Nos idos de 1949 surgiu a marchinha de Carnaval: Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
A marchinha me traz uma lembrança chata, porque eu, anos depois e ainda muito criança, pouco menos de seis anos de idade, estava me embalando numa rede e entoava esta cantiga. sem mesmo saber o que ela dizia.
A letra da música vale lembrar, pois só os antigos, os da minha faixa, devem ainda retê-la na memória.
Tal música, leio no YouTube, é composição de Paquito / Romeu Gentil (1949), que eu nunca soube quem fossem.
Dizia a musiquinha:
Daqui não saio
Daqui ninguém me tira
Daqui não saio
Daqui ninguém me tira
Onde é que eu vou morar?
O senhor tem paciência de esperar!
Inda mais com quatro filhos
Onde é que vou parar? (2x)
Sei que o senhor
Tem razão pra querer
A casa pra morar
Mas onde eu vou ficar?
No mundo ninguém
Pede por esperar
Mas já dizem por aí
Que a vida vai melhorar
“Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Etc.
Pois bem! Estava eu a cantarolar o “Daqui não saio” me embalando feliz numa rede, quando um adulto, um brutamontes, me interrompeu ameaçadoramente: “Se eu quiser lhe tiro daí!”
“É a música!, – respondi-lhe, temerosamente.
Isto me ficou, para sempre. Tem coisas que não se apagam.
Ficou-me, como lembrança Incômoda, afinal a figura grosseira que me interpelara era uma espécie de segurança.
Estávamos numa fazenda em Nossa Senhora da Glória, sertão sergipano, em tempos inseguros da política partidária, tempos em que era comum andar armado de faca e trabuco nos quartos da cintura para exibir alguma valentia.
Em verdade, a ameaça do grandalhão foi uma exibição vária de covardia, afinal muitos adultos gostam de assustar as crianças quando indefesas estão, sem o amparo dos pais.
Isso era muito comum no meu tempo de criança, tempo em que se dizia que pelas ruas campeavam os “tira figos”, ou “papa-figos” , indivíduos que gostavam de tirar os fígados dos meninos que estivessem à toa.
Eram tempos mais românticos porque a insegurança não era como hoje, com a marginalidade crescente.
Hoje as cidades são bem iluminadas e não há mais sapos nem jias para cantarem a noite, na beira dos alagados.
Também não há contadores de história de bruxas, fadas e sortilégios, nem os “tiradores de figos das crianças”.
No contexto da marchinha de Paquito / Romeu Gentil, datada de 1949, persiste o drama habitacional, ora tema da Campanha da Fraternidade deste ano, o “Direito à moradia digna”, com a CNBB batendo na velha tecla do Pecado Social, que a ninguém mais empolga, desde que a Teologia da Libertação, restou démodé.
Alguns Bispos porém, acham que a questão social pode ser resolvida com a partilha dos bens, simplesmente, quando os homens, após quinhentos anos de pregação evangélica do Padre Nóbrega, de José de Anchieta, hoje Santo, e Aspilcueta e João Salônio, continuam sem exibir tal desprendimento, mesmo que isso nos seja condicionado como alguma incerteza da salvação eterna.
Nesse contexto de salvação, o próprio salmista afirma que em tudo sendo dom de Deus, nada é conquistado por esforço humano, simplesmente, inclusive para que o homem não se glorie no seu próprio mister.
Todavia, o pecado social virou a verdadeira e definitiva maldade, espécie de mantra político por excelência, prevalecendo o pensamento marxiano, sem o qual as religiões, qualquer uma, são alcaloides do povo, simplesmente.
Se é assim, ou não é de todo, as Campanhas da Fraternidade se esvaziam em quanto desejos a requererem muito mais do que simples boa vontade, afinal a moradia digna tem sido um desafio cada vez impossível de realização, porque tudo tem um preço cada vez maior e crescente, sobretudo num mundo que se proletariza, com a classe média crescentemente sufocada pelos boletos que chegam lestos, via internet.
Hoje vive-se a incerteza de que os recursos disponíveis no planeta serão insuficientes diante da massa de famélicos que nos cerca, nos enredando inclusive.
É como se estivéssemos a viver numa montante maré que vence barreiras e nos afoga a todos, por seus muitos vasos comunicantes, o noticiário nos informando da migração desenfreada, com os famintos assediando os parcos celeiros daqueles que saciados continuam, um desafio insuficiente à simples solidariedade.
Possui ela, a solidariedade, toda suficiência em tanto e quanto requerida para o sacio de todos?
Eis uma pergunta terrível a ser respondida pelos economistas e gestores do caos.
