O triunfo do homem

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Dez, 12 anos atrás, um jornalista que odiava os negros em Salvador vivia propagandeando as teorias mais estapafúrdias para desqualificá-los. Uma delas: o homem negro não consegue ser um bom atleta nas piscinas por não tem senso de direção, o que o levaria a se bater nas raias. Estranhamente, e infelizmente, a Bahia multirracial abriga nas suas entranhas um racismo terrível. Mas essa é outra história.

O que importa aqui é dizer que neste novembro de 2008 dois homens negros colocaram mais algumas pás de cal nesse demorado enterro do preconceito racial e entraram para a história. Por razões bem distintas ambos superaram falsas verdades e mostraram — embora não quisessem necessariamente mostrar nada com relação a isso — que a cor da pele torna-se apenas uma questão estética diante da grandiosidade e complexidade de ser humano. Biológica e intelectualmente, todos são iguais de fato.

Lewis Hamilton, 23 anos, um garoto britânico filho de família originária das ilhas Granadas, nas Antilhas, conquistou o título mundial da Fórmula 1 e tornou-se o piloto mais jovem a conseguir tal feito. Primeiro negro a correr na mais cara categoria do elitista mundo do automobilismo, desde o dia 2 deste mês, no autódromo de Interlagos, em São Paulo, ele desfruta do privilégio de ter-se tornado o primeiro afro-descendente a ganhar o prêmio que Ayrton Senna e Nelson Piquet levaram para casa três vezes.

Dois dias depois, 4 de novembro de 2008, quase na mesma longitude, mas no hemisfério norte, um mestiço de 47 anos, que nasceu e se criou sob o jugo violento dos ultraconservadores ianques que odeiam os negros, fez realizar o desejo mundial de ver um negro na presidência da maior potência econômica, cultural e bélica do Planeta — num ano simbólico para a memória de Martin Luther King, o homem que pronunciou o discurso sobre o sonho de um dia ver suas pequenas crianças viverem em uma nação onde elas não seriam julgadas pela cor da pele.

O discurso foi pronunciado quando Barack Hussein Obama tinha apenas 2 anos e poucos dias de vida e vivia em Honolulu, no Havaí. E hoje, poucos meses depois de completados 40 anos do assassinato daquele idealista famoso, as filhas do presidente eleito estão comprando seus vestidinhos novos e seus sapatinhos lustrosos para estrear a nova moradia, a Casa Branca.

“Já dá para ver as menininhas dele correndo e brincando pela Casa Branca!”, disse no dia da eleição Juanita Abernathy, viúva do maior amigo do reverendo Luther King, segundo informação da agência A.P.

Assim como o piloto inglês e o senador americano — aliás, único senador negro desta legislatura — , outras personalidades da política, das artes, da Justiça, da ciência e dos negócios têm conseguido se sobressair em suas áreas e mostrar a força humana que supera as adversidades. No Brasil, onde reside a maior população negra do mundo depois da Nigéria, há avanços a serem comemorados. Aqui, pela primeira vez, há um negro como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o austero Joaquim Barbosa, e a Esplanada dos Ministérios viu até bem pouco o ministro Orlando Silva (Esportes) dividir atenções com Gilberto Gil (Cultura) e a secretária de Promoção da Igualdade Racial, a deslumbrada Matilde Ribeiro.

Os negros estão ampliando sua participação na sociedade, embora permaneçam em desvantagem em relação aos “brancos” — sabe-se que no Brasil é quase impossível se categorizar assim — em todos os indicadores econômicos e sociais. Mas nada ainda reflete tão claramente a diminuição do preconceito que, se já não está tão explicitado, está arraigado nas cabeças quadradas e petrificadas dos que não agem mais com a brutalidade de antes, mas ainda sentem os arrepios malvados e desumanos dos seus pais ou seus avós.

Na última quarta-feira, dia 12, no Rio Grande do Sul, repetiu-se um episódio que reflete bem o quanto aqueles pensamentos soturnos nos atormentam. Na cidade de Caxias do Sul, enquanto o visitante paulista Corinthians vencia o Juventude local, pela série B do campeonato brasileiro de futebol, pessoas da torcida formada por uma maioria de descendentes de italianos repetiram a vingança da derrota com xingamentos racistas dirigidos aos jogadores negros e mestiços do adversário.

Parado na área, onde o goleiro praticamente não pode mexer-se, Felipe viveu uma situação que o marcou negativamente. Ao fim do jogo, o goleiro desabafou: “Eles acham que preto não joga bola, que só branco joga”. Lembra aquele jornalista baiano que dizia que negro não consegue praticar natação. Um comentarista esportivo lembrou: o Juventude possui histórico de atos racistas em partidas no estádio Alfredo Jaconi.

Pior para eles que não vêem que, apesar de tudo, alguma coisa neste vasto mundo mudou, que a humanidade evoluiu e que as diferenças estão dentro da cabeça de cada um, para o bem ou para o mal.

 

Um poema de Carlos Drummond e Andrade:

 

Mãos dadas

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

 

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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