Obama não é novidade

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Quando Barack Obama chegou ao poder, em janeiro de 2009, um presidente negro, filho de queniano, de origem pobre, acreditou-se que ele teria o condão de mudar a política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina. Por uma questão de cacoete histórico, ele não mudou e continua fazendo o que os ianques sempre fizeram.

Suspender o criminoso embargo econômico a Cuba, já há quase 52 anos e que contribuiu com a quase falência da ilha não alinhada, já seria um gesto de grandeza para com os vizinhos de baixo. Mas, uma vez instalado na Casa Branca, o garotão nascido no Havaí caiu na real e sua aguardada boa vontade não se restringiu sequer à decretação da extinção da prisão arbitrária de Guantánamo, anunciada no primeiro dia de governo.

Uma vez o ex-presidente Lula ousou lucidamente pedir uma mudança de relacionamento com o continente americano e lembrou: “Os Estados Unidos, durante muito tempo, tiveram uma política equivocada para a América Latina”. Com a devida correção de que não foi somente “durante muito tempo”, mas por toda a vida, o que Lula afirmara não é mera retórica, é história. Sempre que intervieram na América Latina, os Estados Unidos o fizeram em proveito próprio, inclusive quando interferiram na instalação de regimes autoritários no continente.

Lembra-se disso tudo agora não somente por conta da espionagem norte-americana contra a presidenta Dilma Rousseff e a Petrobras. A revelação provocou um incidente diplomático pelo qual Obama sequer se desculpou. O histórico dessa relação desigual (inspirado em artigo publicado no site “America Latina em Movimiento”, de 19 de setembro de 2008) não deixa margem à dúvida quanto às intenções norte-americanas.

A famosa Doutrina Monroe, divulgada em 1823, quando os países da América Latina principiavam seus movimentos de libertação, já deixava claro que o país do norte considerava toda essa região debaixo de sua esfera de influência.

1836 – Os Estados Unidos empreendem guerra contra o México com o objetivo, alcançado, de anexar o estado do Texas.

1898 – A guerra com a Espanha garante aos EUA o ganho do controle sobre as antigas colônias espanholas no Caribe — incluindo Cuba e Porto Rico — e no Pacífico.

1903 – Os americanos do norte criam um foco separatista na região que hoje é o Panamá, justamente o lugar onde estava sendo construído um canal entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Com a ajuda de cima o Panamá declarou independência da Colômbia. Os EUA terminariam as obras e ficariam com o direito de usufruir do canal por um século inteiro.

1911 – Os Estados Unidos providenciaram nova guerra com o México, alegando que em Vera Cruz haviam aprisionado alguns soldados e se recusavam a pedir desculpas. Por conta disso, atacaram a cidade, bombardearam e mataram mais de 100 mexicanos. Foi um pretexto para tirar de cena a luta trabalhista e a “ameaça” do socialismo.

1915 – Os Estados Unidos invadiram o Haiti, onde uma força da marinha desembarcou na capital Porto Príncipe, dirigiu-se às caixas fortes do “Banco Nacional do Haiti” e levou os mais de quinhentos mil dólares que ali havia. As forças estadunidenses ficaram no país até 1934, quando deixaram o povo entregue a uma das dinastias mais sanguinárias da região: a família Duvallier: Fraçois (de 1957 a 1971) e seu filho Jean-Claude até 1986.

1916 – As tropas estadunidenses invadem a República Dominicana, onde permaneceram até 1924, deixando como presidente do país outro ditador da pior estirpe: Leônidas Trujillo, mais conhecido como “o chacal do Caribe”, que ficou no poder por 31 anos.

Anos 30/40 – A segunda guerra mundial leva mais de 18 milhões de estadunidenses para as Forças Armadas e as atrocidades de Hitler fazem com que este conflito se transforme na guerra mais popular vivida pelos Estados Unidos, sendo inclusive apoiado pelos trabalhadores ligados à esquerda. Foi ali que o país consolidou a sua fama de paladino do bem, salvando a humanidade do então denominado eixo do mal.

