O Viagra sonoro e o Elogio da Metamorfose de Edgar Morin.

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Entre as minhas últimas leituras do cotidiano Le Monde, duas me chamaram a atenção na última semana.

 

Uma de conteúdo sério e formal: “O Elogio da Metamorfose”, um convite à reflexão sobre os dramas vividos na atualidade; ponto de vista do filósofo e sociólogo Edgar Morin.

 

A outra, uma curiosidade engraçada, que pode minorar um drama também da humanidade em todos os temos, qual seja o da inapetência sexual com a senilidade. Trata-se de uma pesquisa realizada em Israel destinada à cura da turgescência mediante a utilização de ondas sonoras. A turgescência, leio-o no Houaiss, é um processo no qual uma célula, tecido ou órgão, absorve água, por aumento da pressão interna.

 

Pois bem! No desencadear desta pesquisa, verificou-se que algumas freqüências de sons, num efeito colateral surpreendente, produziram notáveis aumentos da disposição erétil das cobaias pacientes.

 

Como entre os meus leitores se encontram muitos cultores do pensamento e outros que também gostariam de ampliar indolormente a sua libido sem traumas vis, ou pílulas anis, seguem os dois textos para a respectiva apreciação.

 

De antemão devo informar, desconhecer se a aparelhagem sonora da pesquisa utilizou um headphone, um som ambiente, ou uma nova parfernagem funcional. Vale, sobremodo, a figura inserida no texto, como se encontra no original.

 

Seguem os dois textos; primeiro o do Viagra sonoro, para os que gostam de diversão, seguido pelo Elogio da Metamorfose de Morin.

 

O viagra por ondas

 

Le Monde, 06 de janeiro 2010

 

Problemas eréteis? As pílulas azuis serão logo suplantadas por um método mais doce: as ondas sonoras estimulam a pressão sanguínea dos órgãos genitais. Uma nova terapia sem dor vem de Israel

 

Figura ilustrativa do Le Monde.

Uma experiência foi conduzida em 20 homens com problemas de turgescência… Graças à terapia sonora, 15 deles reencontraram uma atividade sexual normal ou quase, e pararam totalmente o seu consumo de Viagra.

 

Sobre o índice Internacional de Disfunção Erétil (que vai de 1 a 30 pontos): as cobaias se situavam entre 12 e 20 (casos moderados).

 

Segundo cardiologistas que examinaram este tratamento sonoro, ele permitiria também desengrenar a formação de novos vasos sanguíneos, de maneira a evitar intervenções cirúrgicas!

 

Ondas que vão tentar os não-doentes…

 

Segue o texto no original:

 

 

Le viagra par les ondes.

Le Monde, 06 janvier 2010

 

Problèmes érectiles ? Les cachetons bleus seront bientôt supplantés par une méthode beaucoup plus douce : les ondes sonores stimulent la pression sanguine des organes génitaux. Une nouvelle thérapie sans douleur venue d’Israël.

Une expérience a été menée sur 20 hommes ayant des problèmes de turgescence… Grâce à la thérapie sonore, 15 d’entre eux ont retrouvé une activité sexuelle normale ou presque, et stoppé totalement leur consommation de Viagra.

Sur l’Index International du Dysfonctionnment Erectile (qui va de 1 à 30 points) : les “cobayes” se situaient entre 12 et 20 (cas modérés).

Selon des cardiologues qui ont examinés ce traitement sonore, il permettrait aussi de déclencher la formation de nouveaux vaisseaux sanguins, donc d’éviter des interventions chirurgicales !

Des ondes qui vont tenter les non-malades….

 

Elogio da metamorfose.

 

Ponto de vista Edgard Morin, enviado ao Le Monde 09.01.10 20h07

 

Quando um sistema é incapaz de tratar de seus problemas vitais, ele se degrada se desintegra ou então ele se torna capaz de suscitar um meta-sistema de modo a tratar os seus problemas: ele se metamorfoseia. O sistema Terra é incapaz de se organizar para tratar seus problemas vitais: perigos nucleares que se agravam com a disseminação e talvez com a privatização da arma atômica; degradação da biosfera; economia mundial sem verdadeira regulação, retorno da fome; conflitos etnopoliticorreligiosos tendendo a se desdobrar em guerras de civilização.

 

A amplificação e a aceleração de todos estes processos podem ser consideradas como o desencadeamento de um formidável feedback negativo, processo pelo qual se desintegra irremediavelmente um sistema.

