O sempre perigoso “centrão”.

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Há pessoas que não se cansam de denegrir o movimento militar de 1964.

Não direi que entre elas estejam apenas aqueles bem pensantes, que possuem boa consistência ideológica, mesmo que pueril e equivocada.

Direi, que muitos não se veem como avestruzes, enfiando a cabeça no chão para melhor esquecer a tempestade.

Para estes, a autodenominada “Revolução de 1964” foi um golpe, um indisciplinada quartelada, algo que não aconteceu, nem existiu, como uma tempestade de poeira para a avestruz.

O que aconteceu, todavia, e isso foi acrescido com superlativa adjetivação, foi a violência repressiva, denunciada por uma infinidade de pessoas bem pensantes, entre tantos delirantes revanchistas, que inconformados ainda permanecem, por terem sido os vencidos, naquele momento histórico, real e imutável por consumado.

Há ainda os que costumam desvalorizar o movimento, e as forças armadas vitoriosas nele envolvidas, alegando que  o tão espinafrado “golpe de 1º de abril” fora desferido, só por covardia de nossos milicos, que temeram uma incursão da 5ª frota americana, que teria fundeado um dos seus porta aviões nas imediações da Baia de Guanabara, em posição camuflada pelos morros cariocas.

Segundo tal relato inverossímil e jamais comprovado, no Brasil de 1964 sobrava covardia da classe dirigente brasileira, que fora incapaz de resistir a um arroto americano, algo impensável em comparação à altivez destrambelhada da Venezuela em nossos dias, que tem resistido à grande coligação de nações, Estados Unidos à frente, União Europeia, quase o mundo todo, como se existisse mais fibra nos atuais sucessores de Bolívar, do que naqueles de Caxias.

Em verdade, em terra pátria e por má contemplação de espelho, “ser caxias”, com c minúsculo é ser idiota, ser não criativo, porque aqui prevalece a esperteza, a má formação cultural e ética.

Mas, nesse tempo de excessivo protagonismo de “centrão”, por que falar de cultura e ética, temas tão relativos quão amoldáveis, ao sabor de variegado devaneio, que tudo permite deturpar e enodoar, em nome da necessidade de desancar e solapar o mal?

Por acaso não vige o mal no Governo Bolsonaro, aquele que jamais deveria vingar, “eppur”, mas venceu?

– “Logo este Presidente, vindo da bancada BBB, dos muitos que gigolotam vacas, dos poucos que rezam a Deus, e de tantos que melhor prestam culto ao diabo para melhor fuzilar gays e bandidos?”

– “Um “homofóbico”?! Um deletério “estuprador”?! Poderia alguém assim ousar consertar o país, muito menos acertar e corrigir os desmandos da máquina pública, escoimando-lhe os perniciosos conchavos e as criminosas concessões jamais indetectáveis e nunca indeletáveis?”

– “Logo este homem que reúne contra si a vil canalha, até no noticiário, que se apresta  e se apropria das ideologias vencidas e nunca remidas, fornecendo-lhes searas novas, a seu lavor por oportuna ocasião?”

Não é por ser assim também, e por pura ocasião, que ressurge enquanto joio antigo, o velho e danoso “centrão”?

Que é o “centrão”?

Enquanto entidade de consistência e responsabilidade jurídica, direi que o “centrão” não é nada e é tudo.

O “centrão” não é nada, nem o seria também, se mostrasse sua cara e ideologia, e  ousasse lograr adeptos e apoio, via discurso eleitoral e propósitos de atuação.

O “centrão” é tudo, porque embora não pareça, ele é funesto e perigoso. Porque sendo vago, disperso e bem cheiroso, tudo empesteia e degrada, afinal sempre está no âmago dos inconfessáveis simulacros, usados para solapar os governos e a democracia.

O “centrão” é tão pernicioso e venenoso, que se serve de todos os credos e ideologias, fagocitando-os  para o próprio deleite e parasitismo.

O “centrão” devora os idealistas de esquerda, entre tolos imoderados e hidrófobos enraivecidos, ai incluindo os enragés, os anarco-sindicalistas, deles se utilizando seja para  “impichar” Collor, e até Dilma, levando consigo muitos outros que teimam em se masturbar em “flertes irritadamente longos com caminhos alternativos em buscas recorrentes de refeições gratuitas e outros unicórnios”.

