O tempo da corrida

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Ainda é cedo. O sol nem dá sinal que irá abrir o céu com o ímpeto da claridade. Uma leve garoa escorre entre os poros. Faz frio, mas a agitação e a adrenalina começam a desenhar o meu semblante. Os postes estão acesos. O caminho está iluminado. Lá no alto, um satélite confirma o sinal verde. Disparo. Estou correndo.

Entre cada passo, sinto o chão tremer intensamente. No meu pulso, há também uma vibração, um alerta. Estou correndo devagar? Estou correndo rápido? Ainda não sei. Sigo o ritmo e, durante um lapso de tempo, curvo minha cabeça levemente para a esquerda para observar um visor com vários números. Ele quem dita as regras, apenas obedeço.

Foram anos nessa rotina. O meu treinador virtual gritava comigo por meio de alertas sonoros. Não era possível manter um diálogo. Ele mal sabia que hoje, meu corpo não estava preparado para alcançar a meta do treinamento.  Mas o esforço era o mesmo, jamais poderia desapontá-lo.

Troquei meu treinador virtual três vezes. Achava que o mais caro seria o melhor. Pelo contrário. A cobrança aumentou. As estatísticas e os relatórios ficaram mais exigentes e detalhados. Tudo era calculado, até mesmo a minha oscilação vertical. Nossa! Agora sim, vou melhorar minha corrida!

Vendi meu treinador virtual novamente. Precisava de outro mais avançado. Ele controlava meu treino de corrida, de natação e de ciclismo. Ele não queria saber se estava chovendo granizo ou granito, se o sol estava assando as batatas ou a moleira, se o vento estava norte ou sul derrubando coqueiros por aí. As metas deveriam ser cumpridas, fim de papo.

Durante algumas semanas fiquei sem treinador virtual. Durante esse tempo, percebi que estava respirando normalmente, sem a ajuda dos aparelhos. Durante esse tempo, consegui assistir a alvorada rasgando as nuvens no horizonte e senti aquela luz entrando na minha pele. Foi uma mudança de percepções.

Diante de vários momentos assim, me vi na obrigação emocional de chutar o balde, ou melhor, chutar o relógio. Meu corpo era o mesmo, mas a mente era outra. Após acordar, ainda naquela velha e boa rotina, antes mesmo de começar a correr, olhei para o alto e aguardei. Mas dessa vez não esperei o satélite enviar um sinal. Sem nada no pulso, joguei o tênis na pista, deixei o coração marcar o ritmo e pensei: “não preciso de você”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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