1946 – Quando assumiu a presidência da Bolívia um jovem militar nacionalista apoiado pelas forças populares, os Estados Unidos foram criando instabilidades internas, no seu velho estilo, até que conseguiram organizar o linchamento e o assassinato do presidente. Com isso a Bolívia saiu da influência das ideias “esquerdistas”.

1954 – Também a Guatemala nacionalista, sob o comando de Jacobo Arbenz, sofreu o peso da mão dos Estados Unidos, aborrecido com o tratamento dado a sua empresa United Fruit. O país foi invadido e o presidente deposto.

1954 – Ainda no mesmo ano, os olhos se voltaram para o Brasil e, usando o mesmo jogo de intrigas e mentiras, a CIA consegue levar à bancarrota o governo de Getúlio Vargas, com o providencial suicídio do presidente.

1955 – Foi a vez de derrubar Juan Domingos Perón e entregar toda a indústria estatal argentina nas mãos privadas, provocando o desmantelamento e a desnacionalização da economia.

1961 – Os ianques tentam acabar com a revolução cubana a partir de uma invasão via Playa Girón. O exército americano, formado basicamente de mercenários, foi derrotado.

1964 – São públicas as tramoias montadas pelos Estados Unidos para depor o presidente João Goulart, no Brasil. Agora começam a aparecer as provas de que a morte de Jango no Uruguai tenha sido um envenenamento urdido pelo serviço secreto.

1965 – Os Estados Unidos invadem outra vez a República Dominicana, onde principiava emergir um levantamento revolucionário popular.

1973 – No Chile de Salvador Allende, incendiavam-se os desejos de vida digna e soberania. Atuando junto à direita, cooptando sindicalistas e lideranças sociais, os estadunidenses foram criando o caldo da contrarrevolução até culminar com um golpe de estado que colocou no poder Augusto Pinochet. Este encharcaria de sangue o país, sob as bênçãos da CIA e da Escola das Américas, que ensinava aos militares as técnicas mais sofisticadas de tortura.

1973 – Também o Uruguai sofreu a intervenção alheia e uma ditadura sanguinária se instalou.

1975 – Dois anos depois era o Peru que caia a partir de um golpe contra o presidente nacionalista Juan Velasco, que havia nacionalizado empresas estadunidenses e feito uma reforma agrária que beneficiara mais de 370 mil famílias.

Anos 80 – Os Estados Unidos estiveram por trás de todos os movimentos contrarrevolucionários da América Central, combatendo com mercenários os partidários de transformações radicais naquela região. Tirando os sandinistas que lograram vencer na Nicarágua, os demais não conseguiram. Antes do sandinismo, eram os EUA quem treinavam e financiavam a ditadura de Somoza.

1981 – São as tramas secretas dos agentes da CIA que viabilizam o assassinato de Omar Torrijos no Panamá, um presidente nacionalista que logrou rever a questão do canal, viabilizando um acordo de devolução para 1999.

1982 – Os Estados Unidos ajudam, pela segunda vez na história, a Inglaterra a abocanhar as ilhas Malvinas da Argentina. A base estadunidense na ilha Ascensión, os satélites ianques no espaço, as armas, combustíveis, mísseis, e até o serviço diplomático, tudo foi colocado a serviço dos interesses ingleses.

1983 – Os Estados Unidos promovem a invasão à pequena ilha de Granada, que caminhava pela senda do socialismo.

1989 – Bush pai mandou invadir o Panamá e lá aportaram mais de 26 mil soldados. O objetivo era depor Manuel Noriega, que tinha sido um bom aliado – e agente da CIA – mas estava querendo caminhar com os próprios pés. Assim, com o argumento de que ele liderava um cartel de drogas, o exército estadunidense baixou em Ciudad Panamá e, no ataque ao bairro mais populoso da capital, El Chorrillo, mais de quatro mil civis morreram. (Continua)

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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