O rio

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Um rio é coisa muito sagrada. Lá de onde eu venho, todo rio é morada do sagrado, Oxum se banhando nas águas doces. Ouvi dizer, caboco me contou, que todo rio do norte do Brasil é morada de uma miríade incontável de deuses, encantados, abençoados seres que guardam as florestas, rios, animais, encantam as pessoas. Todo rio é lugar do imponderável virar real, de boto encantar moça, de naufrágios e milagres inexplicáveis.

Rio é a vida mesma que desce leito abaixo em corredeira. Rio é mulher, porque água é coisa muito feminina: é fonte de vida, é nascedouro, é curva. É lavadeira cantando e lavando roupa, os panos alvos quarando na margem. Rio é água constrita nas margens descendo, levando, lavando e, às vezes, transbordando. É calma e vagar, mas também é força destrutiva.

Rio é a alegria do banho, é água cristalina ou barrenta, verde, preta, azul. Nasci em cidade de rio de água barrenta, enfiava os pés no leito e a lama passava por entre os dedos fazendo cócegas. Na minha infância teve rio de águas marrons, cristalinas, barra de rio pra atravessar a nado e até um rio vermelho de águas desacreditáveis. Minha vida desceu o leito do rio e veio dar no mar. Mas é ainda rio, cidade com rio por todos os lados,  como veias que irrigam um corpo, os rios renascem Aracaju. E tem um rio majestoso, que às vezes é verde, derramado inteiro na frente da cidade.

Primeira vez que vi o São Francisco de verdes imensidões, foi uma alegria de nunca acabar. O rio imenso a viver mansamente dentro das margens, embora ao seu redor se pudesse ver as marcas dos dias em que ele desaguentando das margens saiu pra passear fora de seu leito. Primeira vez que atravessei o Paraguaçu foi numa canoainha que fazia água e ameaçava virar a cada vento mais forte. Mas nem tinha medo de cair em suas águas escuras, porque o Paraguaçu é rio de muitos encantos e encantamentos, porque havia tanta alegria em navegá-lo, que o mais era bobagem. Primeira vez que vi o rio Acre desacreditei de sua imensidão barrenta, floresta se erguendo na outra margem apenas vislumbrada. Em pé, na sua margem tão noturna, esperei que algum vento me contasse segredos daquelas águas poderosas.

Vi uma vez Kukenan nascendo aos pés do Monte Roraima, as águas molhando as pedras cantavam uma música que contava segredos de bilhões de anos. Águas cristalinas e geladas que me ajudaram a seguir caminhando numa jornada difícil. Uma vez, na Chapada Diamantina, encontrei o rio nascedouro do encantamento de todos os rios. Cachoeira imensa que brota entre dois paredões, água se derramando em força, barulhenta, acordando o mundo e os seres encantados. Nadei nessas águas escuras e frias, tentando reencontrar o encanto do mundo. Todo rio é um pouco outro rio também. Tem um pouco do Xingu no São Francisco, um pouco do Sergipe no Amazonas, tem um pouco do Paraguaçu em cada rio em que Oxum se banha.

Sou menina de rio, de água que corre pro mar. E como criatura das águas, tenho uma dificuldade intransponível em entender homem que olha pra um rio e vê barragem. Na curteza das minhas ideias, não se explica violar o sagrado de um rio, mudar curso de suas águas, encher de pedras suas margens, alterar definitivamente as correntes que levam e trazem a vida, o encanto, a poesia e o imponderável da existência.

Tenho dificuldade de entender trator a andar no leito do rio, a destruir o que a força das águas levou milênios para erigir. Não posso mesmo compreender que na cabeça de muita gente seja absolutamente plausível e necessário intervir no curso natural da vida de um rio pra construir barragem, pra construir casa, pra construir rua, pra concretar seja lá o que for. Não entendo muita coisa nessa vida.

Onde se banha Oxum depois que se enche de pedras a margem do rio? Onde dançam os deuses depois que se barra a passagem das águas? Onde se encanta o mundo depois que se seca o rio, que se muda o curso de seu fluir?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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