Ilações perigosas

Na minha adolescência o moderno era ser antiamericano.

Sou um resistente “Baby Boomer”, geração assim chamada por ter nascido no pós bomba atômica.

Quando ingressei no Curso Científico, no Colegial do Atheneu Sergipense, então Colégio Estadual de Sergipe, a moda era elogiar a ousadia do povo cubano, de Fidel, o deles Castro, comandante; o seu xerife imediato, Che Guevara, louvando todos aqueles homens barbudos que sugiram para “libertação” do povo latino-americano, perante exploração americana.

Naquele tempo enaltecia-se até mesmo o famoso “El paredón”, onde se processava a assepsia que o novo regime inaugurava.

Em “El paredón”, eram fuzilados aqueles que o materialismo histórico exigia por sanitário cordão, sem o qual nada muda.

Os regimes autoritários, sobretudo os de esquerda, teimam em eliminar os que lhe podem surgir em discordância. 

Alguns entendem assim aquela barbárie, clamando-a como um terror necessário. 

Trata-se de uma lição antiga, que o melhor exemplo aconteceu nos idos de 1793, quando os “Revolucionários em Convenção” impuseram o “Terror na Ordem do Dia”, iniciando a sequencia de degolas, via navalha republicana, a guilhotina, máquina sinistra erguida exemplarmente em praça pública, a qual o populacho aplaudia, uns chamando-a de “Cravate à Capet”, ou gravata do Capeto, em lembrança à degola do Rei Luís XVI e sua corte.

Aquela maquina terrível virou festejo para delírio da multidão, sempre desocupada para assistir tais encenações, iguais até nos gritos, aos antigos “autos de fé”, por similar crueldade. 

Mas, aqui bem pode caber a pergunta que é sempre atual por cabível, em tantos juízes e acusadores disponíveis e verdugos sempre úteis e eficientes: Quem não merece ser tratado cruel e intolerantemente, perante os tribunais da História, com tantos golpistas e reacionários, aí incluídos os muitos resistentes se opondo ao prosseguir da carreta revolucionária?

A guilhotina virou tão próxima por familiar, que uns a apelidaram de “Louisette” ou “Louison”, inspirados no seu criador, um médico Antoine Louis  que a aperfeiçoou, de molde a amainar sofrimentos desnecessários, por republicanos. 

Se alguns a alcunharam jocosamente de “La Veuve”, ou A Viúva, por esterilizar, a tantos que por ali passavam, houve outros que viam “La Machine” não como máquina, mas como algo doce, quiçá poético como “Moulin à Silence, ou Moinho do Silêncio. 

A guilhotina virou instrumento necessário para higiene, esterilização e limpeza, calando a muitos, a fim de que o regime novo vigesse. Os regimes atrabiliários sempre se desenvolvem no silêncio, na ausência de vozes discordantes. 

E o que se viu, mesmo sendo escondido ainda hoje por muitos historiadores, é que de silêncio em silêncio, foram liberados ruídos outros, levando o cutelo assassino a adquirir vida própria …

A Guilhotina, Louison ou Louisette se tornou por demais sedenta de novas carótidas, com a lamina revolucionária descobrindo que todo sangue, qualquer um, tinha a mesma cor e possuía a mesma impureza hostil que Rouget de Lisle poetando inseriu em “La Marseillaise”.

E hoje, quando a Concórdia reina na mesma praça, e no mesmo jardim, alguns se manifestam ainda muito sonsos e pouco pacificados, ousando contestar até mesmo a possibilidade de alternâncias de poder e de regime, essa coisa que para eles, é sempre uma ingênua tese, de fraqueza da democracia.

Não é assim que acontece quando se teme a manifestação divergente? 

Que o diga, em “Aggiornamento” e atualidade,  o noticiário vindo da Nicarágua com o Ditador Ortega, perseguindo muitos e banindo eleições por desnecessárias!

Para uns, o materialismo histórico, se tornou fé raivosa equivocada exigindo de seus defensores a coragem ensandecida dos fanáticos para explicitar tal desejo e por pior, muito pior, ousar eliminar qualquer um que externe um laivo de discordância… 

Lá em Manágua, pelo eco que nos chega requebrado, bane-se eleições. 

Já por aqui, “Mutatis Mutandis”, ou sem mudar o que não pode ser alterado, muitos querem impugnar os candidatos tidos e havidos como reveses infiéis, os assim chamados “Bolsonaristas”, alcunhados como perigosos “golpistas”, e como tais, ”merecendo” ser impedidos de recidivarem… 

Resistindo a tudo isso o Capitão, Jair Messias Bolsonaro, persiste, “Mito”, digno, corajoso e altaneiro, para milhões de admiradores, mantido por isso preso e incomunicável, condenado por um simulacro de julgamento, no foro errado e sem a necessária isenção dos julgadores. 

