O terceiro setor e a autossustentabilidade

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O terceiro setor e a autossustentabilidade (*)

“Precisamos nos liberar da linguagem dos negócios no mundo do Terceiro Setor e fazer com que seja incluída e abraçada a linguagem da grandeza[1].”

Jim Collins, 2005 – Good to Great and the Social Sectors

O avanço do Terceiro Setor tanto no Brasil como em todo o Mundo com ações visando a resolução de graves problemas e conflitos sociais tem sido grande; todavia, ao mesmo tempo a desconfiança que paira sobre estas organizações não governamentais sem fins lucrativos[2] por uma parcela expressiva da sociedade brasileira também é grande.

Mas, o que aconteceu no cenário brasileiro para que as ONGs sofressem esse grau de desconfiança sobre a seriedade da sua gestão? A criação de uma ONG no Brasil não é muito difícil e, por este motivo, o que pode estar acontecendo é que algumas são criadas com um propósito e, muitas vezes, para conquistar a sua própria sobrevivência começam a atuar em outras áreas que não lhes são de direito. Todavia, não é justo que as instituições cumpridoras dos seus deveres sejam penalizadas porque algumas não cumprem o seu papel. Por outro lado, muitas vezes o que pode acontecer é que pode não se tratar de falta de seriedade e sim do pouco entendimento que os gestores das ONGs têm sobre a complexa rede de regras e deveres para se gerir uma organização não governamental.

Se até para o mundo empresarial privado fazer gestão eficaz é difícil, como poderemos acreditar que a gestão das ONGs é mais fácil? Há ainda outro agravante, na mente dos brasileiros as ONGs sobrevivem por conta do Estado, do dinheiro público e essa não é a realidade dos fatos. Certamente para algumas, a depender do tipo de serviço que prestam, podem receber ajuda do Governo (federal, estadual ou municipal), todavia, não é a realidade de todas as instituições.

Muitos acreditam também que as ONGs não precisam ter um plano de trabalho com uma definição exata dos seus objetivos, da sua razão de ser e tudo isto alicerçado por um bom planejamento estratégico; todavia, na realidade, só aquelas que conseguem ter uma noção exata da sua razão de ser e que sabem onde querem chegar é que obtêm sucesso.

Portanto, tal qual acontece com as empresas as organizações sociais precisam também planejar bastante e lutar muito para que possam conseguir resultados. Praticamente acabou o tempo em que as empresas ou as pessoas ajudavam as organizações sociais sem cobrar delas resultados palpáveis e transparentes. Em outras palavras, o tempo da “filantropia por filantropia” simplesmente acabou.

Muitas vezes por estarem acostumadas com mantenedores, doadores ou benfeitores as ONGs passam por sérias dificuldades, pois no cenário econômico atual, cada vez mais, se cobra dessas instituições que as mesmas consigam a sua própria sustentabilidade com transparência.

Segundo Collins[3] a confusão entre os sistemas de entrada e os de saída são as diferenças primárias entre as empresas e as organizações do terceiro setor. No mundo das empresas dinheiro é tanto uma entrada (um recurso para se atingir os resultados) como uma saída (uma medida dos resultados); todavia no setor social o dinheiro é considerado apenas como uma entrada e não uma medida do resultado.

No caso dos resultados obtidos pelas organizações do Terceiro Setor podemos afirmar que de uma maneira geral a sociedade não entende que essas instituições para sobreviverem precisam obter algum retorno financeiro e, neste caso, a pergunta a ser feita deverá ser: “De que maneiras poderemos desenvolver uma fonte de energia sustentável para que possamos atingir um desempenho superior relacionada com a nossa missão?”

Na verdade o que deveria se esperar como resultado do trabalho das ONGs seria o indicador “vidas transformadas” conforme sugerido por Peter Drucker, ou seja, dos recursos investidos nos projetos sociais, quantas vidas comprovadamente foram transformadas. No entanto, este não é um indicador fácil de ser medido, acompanhado e justificado.  Na maioria das vezes os patrocinadores de projetos sociais querem como resultados os números que exprimam a quantidade e não a qualidade dos processos aplicados; como por exemplo: número de cursos realizados, número de alunos matriculados e etc. Todavia, como muitos projetos estão focados em mudanças de atitudes esses números obtidos poderão não refletir verdadeiramente o impacto e o resultado do projeto e, nem mesmo, medir o impacto da transformação em um grupo ou em uma comunidade.

 

 

 

 

 



[1] Grandeza no sentido de bem comum, de ajuda ao próximo.

[2] ONGs

[3] Collins, Jim – 2005 – Good to Great and the Social Sector

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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