Quem tem medo de macumba?

As religiões afro-brasileiras são alvo de alto grau de desconhecimento e preconceito não somente por uma questão histórica que tem a ver diretamente com a questão da escravidão no Brasil e o preconceito racial, mas também com a forma como nos relacionamos com os dogmas eurocentrados, como seguir um livro, a exemplo da Bíblia, que dita as regras de comportamento social. Dentro do universo das religiões afro-brasileiras não há um livro-guia específico, há uma gama de símbolos e significados compõe o processo ritual de cada casa de culto.

O Candomblé, que de acordo com o pesquisador Reginaldo Prandi, foi criado a partir de duas matrizes africanas básicas que tiveram seu papel decisivo na formação dessa religião: os sudaneses e bantos, é um exemplo de religião de matriz africana em que cada detalhe possui um significado de grande valia para as etapas do processo ritual. Cada ritual, de acordo com os praticantes das diferentes linhagens, teria seus princípios fundamentais bem definidos e em comum, porém cada um com a sua multiplicidade de variantes que definiram cada linhagem em sua formação.

Além disso, esse autor ainda reforça que as religiões africanas sempre foram devedoras e dependentes do catolicismo no Brasil por uma questão de necessidade, inclusive de preservação dos seus cultos, uma vez que, no século XIX, a identidade brasileira estava relacionada ao catolicismo, ou seja, para ser brasileiro era necessário ser católico. No Nordeste, a exaltação da herança cultural da África, sobretudo a herança “mais pura”, não estaria negando o projeto racista e hegemônico engendrado pelos dominantes, expresso também na teoria da aculturação, mas adequando-o às condições regionais. A alta concentração de negros aponta mais fortemente na direção da África como tema de alta potencialidade de manipulação ideológica.

Diante de décadas de perseguição de culto, retaliações e medo do que é considerado sagrado pelos adeptos das religiões afro-brasileiras, quem deveria ter medo dos cristãos somos nós e não o contrário. Veja bem, foi a Igreja Católica quem perseguiu esses adeptos, forçando-os, inclusive, a ressignificar elementos religiosos para que pudessem celebrar ‘discretamente’ suas divindades, os Orixás. Fora isso, foram os cristãos que disseminaram o medo dos bichos mortos nas encruzilhadas, mesmo consumindo esses bichos em suas mesas.

É necessário questionar como o medo das religiões afro-brasileiras é reforçado com base no próprio medo que foi causado na população africana e indígena através das severas formas de violência e apagamento dos costumes desses povos. No século da informação, é inadmissível que o medo de macumba se perpetue e cause danos irreparáveis a diversas comunidades brasileiras que apenas praticam o direito de ter fé. Procurar saber para não ofender é algo primordial em qualquer sociedade. Além disso, vale reforçar que preconceito racial e religioso é crime!

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