Quando o chicote canta.
O chicote está cantando contra os bolsonaristas, açulado por miríades de formadores de opinião, que dia sim, outro também, demonizam meio mundo de gente que ousa lhes pensar diferente.
Para essa gente, em tradicional intolerância, muito antiga e assaz recidivante, o divergir constitui heresia a combater, a ferro e fogo.
Se não fosse crime hoje, fariam igual à Igreja de Cristo, no medievo, em erros já reconhecidos e não negados, repetindo a vergonha que se fez medonha, com as fogueiras sendo erigidas, como “autos-de-fé”, para purificação das almas.
Das heresias, pontua a Wikipédia, enciclopédia livre da internet: Heresia (do latim haerĕsis, originado do grego, αἵρεσις, “escolha” ou “opção”, porque tem sido assim, de longa data, desde que o homem se fez, e faz; intolerante!
Heresia é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou divergente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressupõe um sistema doutrinal organizado, oficializado imposto ou ortodoxo.
A palavra pode referir-se também a qualquer “deturpação” de sistemas filosóficos instituídos, as aspas sendo destacadas por necessárias, afinal o que seria verdadeiramente uma deturpação da filosofia, se ela, a filosofia, enquanto “amor à sabedoria”, procede o estudo racional e crítico de questões fundamentais sobre a existência, o conhecimento, a verdade, a moral, a mente e a realidade, usando reflexão e argumentação para buscar compreensão, e não respostas prontas, precisando ser aberta a todas as Idéias, sem as cercear, nenhuma delas, sejam estas ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou qualquer um outro?
Houve tempo em que era heresia conceber um bólido que viajasse a uma velocidade de 32,017 pés/S, tudo porque alguém dissera que os transportados num trem assim desembestado, seriam arrancados, para a casa do chapéu, ou do cacete armado, como se dizia em tempos idos, afinal o g da aceleração da gravidade, de 32,017 pés/S2 era considerado um dogma que manteria todos os viventes presos ao chão.
Quem não acreditou nesses diatribes, sem razão e sem azimutes, resolveu vencê-los criando cavalos cada vez mais velozes, abandonando-os logo depois, inventando o cavalo-força ou cavalo-motor, de símbolo cv ou hp, porque os recordes de velocidade foram vencidos, surgindo depois a unidade Mach, em homenagem ao físico e filósofo austríaco Ernst Mach, que publicou em 1877 a sua teoria sobre a possibilidade de um corpo ser capaz de ultrapassar a velocidade do som no ar, que restou, daí para frente, baixíssima, no seu patamar vencido a 20 °C ou 68 °F, de cerca de 343 metros por segundo ou 1 125 pés/s; ou ainda 1 235 km/h; 767 mph, milhas por hora, se quiserem exibir tal rapidez, em outra grandeza que não seja a métrica decimal, perfazendo um quilômetro em 2,91 s ou uma milha em 4,69 s, porque o Mach, enquanto velocidade do som no ar, vem sendo ultrapassado pelos aviões supersônicos, aqueles que passam, primeiro, silenciosos e sem rastro, deixando um estrondo final por surpresa com a tal “onda de choque”, comprimindo as ondas sonoras à frente, aumentando lhes no por a vir, uma frequência de som cada vez mais agudo, por silvado, assobiante, deixando na trilha um rastro de som grave, ribombante, a não invejar qualquer trovão que lhe aparente.
Vale então repetir neste desplante, o reclame interior de Galileu Galilei – “Eppur, Si Muove!” – pela boca de Bertolt Brecht, que o vocalizou magistral e definitivamente, como o heresiarca, comum definitivo, condenado a restar para sempre em prisão domiciliar, pelo poderoso Santo Ofício: só porque ousou prescrever que “A soma dos ângulos de um triângulo independe da vontade da cúria!”
Diz-se então do heresiarca perigoso, aquele criminal terrível que ousou fundar uma heresia
Hoje, por exemplo, nos nossos Brasis petistas, o grande heresiarca se chama Jair Messias Bolsonaro, dito pelas multidões como o “Capitão do Povo”, tido por herege pior da democracia porque preso está na papudinha, qual jazigo execrado e enfermo, só porque resistente continua; imbroxável, imbrochável e inoxidável, sem enferrujar nem ser roído por tanto acedido de cupins, ele o Mito excelente; o Ex-Presidente mais amado do Brasil, segundo todas as pesquisas.
Ensejando temores e tremores, só com a possibilidade de ser exposto em prévias de pleito eleitoral inauditável, e sendo por isso, punido exagerada e agravadamente, em perseguição contínua e crescente, a espera de que, ou de quem o sabe, ou possa fazê-lo, a um desfecho terminal lhe ceifando a vida, enquanto simples mortal, desprovido de tudo, mas com todas as defesas que o estado de direito permite aos inimigos, quando julgado por seus desafetos, em excesso de ausente isenção.