 

O provável é a desintegração. O improvável mas possível é a metamorfose. Que é uma metamorfose? Nós a visualizamos em enumeráveis exemplos no reino animal. A lagarta que se enclausura numa crisálida começa então um processo ao mesmo tempo de autodestruição e auto-reconstrução, segundo uma organização e uma forma de borboleta, diferente da lagarta, tudo permanecendo o mesmo. O nascimento da vida pode ser concebido como uma metamorfose físico-química, que, chegada a um ponto de saturação, criou a meta organização vivente, à qual, mantendo os mesmos constituintes físico-químicos, produziu qualidades novas.

 

A formação de sociedades históricas, no Médio Oriente, na Índia, na China, no México, no Peru constitui uma metamorfose a partir de um agregado de sociedades arcaicas de caçador-colhedores, que produziu as cidades, o Estado, as classes sociais, a especialização do trabalho, as grandes religiões, a arquitetura, as artes, a literatura, a filosofia A partir do século XXI se põe o problema da metamorfose das sociedades históricas em uma sociedade-mundo de um tipo novo, que englobaria os Estados-nações sem os suprimir. Porque a perseguição da história, isto é das guerras, pelos Estados possuidores de armas de aniquilação, conduz à quase destruição da humanidade. Diferente de Fukuiama, para quem as capacidades criadoras da evolução humana se esgotaram com a democracia representativa e a economia liberal, nós devemos pensar que é a historia quem está esgotada, e não as capacidades criadoras da humanidade.

 

A idéia da metamorfose, mais rica que a idéia da revolução, mantém a guarda da radicalidade transformadora, mas a liga à conservação (da vida, da herança das culturas). Para se dirigir à metamorfose, como mudar de via? Quanto mais se parece possível corrigir certos males, da mesma maneira parece impossível frear a violenta ressaca tecno-científico-econômico-civilisacional que conduz o planeta ao desastre. E, no entanto, a História humana tem muitas vezes mudado de via. Tudo começa,

O filósofo Edgar Morin. APP/Patrick Kovarik 2007

sempre, a partir de uma inovação, uma nova mensagem desviante, marginal, modesta, muitas vezes invisível aos contemporâneos. Assim começaram as grandes religiões: budismo, cristianismo, islamismo. O capitalismo se desenvolveu como parasita das sociedades feudais para finalmente tomar seu impulso e, com ajuda das realezas, desintegra-las.

 

A ciência moderna se formou a partir de alguns espíritos desviantes dispersos, Galileu, Bacon, Descartes, depois criou seus grupos de adeptos, suas associações, se introduziu nas universidades do século XIX, depois na economia e nos Estados do século XX, para se tornar um dos quatro potentes motores da nave espacial terrestre. O socialismo nasceu de alguns espíritos autodidatas e marginalizados do século XIX para se tornar uma formidável força histórica no XX. Atualmente, tudo está para se repensar. Tudo está para recomeçar.

 

Recomeçou-se inteiramente, sem que se o soubéssemos. Nós estamos no próprio estádio do princípio, modestos, invisíveis, marginais, dispersos. Porque já existe, em todos os continentes, um turbilhonamento criativo, uma multidão de iniciativas, no sentido da regeneração econômica, ou social, ou política, ou cognitiva, ou educacional, ou ética, ou da reforma da vida.

 

Essas iniciativas não se conhecem umas as outras, nenhuma administração as enumera, nenhum partido lhes toma conhecimento. Mas elas são a vivificação do futuro. É preciso reconhecê-las, recenseá-las, colaciona-las, repertoriá-las, e as conjugá-las em uma pluralidade de caminhos reformadores. São estas vias múltiplas que poderão, em se desenvolvendo conjuntamente, se conjugar para formar a nova via, aquela que nos conduziria para a ainda invisível e inconcebível metamorfose. Para elaborar as vias que se rejuntam na Via, é-nos preciso se desengajar da s alternativas limitadas, às quais nos reprime o mundo do conhecimento e do pensamento hegemônicos. Assim, é preciso mundializar e desmundializar ao mesmo tempo, crescer e decrescer, desenvolver-involuir.

 

A orientação mundialização-desmundialização significa que, se é preciso multiplicar os processos de comunicação e de planetização culturais, se é preciso que se constitua a “Terra-pátria”, é preciso também promover, de maneira desmundializante, a alimentação da proximidade, os artesanatos da proximidade, a produção de legumes da periferia urbana, as comunidades locais e regionais.

 

A orientação “crescimento-decrescimento” significa que é preciso fazer crescer os serviços, as energias verdes, os transportes públicos, a economia plural como economia social e solidária, a organização e a humanização das megalópoles, as agriculturas e técnicas produtivas e biológicas, mas decrescer as intoxicações consumistas, a alimentação industrializada, a produção de objetos rejeitáveis e não recicláveis, o tráfego de automóvel, de caminhão (em proveito da ferrovia).

