O tiro na professora – Araripe Coutinho

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O tiro na professora

 

O tiro poderia ser em cada um de nós. Na avenida Hermes Fontes, saindo do Colégio João Alves a professora Tânia Maria Teles, foi de encontro ao marginal, que disparou fatalmente. Ir de encontro num momento desses, não é o que a polícia orienta. Mas como indagar a reação de uma pessoa nesta hora? Se soubesse ela não teria colocado a mão no revólver. Como se ela, cansada de ser professora num país de “mestres sem diploma”, quisesse parar ali o instante impreciso, inexplicável que lhe levou a vida. Estamos todos absortos e pálidos com este crime.

Matar virou verbo comum. Se mata por uma bicicleta, um celular, um tênis. Ao ver a foto de Tânia no jornal ainda de sapatos, eu fiquei atordoado sabendo que até os pés se mantêm iguais após o baque final. Morrer é tão simples e tão triste. Não valemos mais nada. Fica a impressão de que “tudo pode ser hoje e o aviso não veio” no dizer da também professora Carmelita Fontes. Eu, que já não acredito no poder público, nem nos homens, nem na sorte, rezo por ela, Tânia Maria Teles, uma moça de 40 anos que escolheu a Biologia como matéria, sem conseguir decifrar o ser humano: este homem- bicho capaz de tudo.

 

A PETROBRAS DIVULGA EDITAL

 

A Petrobras  divulgou o edital do Programa Petrobras Cultural 2006. Este país é mesmo um cadafalso. A maior estatal de Petróleo da América Latina investe em cultura uma ninharia. Das centenas de projetos inscritos, poucos foram contemplados e ainda existem os chamados especiais, por escolha direta. Ou seja: 25% do total da verba, vão para esses projetos, convidados diretamente pelo Conselho Petrobras Cultural. É uma aberração. De Sergipe apenas dois. O museu Arqueológico de Xingó e o Curta-SE. Nada mais. Este é um Brasil onde só existe Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Goiânia, Porto Alegre. Além dos já conhecidos Quasar, Grupo Corpo, Stagium  e muitos outros que estão há anos sendo contemplados. Deve-se, já que 62 milhões, segundo o Conselho, ainda é pouco para tantos projetos apresentados, ampliar este valor para no mínimo 100 milhões. Como pode uma estatal, querer difundir a Cultura com este valor? Só pode mesmo ter um país como o nosso – pouco acesso à cultura e à arte, uma dezena de “artistas e gênios” com seus espetáculos em cartaz, enquanto subdesenvolvida e humilhada a grande massa que se inscreve no Programa Petrobras de Cultura, pergunta: é Evo Morales?

 

FRASE FINAL

 

Par delicatesse j’ai pardu ma vie.(Rimbaud)

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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