Por acaso não é notória a constatação de que o justiçamento do Ex-Presidente Jair Messias Bolsonaro, dia após dia, vem sendo questionado em termos de justiça e verdade, envenenando inclusive a nação, cada vez desunida e fragmentada, sem nada maior que assim o justifique? 

Não é crescente o reconhecimento de que contra ele foi cometido uma injustiça reprovável, algo que bem mereceria a repulsa de um “J’accuse”, similar libelo àquele que Emile Zola, denunciou enquanto nódoa do alto Comissionado do Exército Francês, na coluna do L’ Aurore, um jornal que ousou defender Alfred Dreyfus, um oficial capitão exemplar, condenado num grave erro Judicial que restou assim afinal, comprovado e documentado e para sempre um motivo de vergonha?

Não está cada vez mais execrável o julgamento do Ex-Presidente Bolsonaro, aqui e alhures, por denuncia alem fronteiras do Presidente Trump, do Portenho Milet e do Judeu Benjamin Netanyahu, numa crescente perseguição que ja está envolvendo até os seus familiares?

 

Ou não foi justiçado assim, igual a Dreyfus, o Ex-Presidente Bolsonaro, condenado por seus pessoais inimigos e figadais opositores, tudo o que justificaria a cada um deles, enquanto julgadores, a necessária renuncia por confissão de impedimento prévio? 

Tal constatação, por si só já mereceria um libelo acusatório que marcará no final uma irreparável mácula, porque a História assim o dirá quando os ânimos delinquentes ousarem se amainar em busca da compreensão que lhes será negada.

E o que falar da perseguição sofrida pelo julgamento prévio do filho Eduardo, forçado a se exilar por privado de tudo, do mandato eleitoral de Deputado Federal conquistado com muitos votos, demitido até do emprego concursado adquirido por mérito de provas e títulos, “exonerado por justa causa”, como se fora um desidioso funcionário faltoso, ele que não pode “bater o ponto”, porque o Estado não lhe concede a segurança de ir e vir, e até de possuir com a própria cabeça assentada no pescoço.

Por acaso não teve ele que fugir para não ser preso e enclausurado. 

E o filho Flávio, o Senador e Presidenciável, conseguirá resistir como o principal concorrente nas próximas eleições, contra Lula, o “des-condenado” Presidente?

Irão permitir as altas cortes eleitorais, sua candidatura, ameaçada de nascer morta, coisa que já está se tornando terrivelmente difícil, diante de suas desconfianças dele externadas e de meio mundo de gente como eu, inclusive, da inviolabilidade da “inauditável” urna eletrônica?

Porque nesse país de muito riso e pouco siso, acredita-se na inviolabilidade da urna eletrônica, como se fora um dogma religioso, com punições e ameaças que bem invejariam as excomunhões do Papa Pio IX, ditadas por suas “Encíclicas Qui Pluribus, Quanta Cura e Syllabus Errorum”.

Cito tais documentos porque bem merecem uma leitura, afinal provocaram tantos problemas políticos na Civilização Cristã Universal, aqui no Brasil, inclusive, com a famosa Questão Religiosa, erodindo o Império de Pedro II, e no mundo todo, em previas de democracia culminando com a captura dos Estados Papalinos, com o próprio Papa Pio IX, declarando-se “Encarcerado na Cúria do Vaticano”, conservando a Mitra e o Pálio, mas sem poder mais usar a Principesca Coroa Gestatória, a Tríplice Tiara Papal, até que Mussolini, um fascista, o resgatou da Cúria, criando o Estado do Vaticano, com a sua famosa Concordata. 

Tudo isso só para confirmar que a estupidez, qualquer uma, será sempre uma estupidez, vindo do Papa, da Toga e até do Capelo, qualquer coisa que possa encobrir alguma casca, e algum piolho, até daquele sem juízo e sem cabelo.

“Modus in rebus”, minha gente! 

Conselho que preciso tomar até para mim, afinal já dizia Galileu , o Galilei, aquele do teatro de Bertolt Brecht, talvez inspirado em Voltaire: “É perigoso ter razão contra os poderosos”.

Galileu que recuou em seu debate, mesmo sabendo que em verdade “Eppur se move”, a Terra não era fixa e se movia” e que: ”A soma dos ângulos internos de um triângulo independe da azia de cada um e até  

da vontade da Cúria” 

“Modus in rebus”, sobretudo, porque muito antes de Galileu já diziam os latinos: “Iuppiter omnipotens homines insanire facit”, o todo poderoso Jupiter enlouquece os homens. 