 

A orientação desenvolver-involuir significa que o objetivo não é fundamentalmente o desenvolvimento dos bens materiais, da eficiência, da rentabilidade, do calculável, é também o retorno de cada um sobre suas necessidades interiores, o grande retorno da vida interior e ao primado da compreensão do outro, do amor e da amizade.

 

Não é bastante denunciar. É-nos preciso enunciar. Não basta lembrar a urgência. É preciso começar por definir as vias que nos conduzirão à Via. É isso que precisamos contribuir. Quais são as razões para esperar? Nós podemos formular cinco princípios de esperança.

 

1. O surgimento do improvável. Como a resistência vitoriosa por duas vezes da pequena Atenas à formidável potência persa, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável e permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Do mesmo modo foi inesperado o congelamento da ofensiva alemão diante de Moscou no outono de 1941, mais improvável a contra-ofensiva de Joukov começada a cinco de dezembro, e seguida em oito de dezembro com o ataque de Pearl Harbor que fez o ingresso dos Estados Unidos na guerra mundial.

 

2. As virtudes geradoras/criadoras inerentes à humanidade. Do mesmo modo existe em todo organismo humano adulto células tronco dotadas de ações polivalentes (totipotentes) próprias das células embrionárias, mas desativadas, existe também em todo ser humano, em toda sociedade humana virtudes regeneradoras, geradoras, criadoras em estado dormente ou inibido.

 

3. As virtudes da crise. Ao mesmo tempo em que as forças regressivas e desintegradoras, as forças geradoras e criadoras se acordam na crise planetária da humanidade.

 

4. Em que se combinam as virtudes do perigo: “Ali onde se crê o perigo, está também o que o salva”. A suprema probabilidade está inseparável do risco supremo.

 

5. A aspiração multimilenar da humanidade à harmonia (paraíso, depois utopias, depois ideologias libertárias/socialistas/comunistas , depois revoltas juvenis dos anos 1960). Esta aspiração renasce na agitação das iniciativas múltiplas e dispersas que poderão nutrir as vias reformadoras, dedicadas a se reajuntar na nova via.

 

A esperança estava morta. As velhas gerações estão desenganadas com as falsas esperanças. As gerações jovens se desolam que não haja mais uma causa como aquela da nossa resistência durante a segunda guerra mundial. Mas a nossa causa trazia consigo o seu adverso. Como dizia Vassili Grossman de Stalingrado, a maior vitória da humanidade era ao mesmo tempo sua maior derrocada, posto que o totalitarismo stalinista dela saía vencedor. A vitória da democracia estabelecia no mesmo golpe o seu colonialismo. Atualmente, a causa é sem equívoco, sublime: trata-se de salvar a humanidade.

 

A verdadeira esperança sabe que ela não é evidente. Esta esperança não representa o melhor dos mundos, mas de um mundo melhor. A origem está diante de nós, dizia Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem.

 

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Edgar Morin é sociólogo e filósofo. Nascido em 1921, é diretor emérito de pesquisas do CNRS, presidente da Agência européia para a Cultura (Unesco) e presidente da Associação para o pensamento complexo. Em 2009 ele publicou destacadamente “Edwige, o inseparável (Fayard). A ler igualmente, “O pensamento turbilhonar – Introdução ao pensamento de”, de Jean Tellez (edições Germina).

O presente texto apareceu na edição de 10.01.10 do Le Monde.

 

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Observação sem maiores alongamentos: No Brasil Edgar Morin tem sido bastante homenageado. É doutor honoris causa pela UFRN, tendo recebido o titulo em junho de 1999, oportunidade em que a Profa. Maria da Conceição Xavier de Almeida, de Natal-RN, que vale repetir: Edgar Morin “se enuncia, um contrabandista de saberes, um artesão sem patente registrada, porque transita livremente por entre as arbitrárias divisões entre ciências da vida, do mundo físico e do homem.”

 

Segue o texto no original, para os que não gostaram da minha versão.

 

Eloge de la métamorphose,

 par Edgar Morin Point de vue

Foto   APP/Patrick Kovarik 2007

LE MONDE | 09.01.10 | 13h08    Mis à jour le 09.01.10 | 20h07   

 

Quand un système est incapable de traiter ses problèmes vitaux, il se dégrade, se désintègre ou alors il est capable de susciter un meta-système à même de traiter ses problèmes : il se métamorphose. Le système Terre est incapable de s”organiser pour traiter ses problèmes vitaux : périls nucléaires qui s”aggravent avec la dissémination et peut-être la privatisation de l”arme atomique ; dégradation de la biosphère ; économie mondiale sans vraie régulation ; retour des famines ; conflits ethno-politico-religieux tendant à se développer en guerres de civilisation.

