O semi-árido nordestino

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Nós, os humanos na sua quase totalidade, só conseguimos divisar o que está à nossa frente.

 

Este preâmbulo tem muito a ver com o estado de deterioração em que se encontram os rios, lagos, mares, florestas e atmosfera, ou seja, todo o meio ambiente que nos cerca. Todos os problemas que hoje vivenciamos são conseqüências do que ontem fizemos.

 

A pesquisa “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que as queimadas estão aumentando em todas as regiões do país.

 

Em 2000, foram detectados 104 mil focos de calor no país. Em 2003, esse número subiu para 213 mil. A maior incidência foi na Região Nordeste, com 68 mil focos. Segundo o IBGE, os dados indicam que o Brasil está queimando de norte a sul, a tendência de aumento continua e ainda não está sob controle.

 

No Brasil, dados do Ministério do Meio Ambiente indicam que há no Nordeste uma área de quase 100 mil quilômetros quadrados com grande tendência de desertificação. Moram nessa região 4.5 milhões de pessoas.

 

Existem quatro núcleos de desertificação no Nordeste: Cabrobó, em Pernambuco, Gilbués, no Piauí; Irauçuba, no Ceará e Seridó, no Rio Grande do Norte. Nestas áreas, o sobrepastoreio, a salinização do solo, a agricultura inadequada e o desmatamento generalizado foram os fatores responsáveis pela degradação ambiental do solo. Regiões sujeitas à desertificação são as que apresentam índice da aridez de até 0,65. Ele é definido pela precipitação e pela evapotranspiração potencial. Quanto mais árido o solo, menor é o índice da aridez.

 

Além do aumento da degradação do solo, o percentual das terras utilizadas para a produção agrícola, pecuária e silvicultura ainda é baixo, apenas 29,2%. Deste total, 71% são dedicadas à pecuária. Apesar dos dados absolutos representarem uma certa folga em relação à extensão territorial do país, algumas regiões revelam saturação do processo de expansão da fronteira agrícola. Sergipe, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Paraíba têm mais de 50% de suas terras em uso. Na Região Norte, no entanto, apenas 8,04% das terras são destinadas a uso agrossilvipastoril.

 

Os dados representam uma briga antiga no país: A pressão para a expansão da fronteira agrícola, principalmente no cerrado e ao sul e ao leste da Amazônia e de outro lado a pressão pelo aumento das terras protegidas, para recuperação e incorporação de áreas degradadas.

 

Paralelamente a esses dados, que mostram os problemas decorrentes de ações depredadoras praticadas com o objetivo de ganhos imediatos de poucos em prejuízo da maioria, tomamos conhecimento de que a água salobra encontrada no semi-árido nordestino pode ser transformada em água potável.

 

A dessalinização de água salobra no semi-árido nordestino está revolucionando a vida dos pequenos agricultores da pequena comunidade de Atalho, a 70 km da cidade de Petrolina, em Pernambuco.

 

Além de produzir água potável para consumo da população local, o projeto desenvolvido pela Embrapa com a Codevasf, Companhia de Desenvolvimento dói Vale dói São Francisco e Compesa, Companhia de abastecimento de Água de Pernambuco utiliza os resíduos do processo de dessalinização para a criação de peixes e cultivo de uma planta utilizada como ração para animais.

 

O Sistema integrado de produção de água potável, criação de Tilápia e cultivo de erva-sal para engorda de caprinos e bovinos é uma alternativa para a instalação de processos produtivos em pequenas comunidades rurais do semi-árido. Desenvolvido a partir de uma pesquisa conduzida pela Embrapa e financiada pela Fundação Banco do Brasil, o sistema foi inicialmente testado em área experimental da empresa. Em outubro de 2003, foi implantado na comunidade de agricultores familiares de Atalho, como forma de elevar a renda e aumentar a oferta de alimento de boa qualidade para a família.

 

Para Everaldo Porto, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, ganho importante é a redução do impacto causado pela deposição do rejeito da dessalinização do solo.

 

Edmir Pelli é aposentado da Eletrosul e articulista desde 2000
edmir@infonet.com.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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