por lobos. E, se der uma entrevista, não se esqueça de uivar no final”.

Não é este o caso do livro “História de Vários Tempos”, a ser lançado pelo escritor Artur Oscar de Oliveira Deda nesta sexta-feira, 20 de julho, às 19 horas, no Museu da Gente Sergipana, antigo prédio do Atheneuzinho, situado na Avenida Ivo do Prado, nº 398.

O livro de Artur Oscar de Oliveira Deda.

Desembargador aposentado de alta e meritória atuação na magistratura sergipana, o autor é um velho formador de jovens, professor de várias gerações de advogados, desde a antiga Faculdade de Direito de Sergipe, a vetusta escola da Rua da Frente.

Poder-se-á dizer ainda que o autor é um simão-diense (ou anapolitano, por longa briga), filho do jornalista, escritor, político eloquente e folclorista luminoso, José de Carvalho Deda, autor de Brefaias e Burundangas (folclore sergipano), Formigas de Asas (romance), Simão Dias, Fragmentos de sua história (onde há três Simão Dias e só um deles verdadeiro), e sua senhora Dona Maria Oliveira Deda.

Ainda se poderá dizer que seu nome, Artur Oscar, e de um seu irmão, Carlos Eugênio, lembram passagem da Guerra de Canudos, de generais que pisaram o solo de Senhora Santana no combate à “Guarda Católica”, do hoje santificado Bom Jesus Conselheiro.

Parando com a biografia do autor, antes tenho a declarar, que lhe tenho profunda admiração e ao seu irmão, o advogado Beto Deda, espécie de Cavaleiro Templário, fiel guardião zelador dos arquivos de “A Semana”, jornal simão-diense que precisa ser digitalizado para constituir arquivo de nossa história.

Mas, em “História de Vários Tempos”, é difícil sublinhar o melhor texto entre os oitenta listados por Artur Deda.

Como não achar delicioso o texto “Sobre milagres”? Como não ficar feliz em sendo um torcedor derrotado do Club Sportivo Sergipe, saindo cabisbaixo e tristonho do estádio, em choro gerundial compulsivo, e ver que um milagre acontecera, e do pranto surgira o riso com o entorno universal alvirrubro, em euforia arrebentando: “… O pendão alvirrubro a vibrar…” , em pleno fervor como nem o poeta Freire Ribeiro o imaginaria em Troféus e archotes, e no próprio hino do “Bravo clube dos filhos do Norte”?

Que dizer das visitas à Cruz de Bela, e à santinha do Maruim, e do milagre realizado pelo autor “mordido pelo sentimentalismo pequeno burguês”, no dizer de seu mestre Orlando Gomes, e sendo santo, terno e bom, tão milagreiro, quão taumaturgo, igual ao monge menor de Voltaire, exercendo milagraria em terra estranha, em São Paulo, na desvairada Paulicéia, até para confirmar e reafirmar, que é bem mais fácil ser profeta em terra alheia?
Como esquecer também da folheira convocação para se comprovar vivo, comezinho e corriqueiro chamamento, de obrigação anual do indivíduo aposentado, peregrinando por repartições, onde não valem o verso e o canto de Roberto Carlos;  “Eu existo!… eu existo!… eu existo!…”?  Mas, que é preciso provar, estar vivo “sob as penas da lei”?

E que dizer da labiríntica procura por salas e corredores, como Teseu sem Ariadne e seu fio, na busca a fio do inexistente Departamento de Recursos Humanos, morto e enterrado sem lápide, só porque nas repartições públicas “existe a prática de abreviar tudo, inclusive os direitos e deveres?” Genial! Não?

E daí o DIDEV, ou o Departamento de Direitos e Deveres, para dar o atestado de vida?

E o que dizer da abalizada fundamentação jurídica, amparando-se no belga Picard, um homem de pensar controverso, refletindo sobre a arte e o direito, e o engajamento da própria arte, em rejeição ao hermetismo, como se fora “algo destinado apenas àquele que se acostumou a respirar o ar rarefeito das abstrações”, ou como diria eu, por pior e rele inspiração, daquele que se quis melhor por abstração do mundo, recluso nos gabinetes acarpetados, com o ar tão frio quão vicioso, onde o espirro é filho do ácaro por oxigenação carente, excesso de pura sombra, sombrio no alvedrio, e em desbrio de pouca luz?