 

L”amplification et l”accélération de tous ces processus peuvent être considérées comme le déchaînement d”un formidable feed-back négatif, processus par lequel se désintègre irrémédiablement un système.

 

Le probable est la désintégration. L”improbable mais possible est la métamorphose. Qu”est-ce qu”une métamorphose ? Nous en voyons d”innombrables exemples dans le règne animal. La chenille qui s”enferme dans une chrysalide commence alors un processus à la fois d”autodestruction et d”autoreconstruction, selon une organisation et une forme de papillon, autre que la chenille, tout en demeurant le même. La naissance de la vie peut être conçue comme la métamorphose d”une organisation physico-chimique, qui, arrivée à un point de saturation, a créé la méta-organisation vivante, laquelle, tout en comportant les mêmes constituants physico-chimiques, a produit des qualités nouvelles.

 

La formation des sociétés historiques, au Moyen-Orient, en Inde, en Chine, au Mexique, au Pérou constitue une métamorphose à partir d”un agrégat de sociétés archaïques de chasseurs-cueilleurs, qui a produit les villes, l”Etat, les classes sociales, la spécialisation du travail, les grandes religions, l”architecture, les arts, la littérature, la philosophie. Et cela aussi pour le pire : la guerre, l”esclavage. A partir du XXIe siècle se pose le problème de la métamorphose des sociétés historiques en une société-monde d”un type nouveau, qui engloberait les Etats-nations sans les supprimer. Car la poursuite de l”histoire, c”est-à-dire des guerres, par des Etats disposant des armes d”anéantissement, conduit à la quasi-destruction de l”humanité. Alors que, pour Fukuyama, les capacités créatrices de l”évolution humaine sont épuisées avec la démocratie représentative et l”économie libérale, nous devons penser qu”au contraire c”est l”histoire qui est épuisée et non les capacités créatrices de l”humanité.

 

L”idée de métamorphose, plus riche que l”idée de révolution, en garde la radicalité transformatrice, mais la lie à la conservation (de la vie, de l”héritage des cultures). Pour aller vers la métamorphose, comment changer de voie ? Mais s”il semble possible d”en corriger certains maux, il est impossible de même freiner le déferlement techno-scientifico-économico-civilisationnel qui conduit la planète aux désastres. Et pourtant l”Histoire humaine a souvent changé de voie. Tout commence, toujours, par une innovation, un nouveau message déviant, marginal, modeste, souvent invisible aux contemporains. Ainsi ont commencé les grandes religions : bouddhisme, christianisme, islam. Le capitalisme se développa en parasite des sociétés féodales pour finalement prendre son essor et, avec l”aide des royautés, les désintégrer.

 

La science moderne s”est formée à partir de quelques esprits déviants dispersés, Galilée, Bacon, Descartes, puis créa ses réseaux et ses associations, s”introduisit dans les universités au XIXe siècle, puis au XXe siècle dans les économies et les Etats pour devenir l”un des quatre puissants moteurs du vaisseau spatial Terre. Le socialisme est né dans quelques esprits autodidactes et marginalisés au XIXe siècle pour devenir une formidable force historique au XXe. Aujourd”hui, tout est à repenser. Tout est à recommencer.

 

Tout en fait a recommencé, mais sans qu”on le sache. Nous en sommes au stade de commencements, modestes, invisibles, marginaux, dispersés. Car il existe déjà, sur tous les continents, un bouillonnement créatif, une multitude d”initiatives locales, dans le sens de la régénération économique, ou sociale, ou politique, ou cognitive, ou éducationnelle, ou éthique, ou de la réforme de vie.

 

Ces initiatives ne se connaissent pas les unes les autres, nulle administration ne les dénombre, nul parti n”en prend connaissance. Mais elles sont le vivier du futur. Il s”agit de les reconnaître, de les recenser, de les collationner, de les répertorier, et de les conjuguer en une pluralité de chemins réformateurs. Ce sont ces voies multiples qui pourront, en se développant conjointement, se conjuguer pour former la voie nouvelle, laquelle nous mènerait vers l”encore invisible et inconcevable métamorphose. Pour élaborer les voies qui se rejoindront dans la Voie, il nous faut nous dégager d”alternatives bornées, auxquelles nous contraint le monde de connaissance et de pensée hégémoniques. Ainsi il faut à la fois mondialiser et démondialiser, croître et décroître, développer et envelopper.

