A democracia que se faz inócua.

Há frases que soam como se fossem dogmas divinos.

São frases recitadas que não só se consoam como divinas, como assim ressoam muito mais do que divinos e proféticos, já que, proferidas por seres humanos, inspirados ou mal assoados, vogam imperantes no livre repensar humano.

Todos sabemos que o homem vem se afastando tanto de Deus, que nem isso o incomoda de modo a ensejar algum receio por cuidados.

Por que pensar em Deus, e em seus eventuais castigos, como muitos assim o falam, se esse deus tão pouco real, impotente e tão inconsistentemente imaginado vem se colocando tão distante, longínquo, inalcançável, só para assim  nos permitir a liberdade, este bem maior presenteado por livre arbítrio?

Possuiríamos tal livre arbítrio, se Deus nos vigiasse tão próximo, consentindo ou obstruindo a cada curva do caminho livre escolhido, firmando a rota, alterando o sentido e o compromisso, mudando a regra e o compasso, a cada passo, à revelia de nosso pensar e o seu remisso?

Não é tal distância vigilante que faz imutável as leis comuns do existir?

E nesse comum existir, por acaso os bólidos flutuam incontrolados ao sabor do pensamento, e até do vão lamento nosso e de tantos, quando o infausto nos acontece, parecendo ser um fato imprevisto, quanto o é sempre previsto e esperado, por imutabilidade dessas mesmas regras, sempre vigentes e mensuráveis, e sem erros?

Que o diga o recente acidente acontecido na nossa Avenida Beira Mar, quando um carro último tipo, em tração silenciosa, por elétrica, mostrou-se um estorvo, nas mãos imperitas de seu condutor, colhendo um poste de energia e um ciclista pelo caminho, só porque a velocidade tangencia a insensatez, e os freios não podem abusar do que lhes permitem os bons pneumáticos e a pista melhor asfaltada?

Por acaso faltou Deus no erro esperado e cometido, ou houve Sua presença notável, não ocorrendo danos fatais, só perdas acumuladas, por materiais, persistindo a história do homem estulto que a tudo isso se permite, repetir-se em cascatas de erros, inclusive, sem ao menos ousar restar-se corrigido, perante um atentado perigoso, ao poste e ao ciclista, que se postaram em sua trajetória com razão e boa explicação? Ou o ciclista estava errado e o poste mal assentado?

Não é querer de Deus uma ação maior para dirimir o erro, que o homem comete até no comando de um carro último tipo, em belo torque, e altas potências de silenciados cavalos relinchantes, sem estribos e cabeçotes, por elétricos, todos promovendo um mundo melhor, mais-que-verde, preservando o oxigênio e a natureza, ambientalmente falando, como moda deslumbrada?

Não é assim que a tecnologia por deslumbre recomenda, pondo tudo ao dispor do homem que tudo degrada, até aquilo que concebido deveria bem estar para promover o bom e o belo?

Podemos reclamar de Deus quando o infausto nos assombra toda hora e todo dia nos arroubes do noticiário?

Por acaso tudo isso acontece porque Deus é desprovido do estro, da matéria e do halo, como dizem possuir, enquanto onisciência todo potente, mas que se colocou tão distante e afastado, em renuncia final, sem sucessão, de molde a deixar sua criação, debalde imperfeiçoada, para que esta, por si mesma se aprimore continuamente num bater de cabeça sem fim ao leu, recriando-se, ou “des-criando-se”, expressão inexistente, mas sobrecomum, e até se destruindo como vem sendo um feito bem mais  comum, perante os dogmas referidos como leis, que o divino não pensaria vogassem tanto, como quanto pouco prevalecem e vigem?

E neste mal solvente e dissolvente, estaria mais vigente a tríade Hindu, de um Deus que Cria, um que Conserva e um outro que tudo Destrói, por final, renovando sem fim o ciclo, com o homem refazendo a obra divina, querendo-a mais que perfeita, ou supra perfeita, ou impossivelmente perfeita, como só assim o seria possível, por sua, dele homem, construção definitiva, e no final melhor restada, por aprimorada?

Se nada disso é verdade, e sempre é vã a nossa imprecação perante os céus, há dogmas humanos que são bem mais fortes que aqueles professados por todas as religiões, daí a descrença do homem nos deuses, em qualquer um, e a nenhum, por improvada verdade física.