Ou seja; o “centrão” se serve de tudo e de todos, sem falar que o Lula lhes foi um bom repasto, enquanto durou.

O “centrão” esteve presente no suicídio de Getúlio, na derrubada de Jango, no desfecho dos Atos Institucionais, sobretudo aquele de número 5 que sufocou a primavera de 1968 e os estudantes no Calabouço, levando-os a se calarem no pau e no pranto, porque ele, o “centrão”, tudo aquilo provocou e no final bem endossou o sinistro resultado.

O “centrão”, sempre se escudando no discurso senil de um parlamento independente e sem regra ou lei, aplaudiu e endossou o discurso imbecil de um medíocre radical, o Deputado Márcio Moreira Alves, que tentando dissolver o Exército nos idos de 1968, conclamara as esposas e namoradas dos oficiais e cadetes a “amarrarem o balaio”, por melhor comemoração do dia da pátria, negando-lhes o sexo e até a valsa, numa indigesta graça, não fosse tão irônica, irresponsável e funesta, porque ao utilizar-se de Lisístrata, a comédia do heleno Aristófanes, e da tragédia dos nossos guerrilheiros Emboabas, restou para a nação o infausto, por desfecho haurido.

O “centrão”, enquanto palustre segmento de miasma fétido e veículo contaminador,  esteve também no cerne do “pacote de abril de 1974”, com o consequente adiamento das eleições majoritárias e o surgimento dos “Senadores Biônicos” de triste memória.

O “centrão”, todavia, não tem sido só um grande mal na República brasileira. Ele o foi também em todos os marulhos da 1ª República Francesa.

Ali, onde surgiu a “esquerda jacobina” atrepada na “Montanha”, e a direita dos moderados girondinos, o “centrão” se colocou miasmáticamente no meio da planície, sendo conhecido como “Le Marais”, o mangue, ou o pântano, local onde coaxam os sapos imundos por mal loquazes, e os batráquios sempre capazes de tudo na política.

Na “direita girondina”, é bom lembrar, destacaram-se Brissot, o Filósofo Condorcet e a corajosa guerreira Manon Roland;  na esquerda moderada estiveram os Cordelier, Jacques Danton e Camile Demoulins, conhecidos como indulgentes”, e os “montanheses” para todos os gostos como  Marat, o “Amigo do Povo”, Roberspierre, o “Incorruptível, Saint Just,  o “Arcanjo de Deus”, os enraivecidos Hebert e Roux e até o “igualitário”, Grachus Babeuf, todos a seu modo eliminados pelo “centrão”, em escaramuças subterrâneas de José Fouchet, o homem que a todos enganou e de quem de todos se prestou, até mesmo para encerrar a Grande Revolução Francesa com o Golpe de Dezoito de Brumário desferido por Napoleão Bonaparte, o “Pequeno Caporal”.

No “centrão” não viceja idealismo, nem de direita, nem de esquerda, muito menos a inércia dos indiferentes, afinal seu instinto não é a covardia, mas a traição por sobrevivência.

E por ser assim, também foi o “centrão” quem matou os irmãos Caio e Tibério Gracus, notáveis tribunos da plebe romana, e até o grande Júlio César, indefeso e sangrado no punhal à traição, por homens tidos e bem havidos, como excelentes cidadãos.

Se no Evangelho Deus nos conclama a sermos quentes ou frios, porque mornos seremos por Ele vomitados, não nos enganemos com os bem macios do “centrão”; todos os deglutimos e ninguém os vomita.

O “centrão”, embora ninguém veja, não é bom, nem é doce, muito menos tolerante.

O “centrão”,  embora não pareça, mas em real certeza o é; um ente delinquente e capaz de tudo!

Nos desfechos tenebrosos dos descaminhos da nação, eu não tenho medo nem da esquerda escocesa, nem da direita extremosa. Eu tenho medo é do “centrão”! Ele ataca como escorpião!

Na política e no noticiário, e sem intuir se é rui ou se convém, está surgindo um novo “centrão” ao qual Bolsonaro está cedendo por refém. Por acaso não estão querendo fazer do nosso Presidente um capitão de Chegança?

Ou não é assim que estará querendo este novo “centrão”?

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