 

L”orientation mondialisation/démon-dialisation signifie que, s”il faut multiplier les processus de communication et de planétarisation culturelles, s”il faut que se constitue une conscience de “Terre-patrie”, il faut aussi promouvoir, de façon démondialisante, l”alimentation de proximité, les artisanats de proximité, les commerces de proximité, le maraîchage périurbain, les communautés locales et régionales.

 

L”orientation “croissance/décroissan-ce” signifie qu”il faut faire croître les services, les énergies vertes, les transports publics, l”économie plurielle dont l”économie sociale et solidaire, les aménagements d”humanisation des mégapoles, les agricultures et élevages fermiers et biologiques, mais décroître les intoxications consommationnistes, la nourriture industrialisée, la production d”objets jetables et non réparables, le trafic automobile, le trafic camion (au profit du ferroutage).

 

L”orientation développement/envelop-pement signifie que l”objectif n”est plus fondamentalement le développement des biens matériels, de l”efficacité, de la rentabilité, du calculable, il est aussi le retour de chacun sur ses besoins intérieurs, le grand retour à la vie intérieure et au primat de la compréhension d”autrui, de l”amour et de l”amitié.

 

Il ne suffit plus de dénoncer. Il nous faut maintenant énoncer. Il ne suffit pas de rappeler l”urgence. Il faut savoir aussi commencer par définir les voies qui conduiraient à la Voie. Ce à quoi nous essayons de contribuer. Quelles sont les raisons d”espérer ? Nous pouvons formuler cinq principes d”espérance.

 

1. Le surgissement de l”improbable. Ainsi la résistance victorieuse par deux fois de la petite Athènes à la formidable puissance perse, cinq siècles avant notre ère, fut hautement improbable et permit la naissance de la démocratie et celle de la philosophie. De même fut inattendue la congélation de l”offensive allemande devant Moscou en automne 1941, puis improbable la contre-offensive victorieuse de Joukov commencée le 5 décembre, et suivie le 8 décembre par l”attaque de Pearl Harbor qui fit entrer les Etats-Unis dans la guerre mondiale.

 

2. Les vertus génératrices/créatrices inhérentes à l”humanité. De même qu”il existe dans tout organisme humain adulte des cellules souches dotées des aptitudes polyvalentes (totipotentes) propres aux cellules embryonnaires, mais inactivées, de même il existe en tout être humain, en toute société humaine des vertus régénératrices, génératrices, créatrices à l”état dormant ou inhibé.

 

3. Les vertus de la crise. En même temps que des forces régressives ou désintégratrices, les forces génératrices créatrices s”éveillent dans la crise planétaire de l”humanité.

 

4. Ce à quoi se combinent les vertus du péril : “Là où croît le péril croît aussi ce qui sauve.” La chance suprême est inséparable du risque suprême.

 

5. L”aspiration multimillénaire de l”humanité à l”harmonie (paradis, puis utopies, puis idéologies libertaire /socialiste/communiste, puis aspirations et révoltes juvéniles des années 1960). Cette aspiration renaît dans le grouillement des initiatives multiples et dispersées qui pourront nourrir les voies réformatrices, vouées à se rejoindre dans la voie nouvelle.

 

L”espérance était morte. Les vieilles générations sont désabusées des faux espoirs. Les jeunes générations se désolent qu”il n”y ait plus de cause comme celle de notre résistance durant la seconde guerre mondiale. Mais notre cause portait en elle-même son contraire. Comme disait Vassili Grossman de Stalingrad, la plus grande victoire de l”humanité était en même temps sa plus grande défaite, puisque le totalitarisme stalinien en sortait vainqueur. La victoire des démocraties rétablissait du même coup leur colonialisme. Aujourd”hui, la cause est sans équivoque, sublime : il s”agit de sauver l”humanité.

 

L”espérance vraie sait qu”elle n”est pas certitude. C”est l”espérance non pas au meilleur des mondes, mais en un monde meilleur. L”origine est devant nous, disait Heidegger. La métamorphose serait effectivement une nouvelle origine.

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Sociologue et philosophe. Né en 1921, est directeur de recherches émérite au CNRS, président de l”Agence européenne pour la culture (Unesco) et président de l”Association pour la pensée complexe. En 2009, iI a notamment publié “Edwige, l”inséparable” (Fayard). A lire également, “La Pensée tourbillonnaire – Introduction à la pensée d””, de Jean Tellez (éditions Germina)

 

paru dans lӎdition du 10.01.10

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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