Como não exaltar a luminosidade do autor a esclarecer o Direito Autoral, em citando Tobias Barreto, como seu assumido inventor, com palavras que o sergipano de Escada não poderia escutar do italiano Bobbio, nem tão quanto de Clovis Beviláquia, o tobiático cearense, e pior nos nossos CD’s e DVD’s, inserindo-os remasterizados e compactados nas angústias do camelô, com direito ao cantar de Billy Blanco sem esquecer o “rasgo de gênio ou de meditação diuturna” do cantar dos passarinhos?

Ah! É preciso ler o livro de Artur Oscar, este seguidor de Montaigne, para quem a vida é cavalgar, é seguir, continuar, mesmo que em velhice tantos nos deprimam adotando-nos como tios. Um incômodo tratamento que os sobrinhos hoje elidem, por esquecimento ou desprezo, mas que bem mais perdem do que ganham.

E o que dizer do gerúndio, e da vingança final do Dr. Manjericão, enfrentando tantos “havendo, considerando, declarando e quejandos”? Desforra que prevaleceu solene e terminal, “vivendo e aprendendo”, cassando até o Governador Arruda, seu propenso caçador letal?

Realmente, o livro de Artur Oscar é de uma delícia sem igual. Não é uma coletânea memorial de feitos julgados, teses inusitadas, pronúncias e sentenças referidas, algo bem comum ao vício do cachimbo, ou excessiva utilização de bengala.

Como bom discípulo de Montaigne, repetindo-o sem exaustão, o autor é homem de muitas viagens. Um viajor que enriquece, sobremodo, a sua passagem.

Dos feitos de outros, há sorriso e sensibilidade até na descrença do bom senso de muitos julgados, como aquele em que ao fio de uma desvendada Themis, a deusa da justiça e da equidade, intentou-se um labor jurígeno contra a passagem do tempo e a inexorabilidade da expulsória aposentadoria. Algo que bem tentaria desmentir Galileu, o Galilei, que pela boca de Bertolt Brecht gritara qual lei divina, por imutável e irrecorrível aos tolos: “A soma dos ângulos de um triângulo independe da vontade da cúria”.

Mas, norteado pela indisfarçada incúria, com Themis mirando todos, requerentes e concedentes, intentava-se a pretensão de um congelamento temporal, um atemporal contratempo, imoral e pouco legal, de um pause nos ponteiros do relógio, fazendo-o estacionar para alguns, com o sol paralisado por Josué, na espera da trombeta que ensurdecendo por aturdia, envelheceria e envileceria a nossa circunstância.

E o magistrado escritor, mostrando que tudo ouvira, mas não se encantara, com o desafino da sereia, parece sorrir em desconfio: “Mesmo aceitando,..  ser ‘o tempo um canalha’,… Fico entusiasmado quando novidades aparecem em favor dos veteranos da travessia terrena. Aliás, depois de aposentado tomei conhecimento de uma tese animadora afirmando que a completude dos setenta anos para o afastamento compulsório do serviço público não se daria automaticamente com a cifra depois do sete. A verificação da idade limite só aconteceria no dia derradeiro dos setenta. E houve quem mais se animasse, ainda: o dia derradeiro seria o último da sétima década. Mas o Tribunal apagou o fogo de palha, jogando água nos velhinhos persistentes”.(grifo meu)

Persistências à parte, muita coisa eu teria a falar do livro de Artur Oscar de Oliveira Deda e suas viagens. As peripécias do Pimpinela Escarlate, do Durango Kid brasileiro, do Barão de Candeias, de Zaratrusta parindo Zoroastro sem sizo ou analgesia, de Gilberto Amado e nosso hino conciso, enquanto nó suíno ou górdio; do “áureo jucundo dia”, a desfiar estudos de plágio, sem “contradictio in terminis de  julgamentos preconceituosos e judiciosos preconceitos”.

E por que não lhe ressoar as histórias de cachorro, de pássaros, de gorjeios de netos, em palavras de esperança e desvelo, de quem faz milagre também, e que enriquece sobremodo a vida e o seu derredor, só com o próprio viver?

E assim volto à pergunta inicial de Torero. O que vale mais, o escritor ou o livro?

Como eu não sou crítico literário, não tenho que a isso responder. Ou ambos, se for instado a concluir. Direi apenas, por melhor, que o livro-vida lançado por Artur Oscar de Oliveira Deda é uma delícia para os amantes da boa literatura. Recomendação que eu estendo, até para os que não gostam tanto de ler.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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