Estarei enlouquecendo ousando afirmar tais coisas?

Foi assim com o terror jacobino dos franceses, o mesmo com os bolcheviques russos, e outros tantos exemplos, que é tedioso explicitar, porque tudo começa igual, matando-se primeiro os vencidos, por caídos e destituídos, e porque urge saciar assim a sede e o ódio revolucionário.

As revoluções nunca são brandas. 

Não ha revoluções sem derramamento de sangue.

Dir-se-á que um sangue impuro precisa ser vertido, como repete Claude Rouget De Lisle ono verso que restou imortalizado na Marselhesa: “Qu’un sang impur abreuve nos sillons”. 

Mas, o que é um sangue impuro diante da sede sem fim hemorrágica, quando os aliados e amigos se tornam aziagos por discordantes?

As revoluções não teimam em prosseguir com a velha síndrome de Saturno, o pai de Jupiter, o Zeus grego que deglutia os filhos que gerava?

Não foi assim com Danton, tão feioso, quase um sombroso, e que ficou assaz perigoso quando Preferiu a moderação ao extremismo (O Fim do Terror).

No auge do Terror Revolucionário, que loucura!, Danton preferiu e liderou a ala dos “indulgentes”. Não pensou que seus discordantes ousariam tanto!

Ele defendia a interrupção das execuções em massa e a reconciliação nacional, algo parecido com a anistia a tantos condenados no “Golpe de 8 de Janeiro”, que será tema proibido na eleição que se aproxima.

Danton, um dissidente perigoso, por eloquente, e indulgente, preferiu ser guilhotinado a guilhotinar; virou um perigo quando a Republica assim o quis, denunciando o terror na ordem do dia. 

Igual a Leon Trotsky, quando caiu em desgraça na Russia Soviética, pós Lenin. 

Trotsky, que fora a  “grande águia”, como dissera embevecido,  Edmund Wilson, ao escrever o formidável “Rumo a Estação Finlândia”, relatando os memoráveis feitos da Revolução dos Trabalhadores, construindo aquela que seria a notável sociedade igualitária, inspirada em Marx e Engels, e também nos escritos de John Reed, quando embevecido descrevera os “Dez dias que abalaram o mundo”, livro que ensejou o filmaço “Reds”, muito premiado, e estrelado por Warren Beatty e Diane Keaton.

Trotsky, todo mundo esquece que teve de fugir adoidado pelo mundo perseguido por Josef Stalin, até ter a cabeça fendida a marretadas…

Seu assassino, um homem chamado Ramón Mercader, ou Jacques Monard e ainda Frank Jackson, era um agente no exterior do Comissariado do Povo para Assuntos Internos NKVD da URSS, na época em que Josef Stalin era o secretário geral do Partido Comunista da União Soviética, e procedia uma esterilização interna na Russia, que nem os Czares o ousariam.

E eu, que aqui não goro, nem choco, dragões ou lacrais, recomendo a leitura da saga do fugitivo Josef Stalin, contada no excelente texto do cubano Leonardo Padura: “O homem que amava os cachorros”

Digo assim, porque o meu interesse era explicitar intolerâncias e o velho anti-americanismo da minha juventude.

Ali, a intolerância era americana, aqui fujo do tema, sem falar das “execráveis” taxações Trumpianas, hoje motivo de bravatas nossas soberanas. 

Melhor não é tentar bem citar alguma ternuras, dizendo que o sicário matador de Trotsky a mando de Stalin era um homem terno:, só porque amava os cachorros?

Com tanta ternura exibida, vale acrescentar em doce encenação afinal foi assim que o vilão sempiterno enamorou uma secretária solteirona que datilografava os textos da “grande águia, Trotsky”, lhe abrindo o flanco bem vigiado da casa. 

E Trotsky, que escapara na mesma casa de uma ampla fuzilaria abrigado debaixo da cama, recebeu o inimigo, bom amigo e namorado de sua datilógrafa, que lhe abriu a cabeça em golpes de picareta.

Mercader, é bom dizer enquanto um homem terno que “amava os cachorros”,  não fugiu nem negou o seu feito.

Como acontece nesses fatos, o suspeito foi processado, teve bom advogado, cumpriu pena no Mexico, depois foi liberado. 

Não logrou absolvição frustrando vasta militância que bem o queria.

Terminou morando na Rússia, onde foi, por tais feitos laureado, justo pelo seu mentor Josef Stalin.

E o que tem isso com o nosso anti-americanismo?

É da mesma cepa, minha gente!

Contra a Democracia Americana essa raça, mesma cepa, pode tudo, começando no discurso!

A intolerância só vem daí, dessas ilações perigosas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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