Isenção que não se leia como falta de comprometimento moral; um figurado desinteresse, nenhuma demonstração de desprezo, rala indiferença, ou simples desdém, mas o excesso de tudo isso enquanto ferocidade de simples proselitismo visando a eliminação pura e simples do “Mito” da vida e sobretudo da política!
Eliminação, porque o maior crime dessa pátria nossa subtraída é ser “golpista”, sem arma, nem intenção, ou vocação, mas com reza e pouca mandinga, e escudado em bíblias mal folheadas, porque se assim o fossem, verdadeiramente perqueridas, far-se-iam, corajosos, bem temidos e combatentes, inspirando-se na história do povo Hebreu, resistente, desde Davi, com funda certeira, cortando as cabeças dos gigantes seus inimigos, até hoje ressurgentes!
Quanto ao “Mito”, como a Jesus Cristo na Cruz, tripudiam seus torturadores nas jaulas de todos os flagelos, espancando-o e zombando dele no amplo noticiário em que permanece como melhor notícia, única manchete de algum propago, que enseja ao vulgo, algum soldo que seja, em moeda aviltante e ressonante, afinal como diziam os romanos de longa lembrança: “Pecúnia non olet!”. Grana, qualquer uma; não fede!
E haja gente que ganha dinheiro com tal fedentina!
Mas, o que fazer se o que fede é aquilo que fica pior, por fedegoso e fedorento, hediondo, pestilento, por terrivelmente fétido, resistente a todas lavações e abluções possíveis, e imagináveis, porque como dissera Judas, o Iscariotes, no seu forcado de fuga e arrependimento: há coisas que impregnam o ser de tal modo, que só os descrentes creem passar dessa vida sem sua paga.
Diz, porém a prece que clama os espíritos, tentando a todos acalmar no bem.
Está em Romanos 12,19: “Amados, nunca procurem vingar‑se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor”.
A história do homem, todavia, nunca segue este caminho.
Os Romanos, por Vegécio, escritor latino, muito citado já preceituava: “Si vis pacem, para bellum!” Se queres a paz prepara-te para a guerra.
Algo comum que bem dissera Tobias o Barreto, em Escada, la nas bandas do Recife: “O Direito Internacional se apoia na boca do canhão”. Quem tem; tem! Quem não tem; chora e reclama!
Para os latinos, a Paz como Pax, se alojava na 3ª Declinação. Igual ao Rei que era Rex e a Lei que era Lex.
No plural o mesmo nominativo, toma a forma Paces, meio obtusa, já que entre as pazes, tudo resta incapaz de ser mantido.
Nesse sentido, só “o fazer as pazes” tem alguma serventia.
Isso, porém, está muito difícil enquanto existir um valete, cavalo machotado, a afiançar tanta covardia.
Já os Reis, ou Reges, quase só restam quatro no baralho; o de ouros, o de espadas, o de paus e o de copas.
Já no escopo emaranhado das Leis, são muitas as Reges, enquanto Leges.
Daí as frases tolices legiferantes, cada vez mais intolerantes: “Sub lege libertas”, ou sob a lei a liberdade, escoliado como a liberdade de acordo com a lei.
A lei mudando sempre e assacando a liberdade, inclusive.
Valendo até por isso o grito heroico de Manon Roland mal-ouvido pelo vulgo em francês na Praça da Revolução, e ainda mais mal escutado ainda, para ser mais exato, por pouco repetido: « Liberté, ô Liberté, que de crimes sont commis en ton nom ! » «Liberdade, ó Liberdade, quantos crimes são cometidos em teu nome!».
Eis-me, porém, me afastando do Evangelho, só para dizer que é muito difícil orar e pedir pelos nossos inimigos, já que o Sinal da Cruz por seu preambulo: “Pelo sinal da Santa Cruz († cruz na testa), livrai-nos Deus, Nosso Senhor († cruz na boca), de nossos inimigos († cruz no peito) . Amém”. Não nos exime dos inimigos e sua sanha.
Melhor fez Benjamin Netaniahu que não é cristão, mas judeu, fiel àquela tradição de Jacó e seus filhos que passaram à faca todos os da família de Siquém, mesmo quando estes estavam no resguardo da cirurgia prepucial a que aceitaram em conversão ao Talmude e sua herança.
As vendetas dos filhos de Jacó não foram tão terríveis quanto a morte dos primogênitos dos Egípcios, mas todas foram determinantes no escopo de sobrevivência do “Povo de Deus”.
Quanto aos sem-deuses daqui, e que estão mui valentes, escudados nos excessos do açoite de Alexandre de Morais e outros quase iguais semideuses, é bom lembrar que o chicote é o mesmo, o que muda é quem o maneja.
Aproveite bem o riso, ó algozes dos bolsonaristas, porque um dia a coisa poderá mudar.
E ela irá mudar, afinal a todo Prairial bem sucede um Termidor.
Intolerância gera intolerância, e o resto é história para enfadar.
Quando o chicote canta…, é um choro de danar!