O RETORNO DO VELHO CIRURGIÃO

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Gileno discursa na inauguração do Centro Cirúrgico do Santa Isabel. Ao seu lado, Machdo de Souza, Augusto, ao centro e o governador Luiz Garcia com sua esposa
Aproximava-se a data de  9 de novembro de 1964, que registrava o cinqüentenário da primeira laparotomia (operação abdominal)  realizada  em Sergipe, ocorrida no Hospital Santa Isabel. A diretoria do hospital resolve comemorar o feito. Mas como comemorar se o principal artífice dessa conquista não circulava mais por aqueles corredores?

Augusto César  Leite havia se afastado há mais de 30 anos do hospital, magoado com a decisão da diretoria à época, que suspendia a realização das cirurgias de maior porte naquele nosocômio e prometendo que enquanto vivo fosse nunca mais voltaria  a por os pés no hospital. Ele, um ano antes, havia conseguido junto ao Governador Graccho Cardoso a promessa da construção de um novo hospital na cidade. Sergipe precisava de um ambiente cirúrgico, adequado às novas exigências E Graccho cumpriu o prometido em 1926 inaugurando o Hospital de Cirurgia, o sonho concretizado de Augusto Leite e que passou a ser a sua única casa cirúrgica por décadas. O Santa Isabel, local onde ele realizou inúmeras e bem sucedidas cirurgias, era uma página virada em sua história. Mas seria mesmo? 

Gileno da Silveira Lima, diretor do Santa Isabel, vinha promovendo uma consistente transformação na casa, ampliando e modernizando suas instalações, construindo novos espaços e inclusive um novo centro cirúrgico, seguindo assim os passos de um outro grande realizador, o médico Carlos Firpo, que desde 1949 dirigia o hospital e somente se afastou em razão de seu brutal e enigmático assassinato ocorrido em 1958. Pois bem,  Gileno  tinha um sonho e começou então a  articular o retorno  do velho cirurgião ao Santa Isabel.

Após realizar grande número de cirurgias de menor porte e até mesmo cirurgias maiores, tais como amputações, somente em 1914 Augusto Leite realizou a primeira laparotomia exploradora, extraindo de uma paciente um miofibroma uterino. Para comemorar o cinqüentenário da data,  Gileno Lima então organizou uma cerimônia em que Augusto Leite realizaria novamente o mesmo ato cirúrgico numa paciente com o mesmo diagnóstico.  E o local não poderia ser outro: o Santa Isabel. Mas como conseguir convencê-lo a aceitar o convite? Missão difícil e talvez impossível. As resistências eram muitas, as mágoas ainda estavam acesas, havia uma separação nítida entre os grupos dos dois hospitais.

Augusto exibe a peça cirúrgica retirada. Ao seu lado, Aristóles e mais atrás o acadêmico Eduardo Garcia
Mas então veio a habilidade e a diplomacia de Gileno Lima. Solicitando a intervenção de colegas médicos que transitavam com mais conforto nos dois ambientes, Juliano Simões, Machado de Souza, Garcia Moreno e Benjamin Carvalho, ele conseguiu que Augusto voltasse à instituição e mais, dias depois, repetisse no centro cirúrgico do centenário hospital a mesma operação que havia realizado 50 anos antes. Emocionado, Gileno conta: “ – auxiliado por seu filho Oswaldo Leite e assistido por vários jovens médicos, o velho cirurgião, habilidosamente e ainda com firmeza e segurança, empunha elegantemente o bisturi, faz a incisão abdominal, disseca os diversos planos até chegar à cavidade, donde retira com o saca-fibroma, um volumoso tumor! Os jovens médicos assistentes do ato cirúrgico não se contêm e aplaudem calorosamente o velho cirurgião”. Augusto contava então com 70 anos de idade e não mais operava. A cirurgia foi um sucesso.  

Estavam presentes ao ato cirúrgico o seu filho Oswaldo Leite, com primeiro auxiliar, o doutor Aristóteles Augusto, o anestesista Dr.Ewerton Oliveira, entre outros. Ao centro cirúrgico, que acabara de ser teatro daquele extraordinário acontecimento, num ato de profunda justiça, e denominado Centro Cirúrgico Dr. Augusto Leite, o eminente cirurgião, num requinte de acentuada fineza e gratidão ao hospital, que lhe propiciou, nos idos de 1914, a oportunidade de realizar a primeira laparotomia em Sergipe, confiou à sua guarda o “ Bisturi de Ouro”, com o qual a classe médica o homenageara em 1959, por ocasião dos seus 50 anos de formado. Emocionado, diz: “ Dr. Gileno, deponho em suas mãos o instrumento que me permitiu receber as honras e as homenagens altamente enobrecedoras de minha vida profissional, meu bisturi, transmudado, um dia, pela bondade e excessiva benevolência dos colegas do Hospital de Cirurgia, em “bisturi de ouro”. Ele pertence ao Hospital Santa Isabel. A sua casa é esta. Fez-se aqui, nas estreitezas de suas oficinas. Aqui se preparou e aprimorou-se na prática do bom trabalho. Não traiu seu destino de respeito e amor à vida humana. Lutou contra a indiferença, contra o pessimismo dissolvente, contra a maledicência e a inveja. Fez ingratos. De tudo isto se valeu para se fortalecer no trabalho e granjear , com as graças de Deus, as maiores recompensas. Nem tudo que desejou, pôde fazer. Deu vida a muita gente. Fez muita gente feliz.”.

Tal gesto de extremada significação marca o retorno definitivo do Dr. Augusto Leite à casa que tanto estimava. Não sei atualmente se o áureo presente encontra-se incrustado, bem protegido numa redoma iluminada, nas paredes da diretoria do hospital Santa Isabel, como Gileno deixou. Creio que sim. O episódio do retorno do velho cirurgião ao Hospital Santa Isabel é uma das páginas mais emocionantes e significativas da medicina sergipana.

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