O Segredo de Brokeback Mountain – Araripe Coutinho

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O Segredo de Brokeback Mountain

 

 

 

Deve haver uma cartilha dizendo: você é homem, você é mulher. Você é bissexual(?) Não, você não é bissexual – você é hetero, apenas no inverno…vai para as montanhas com o seu melhor amigo e finge uma pescaria, enquanto se ama.

O “Segredo de Brokeback Mountain” é devassador. Ang Lee ultrapassa todos os conceitos experimentais e une fotografia e roteiro, na história de dois cawbois que se apaixonam e mudam todas as suas vidas para viver o que Oscar Wilde chamou do amor que não ousa dizer o nome. Mas ousa. O cinema tem nos dados, nos últimos anos, “As Horas”(Sthefen Daldri), “Abril Despedaçado(Walter Salles), “Fale com Ela”(Almodóvar) e “Beleza Americana”(Sam Mendes) provas inequívocas de nossa grande arte, única matéria a nos manter vivos e conscientes(se é que se pode!).

Em o “Segredo de Brokeback Mountain” o amor não é levado até as últimas conseqüências. É uma crítica contundente à sociedade americana que tem no presidente Bush a imagem do Caubói-macho irretocável e bronco. Mas comanda a maior potência do mundo, num ato sadomasoquista de ter todos os países subdsenvolvidos embaixo dos seus pés.

Todo o pai deveria levar o filho para ver este filme de Ang Lee. A maricona afetada, submissa, que lava a roupa do policial ou que faz Rodrigo Santoro em “Carandiru”, não existe. O amor é como diz Camões “fogo que arde sem se ver”. Não há beijos de língua(Glória Perez não pode ver Brokeback – ela é muito pudica), não há bumbuns lembrando Visconti e Thomas Man – não há. São dois homens com universos muito parecidos, mas tão desiguais. No  mundo inteiro devem existir Virgínias Woolfs, Ana Cristina César, Elizabeth Bishop, Cássia Eller, Sthepan Zuweig, Caravagio, Pedro Nava e tantas outras almas que sentem por mulheres e homens sentimentos arrebatadores.

O filme de Ang Lee é deslumbrante sob todos os sentidos.

Taiwan, um pequeno território asiático cravado no meio do oceano, provavelmente nunca imaginou oito indicações ao Oscar. E não é pela produção cinematográfica local que o país ganhou notoriedade em Hollywood. Aos 51 anos, o cineasta deixou seu país natal da década de 70 para estudar nos Estados Unidos.

Enquanto cursou cinema na Universidade de Nova York, teve oportunidade de trabalhar ao lado de Spike Lee como assistente de uma produção de estudantes. Após escrever roteiros e batalhar por uma chance, finalmente estréia como diretor em 1992, com o longa A Arte de Viver, que retrata temas de seu país. Em seguida, continuando a seqüência de filmes sobre a cultura taiwanesa, lançou Banquete de Casamento (1993), que faturou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, e Comer, Beber e Viver (1994), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Os primeiros passos de reconhecimento da crítica internacional e as premiações em diversos festivais de cinema, fizeram de Ang Lee uma grande promessa para Hollywood naquela época e ele não decepcionou. Em 1995 dirige Razão e Sensibilidade, marcando sua estréia no circuito de cinema mais famoso do mundo. Novamente foi premiado em Berlim, indicado no prêmio inglês BAFTA, no Globo de Ouro, entre outros.

Suas produções seguintes foram Tempestade de Gelo (1997) e Cavalgada do Diabo (1999) até que em 2000 os críticos se curvaram a ele com a estréia de um de seus maiores sucessos: O Tigre e o Dragão, ação de artes marciais, que se tornou um dos longas internacionais mais assistidos nos Estados Unidos. Tudo veio a seu favor e Ang Lee conseguiu a primeira indicação ao Oscar de melhor diretor e ainda concorreu em outras nove categorias, arrebatando os prêmios de melhor filme estrangeiro, fotografia, direção de arte e trilha sonora.

A carreira de um diretor, no entanto, também está sujeita a alguns reveses. Depois de trabalhar com dramas, artes marciais e cultura taiwanesa, Ang Lee parte para Hulk, adaptação dos quadrinhos e um verdadeiro fracasso de bilheterias. Ang Lee é casado desde 1983 com Jane Lin e tem dois filhos, que nasceram nos Estados Unidos. O diretor vive na América do Norte desde 1978, quando se mudou para completar seus estudos. Recusou o convite para dirigir O Exterminador do Futuro 3.

“O Segredo de Brokeback Mountain” de Lee  nos redimensiona e nos reeduca para aquilo que julgamos discriminar por não compreender. Mais que isso: é um soco na boca do estômago e a reação da platéia já era de se esperar. Um casal, tipo aquele rapazinho de cabelo grande e havaianas nos pés, se beijava o tempo inteiro neuroticamente. Uma moça atrás comentava: comigo não! O gay tem que se dar mal sempre. Tem que sucumbir. Porque a platéia só cala mesmo quando os atores Jake Gyllenhaal e Heath Ledger, protagonistas do filme, se desencontram para sempre. A humanidade é a mesma da era nazista. Só que ainda existem um Ang Lee, um Oliviero Toscani, um Debret, um Cézanne, uma Tomie – alguém que nos tire do sério e nos jogue no abismo definitivamente. Lá onde tudo está.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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