E aí eu me volto para a minha cançoneta do tempo de criança, encarando a necessidade de moradia digna, ensejada pela fraternidade cristã, e me lembrando das campanhas para a aquisição da casa própria, tempo do Regime Militar e de Brasil Grande, com a criação do BNH, Banco Nacional de Habitação, os Financiamentos para a casa própria, da minha própria casa, adquirida com muito esforço assim financiada; do FGTS, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, tão execrado, como tudo feito e gestado pelos governos dos milicos; os conjuntos habitacionais erguidos, com uma indústria nova surgida; a da Construção Civil, enriquecendo muita gente e beneficiando muito mais, como eu mesmo, assalariado e professor, podendo possuir uma casinha onde morar, amealhando cada vintém; e hoje nada disso valendo, porque a inflação come tudo e há uma infinidade de desvalidos, pelo que assim denunciam os Bispos e a CNBB, a necessitarem moradia digna…
Mas, o que fazer, senão pedir a Deus, para do céu, pelo menos, fazer chover um pouco de vergonha como aos judeus caiu dilúvios de maná!?
E que não nos venha uma moléstia como a COVID, porque as vezes, pede-se fartura de bens e desce dos céus uma doença, pelo menos era explicado assim os reveses sofridos pelo povo Hebreu.
E porque também nos podem afiançar alguns Economistas à Malthus: ´sempre se pode reduzir as demandas por simples redução dos demandantes`.
No mais, tudo é festa e o carnaval que o diga, com o melhor exemplo da Escola de Samba Unidos de Niterói, enaltecendo o Lula, o nosso melhor herói, candidato de novo, agora contra os golpistas; os evangélicos e nossas famílias bem constituidas.
O que me faz lembrar do livro do Êxodo, no iniciar da Quaresma, afinal uma grande fome levou Jacó e seus filhos; Rubem, Simeão, Levi e Judá, Dam e Naftali, Gad e Aser, Issacar e Zebulom, e Benjamin para se juntar a José, que de escravo virara Vice-rei do Egito, filhos e netos paridos de quatro matrizes a saber e imaginar a confusão: Lia, aquela vesga prolífera dos olhos tristonhos, Raquel, a sua mais bela e querida, e pouco fértil, Bala e Zelfa, suas escravas prolificas de cama e mesa, e delas todas, cerca de setenta bocas famintas, em divergências e disputas infindas, a confirmar o velho adágio: ´em casa onde falta pão, todos brigam e nenhum tem razão`.
Como toda gente migrante, esse povo deve ter incomodado sobremodo os egípcios, a ponto do faraó, diz o Êxodo,mandar matar toda prole masculina nascida, da qual se salvou Moisés, que numa cesta boiou nas águas do Rio Nilo, foi balido pela filha do próprio rei, e depois, como adulto, virou uma figura assaz incômoda para Ramsés, o sucessor do reino…
E daí sobrou uma série de pragas nunca vistas até então no Egito, culminando na morte dos primogênitos, e no afogamento dos cavalos e cavaleiros na Mar Vermelho que jamais se abriu, nem antes, nem depois, e muito menos agora que tem o Canal de Suez separando o deserto do Sinai, por onde vingou essa gente por quarenta anos até que pagasse os pecados e fosse conquistar a terra que abandonara, numa guerra ainda hoje interminável.
Isso tudo, só para dizer que é complicado a convivência entre os distintos.
Os próprios filhos de Jacó, em feitos pregressos acontecidos, curtiram na faca a Siquém e seus confrades Jebuseus ou Zabuseus, porque este bulira e não devera a menina Dina, única filha reconhecida pelo velho Jacó.
A história vale repetir, só para confirmar a intolerância de raça e credo, porque Siquém apreciou demais o petisco que sem licença degustara, prometendo sanar seu erro ofertando por dote o seu prepúcio e a de todos os varões de sua família.
Interessante é que tal ritual de circuncisão foi coletivo.
E depois, em sabendo que os novos convertidos estavam indefesos em convalescença nas partes baixas, todos, sem exceção, foram curtidos na faca, previamente afiada, não deixando a menina Dina, nem mesmo tempo de saber se no coito haveria alguma diferença em ter ou não, o penduricalho, mais que inútil.
A história vale contar, porque a intolerância humana é bem maior do que pode imaginar nossa vã filosofia, aí incluída até a nossa religiosidade vazia.
Não foi à toa que mesmo morrendo Cristo, foi preciso vir Paulo de Tarso para divergir de Simão Pedro acabando com a circuncisão obrigatória dos gentios.
Isso só para dizer que se cada um se tem o seu prepúcio, trate-o bem se assim o quiser. Deus não quer aparar tal penduricalho de ninguém!
Mas Jesus Cristo, que nada pregou sobre prepucio, morre todo ano na Sexta-Feira Santa.
Morre e ressuscita!, segundo relato da Madalena, a outra Maria, os andantes de Emaús e os muitos Profetas e Santos que a tudo isso testemunharam imolando a própria vida
O seu viver e pregar é muito maior, do que a tenue tolerância pregada na Quaresma, daí esta ser repetida todos os anos, em penitência pelos desmandos do Carnaval.
Quem sabe se no mote do Direito à Moradia Digna, alguém não verá um dia, alguma ternura numa cantiga tão simples quanto terna, nos lábios da criança que eu fora e continuo: – Daqui não saio, daqui ninguém me tira!