E nesse perfilar de descrença, crê-se nos dogmas inerentes à História, explicitados a todo momento nos cerceando o existir.

Em tempos não tão recentes, por exemplo, o festejado ensaio, “O fim da História”, de Francis Fukuyama, datado de 1989, comemorando o Bicentenário de Revolução Francesa, esquecendo seu Terror em tanto sangue inútil derramado, ocupou merecidos comentários, como dogma ali inserido e que a seu tempo nunca fora tão contestável.

Por fim da história, Fukuyama afirmara que a derrota do Fascismo após a Segunda Guerra Mundial e a derrocada do Socialismo no limiar do novo milênio, exemplificada pela inimaginável demolição à marretadas do Muro da Vergonha de Berlim, erigiam o liberalismo como a ideia-força visando a organização político-econômica das sociedades.

Alguns bem mais além apressados viram ali um definitivo porto comum para onde rumariam todas as nações, encampando como único norte aquele navegado pelas democracias ocidentais, quiçá todas rumando para um globalismo, meta comum, sem desvios nem finalidades.

Como os problemas comuns dos homens persistiam numa humanidade nunca tão grande e crescente, o “Fim da História” começou a falhar.

Tais problemas se persistiam, diziam seus corifeus, estes derivavam por defeitos inerentes ao capitalismo, como apressadamente o próprio Fukuyama concluíra, afinal era fácil imaginar que a violência urbana, a destruição ambiental, o crescente numero de famintos e desabrigados, e o consumo incontrolável de drogas, tudo isso advinha da rala aplicação dos princípios liberais, de liberdade e de igualdade, numa fraternidade nunca de todo restada em bom aceite, mesmo no paradisíaco Estado-de-bem-estar social das ocidentais democracias, afinal a melhor lição, na repartição do pouco pirão, em rala farinha é dada todo dia pelo tabaréu sensato, afinal cada um suja a própria mão com avidez, furando a fila na busca do rango primeiro.

Ou seja, o dogma de “Fim de História”, faliu rápido, vingando apenas um chavão inútil: todos contra e mais alguns execrando, não o Socialismo, por fraterno e humanitário, mas o nazifascismo, por demoníaco e sanguinário.

O tema me vem agora, porque estamos a viver um crescimento daquilo que seria impensável e inimaginável, a contestar Fukuyama e seus acólitos; um crescimento da “Extrema Direita”, nas eleições ocidentais.

Se Donald Trump na América espanta tantos “democratas e liberais”, tidos como bons “ursos fofinhos de pelúcias”, em outras astúcias e minúcias, o mundo está querendo perquirir novos caminhos, cofiar novas fidúcias, sem temer o desatino de enfrentar “bichos-papões”, por “iliberais”, palavra nova que permeia o desafino por “involução ideológica da humanidade”, à qual todos estão sendo convocados a banir do nosso herbário, via edificação de novas censuras ao arbítrio de tantos Torquemadas sempre ressurgentes em hodiernos “autos-de-fé”, quantos forem os infernos a erigir por necessários.

É a velha, por comum, caça às bruxas, com o mesmo alarmismo de “quebras de cristais”, nos ancestrais pogroms anunciados, sobretudo quando o prédio começa a ruir e tudo ameaça a desabar.

E nesse desmoronamento já previsto por anunciado, relembro de Yascha Mounk o ensaio “O Povo contra a democracia” que nos chegou em 2019, alertando-nos “Por que nossa liberdade (estava a) corre(r) perigo e como(deveríamos) salvá-la”, os parênteses sendo inseridos por ousadia minha de leitor destoante, de um texto que a muitos pareceu empolgante, por ensejar um iminente perigo, quando em verdade estava a destrinçar a simples permanência do que tem sido e vem ruindo, com o povo querendo rejeitar a democracia, enquanto governo norteado na vontade popular.

É o que me faz lembrar dos idos da “guerra fria”, nos mais precisos tempos da minha infância, quando em plena redemocratização a partir da queda de Getúlio Vargas e seu Estado Novo, em 1947, e mais precisamente quando um clamor quase igual colocara o Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade pelo Tribunal Superior Eleitoral, sendo cassados os seus mandatários livremente eleitos no ano anterior, sobrando até o assassinato de um militante, Anísio Dário, infausto operário, homem simples abatido, num protesto ocorrido à frente do Antigo Cinema Rio Branco, por repressão das forças da ordem, sempre disponíveis para coibir excessos.

