O spread e a ganância bancária

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Já está na hora de os bancos brasileiros ganharem menos um pouquinho. Tudo bem que, em meio a essa turbulência financeira global, os bancos brasileiros (e os estrangeiros que estão por aqui também) tenham se tornado ilhas de prosperidade e segurança — inclusive por causa dos juros altíssimos que praticam —, mas chega de ganância. Os bancos não podem ganhar tanto enquanto outros setores importantes da economia penam e os clientes têm que apertar o cinto cada vez mais.

 

A cruzada do presidente Lula contra os spreads bancários deverá começar a surtir efeito agora, após esse recado mandado à banca com a demissão do presidente do Banco do Brasil. Uma decisão política. Para resumir a história, Antonio Francisco de Lima Neto estava se limitando a fazer o jogo do mercado, como se o Banco do Brasil fosse um banco privado, que visasse unicamente o lucro. Aliás, o lucro do BB no ano passado foi recorde: ficou em R$ 8,8 bilhões, 74% maior que o de 2007.

Os três principais bancos brasileiros — Itaú/Unibanco, Banco do Brasil e Bradesco — estão entre os cinco maiores lucros do setor em 2008 nas Américas, incluindo os EUA e excluindo apenas as instituições canadenses. Tudo bem que o velho Banco do Brasil precisa ser forte e competitivo, ainda mais agora, quando a bicentenária instituição perdeu a liderança do ranking do setor após a fusão do Itaú e Unibanco. Mas e a “missão social” do banco?

 

Economistas divergem quanto à eficácia da medida presidencial. Alguns acham que por ser uma decisão política soa como ingerência e há quem considere que outros movimentos surtiriam mais efeito na redução dos juros cobrados, como uma pressão maior sobre a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Mas ninguém de boa-fé tem dúvida da importância da redução do spread bancário, apontado por muitos até como o “maior câncer da economia brasileira”.

 

O SPREAD (DILATAR-SE, ESTENDER-SE, EM INGLÊS) é a diferença entre os juros pagos pelos bancos na captação de recursos e a taxa aplicada por eles nos empréstimos concedidos. Ou a diferença entre o que o banco teria de custo de oportunidade do dinheiro e a taxa cobrada de juros. As taxas básicas de juros (Selic) muito altas e, principalmente, o risco de inadimplência são as principais justificativas apresentadas pelos banqueiros para praticarem spreads elevados, considerados os maiores do mundo, cerca de 11 vezes superiores aos dos países desenvolvidos.

Um estudo do Banco Central concluiu que o lucro dos bancos é o maior componente do spread, correspondendo a 37,5% dele. Mas as taxas altas de juros cobradas no Brasil têm um lado positivo, de acordo com a renomada The Economist: “Os bancos brasileiros podem ser caros, mas pelo menos são seguros. Nenhum deles teve problemas até agora com a turbulência financeira mundial. Isso pode ser porque seus lucros das operações bancárias cotidianas são tão grandes que eles não precisam assumir riscos tolos”, diz a revista inglesa.

 

No entanto, no Congresso Nacional não falta discurso contra os juros considerados abusivos. “É preciso reduzir os juros e baixar a taxa de spread, aproveitar a crise histórica da economia mundial para mudarmos toda essa cultura de agiotagem”, defende o senador Antonio Carlos Valadares, citando a participação do presidente da Febraban, Fábio Barbosa, em recente audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE). Valadares considerou que ele não demonstra preocupação com o tema e repete a velha ladainha de que a inadimplência e o menor volume de crédito disponível elevaram o spread bancário a esse patamar.

 

“Agora eu pergunto: qual é o setor que vem mantendo lucros mais altos por longo tempo se não os bancos? Acho que já é hora deles também apertarem o cinto para colaborar com todos os que estão sofrendo os efeitos da crise e não vivem de spreads nem de taxas de juros, mas do próprio trabalho”, disse o senador socialista, que é da bancada do presidente.

 

Se não surtir o efeito desejado de diminuição do spread em todos os bancos, a medida de Lula deverá, no mínimo, ter um reflexo positivo em relação aos bancos públicos. Alguém quer apostar que o tempo vai dizer que mais uma vez o barbudinho está com a razão?

 

E O BANCO DO ESTADO DE SERGIPE vai reduzir o spread bancário? A coluna fez um ping-pong rápido com o presidente do Banese, Saumíneo da Silva Nascimento.

 

Pergunta – O que o senhor acha da determinação do governo federal ao Banco do Brasil de reduzir o spread bancário para forçar os bancos privados a fazerem o mesmo?
Saumíneo – Vou começar com uma curiosidade que é definida nos cadernos do Banco Central: a palavra banco vem do alemão bank, que significa “banco de madeira”, usado por aqueles que se dedicavam ao ofício de trocar e emprestar dinheiro. A partir da Idade Média, começaram a se chamar assim as primeiras casas ou estabelecimentos nos quais se realizavam essas atividades.
Na atualidade, as taxas de juros divulgadas pelo Banco Central e praticadas pelos bancos representam o custo total da operação para o cliente, incluindo também os encargos fiscais e operacionais. Essas taxas correspondem à média das taxas cobradas no período indicado nas tabelas que são apresentadas no site do Bacen.
Esta é uma forma de apresentar transparência nos preços e acirrar o sistema de concorrência, que é normal no sistema capitalista.
O governo federal tem solicitado é uma maior concorrência por parte dos bancos, uma ampliação da participação do crédito e uma das maneiras é alterar a política de juros, dentro da realidade e capacidade de cada banco, julgo algo normal.

Pergunta – A intenção do Banese é também reduzir o spread?
Saumíneo – É muito difícil especificar o spread de um banco de forma isolada, pois em geral, as instituições praticam taxas diferentes dentro de uma mesma modalidade de crédito. Assim, a taxa cobrada de um cliente pode diferir da taxa média. Diversos fatores como o prazo e o volume da operação, bem como as garantias oferecidas, a experiência creditícia, o risco envolvido, explicam as diferenças entre as taxas de juros.
No caso do Banese, em muitos municípios, ele é o único banco. E são municípios que outros bancos não chegariam pelo critério do retorno, então existem custos operacionais a serem considerados. A negociação que existe nas taxas de juros obedece a critérios técnicos e de reciprocidade, as taxas com as empresas são negociadas com os clientes, através dos gerentes e de acordo com cada perfil.
Já realizamos recentemente uma redução na taxa do cheque especial, estamos analisando a situação das demais modalidades e verificando sempre a rentabilidade do banco, sem perder de vista que o negócio deve ser bom para os dois lados.
Vale registrar que as taxas das operações de crédito especializado possuem taxas reais (descontada a inflação) negativas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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