Os excessos sendo depois vingados na piada ou na expiada de uma verve radiofônica hoje remida por não mais restar gravada, final a bala assassina, segundo a crônica oficial “tivera sido deflagrada por ‘Esbirros de Moscou’ na manifestação inseridos, mas não arrestados, pela forças da Ordem”.

 

O fato sendo notável por xistoso, afinal Moscou então se fazia mais distante do que hoje, embora a Geografiapermaneça imutável e os esbirros existiram de fato e nunca foram tão pouco moscovitas.

Como a coisa sempre pode restar assaz  russa, agora a bola da vez a repelir é a “direita”  que perigosamente está a crescer no mundo com o povo ameaçando a democracia.

Se Donald Trump é o melhor exemplo americano, vem da Alemanha o alarde do noticiário, denunciando a crescente preferência do eleitorado Europeu, pelos partidos ditos “De Direita”, o povo nas urnas rejeitando os esquerdistas “Socialistas” e “Sociais-Democratas”, no poder por longas datas, e sepultando de vez por “cláusulas de barreiras” os “Comunistas”, restados piores por impopulares, com o destaque acontecendo para a agremiação da “Extrema Direita”, “AFD”, ou “Alternativa para a Alemanha”, liderada por Alice Weidel, partido semelhante aos “Fratelli d’Italia” de Giorgia Meloni, o francês Rassemblement National”, de Marine Le Pen, o “Chega” de André Ventura em Portugal, entre tantos execrados como de  “ultra-direita” ou sinistramente ali colocados, por seu caráter “protecionista, conservador, nacionalista e eurocético”, o que é considerado uma suprema heresia contra o globalismo, enquanto “Fim da História”.

Para terminar a estória, em terras brasileiras aguarda-se a condenação do “Mais amado Capitão”, Jair Messias Bolsonaro, como “Réu ideal sem Crime”, ou o melhor culpado de todos os delitos não existentes, mas imaginados que por fatos intentados, afinal o Mito precisa ser apeado, de “qualquer maneira” e por pior zoeira; de concorrer às eleições de 2026; tudo porque ninguém arrumado no Centro,  na Direita ou na Esquerda  derrotará o Mito se ele estiver sorrindo na “urna eletrônica, dita ‘indevassável’”.

Se os dogmas divinos não são tão falseáveis nas urnas, erija-se o velho cadafalso aos mártires das causas indesejáveis, nem que o mundo pereça, e meio mundo de gente reste nas masmorras invocando anistia sem perdão, e gritando: “Ainda estou aqui, aqui, aqui!!!”  Despertando indiferenças.

Quanto ao “capitão-de-pijama”, como muitos assim o denigrem, admirando o seu porte e seu garbo, falastrão e pouco educado, 40% dos brasileiros o continuam a seguir, vencendo todo amplo propagandeio a ele hostil no noticiário.

Já os 60% restantes por covardia ou vilania, tal maioria o quer vê-lo preso e amarrado, alguns como Vercingetórix, o guerreiro inerme trazido enjaulado para o aplauso dos Césares, outros o querendo só como vácuo, dele recuperar o acento, postulando o seu lugar por astucia e melhor memento.

Se Bolsonaro, ou “Boxonaro” no momento e sem memento, representa tal direita tão terrível, por sinistra, não são demasiados timoratos os propensos postulantes querendo aparecer como  “de direita boazinha”, por confiável?

A parte tudo isso, prevalece o medo com a democracia sendo entregue ao povo, e a soberania popular se operando inócua, em tanta regra solapando do povo sua vontade.

Parafraseando, por fim “O Tigre”, Georges Clemenceau, o célebre político francês que afirmou em pleno atoleiro de trincheiras ser “A guerra uma coisa importante demais para ser deixada por conta dos generais”, alguns menos tigres ou sem suas listras, “des-tigrados”, por mal atolados, poderão agora estar tudo maldando e se desdizendo pior: “A democracia é coisa importante demais para ser deixada por conta do Povo”

Ecce homo! Seja cassado Bolsonaro!

Que fazer se a massa sempre glosa com o pão farto e é o circo que diverte?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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