Sem eliminar meus vícios.

No cimo de meus setenta e oito anos eu me contemplo com muitos vícios.

Eliminar vícios é coisa difícil. Quem quiser que os tenha!

Há o vício da bebida: não tenho!

Há o vício do cigarro: já o tive, por 15 anos, inclusive!

Há o vício da jogatina: Deus me livre tê-lo!

Nunca me animo a fazer uma fezinha, nem na loteria, seja quina ou sena, quando o prêmio acumula.

Há até mesmo o vício da pederastia, termo bastante utilizado, antigamente e hoje não tanto, para designar a homossexualidade enquanto perversão sexual.

Nunca o tive, como hábito ou vício!

Minha preferência é bem mais saudável, se posso assim dizê-lo sem inferir danos, mesmo porque sou o que se chama “animal doméstico”!

Em tempos hodiernos, acusar alguém de sodomita virou crime.

Hoje a sodomia virou tema simples de degustes, ou quem o sabe: “gustuum ad lamentandum”, outrora “gustus paenitentiae”, quando o gosto era grafado sem vício como “gustebus-us”, quarta declinação, salve engano, valendo o aforismo latino assaz famoso: “De gustibus, coloribus, et amores non disputantur”. Não se discutem gostos, cores e amores, ou…, quem bem quiser, que os tenha!

Todavia, hoje nem vale a pena referir, quanto mais lamentar.

Pelo menos, era assim. Hoje nem isso!, sob pena de nos impingirem uma corrigenda via lei; lex-leges, segunda declinação, “dura lex, sed lex”, no “cabelo só gumex”, brilhantina que eu usava, quando adolescente, para fixar os meus rebeldes cachos, em tempos idos e perdidos.

Tempos em que eu contraíra o único vício que tive, o tabagismo, se posso dizer assim, porque se fez único e resistente algum tempo no meu viver, consumidor que fui, por quinze anos seguidos da Souza Cruz, companhia de cigarros mais famosa, percorrendo todos os seus sabores do Continental ao Hollywood, tossindo com o Astória, o Gaivota, para mim o pior, tendo Columbia como o melhor, por mais caro, tragado por Dona Nani, cujo sarro resistia ao escarro, única mulher da minha meninice que dirigia sem esbarro o seu elegante automóvel pelas ruas tranquilas de Aracaju.

Dona Nani, lembro-a ainda, era uma mulher rija, autoritária, uma alma nobre que tomara para si a responsabilidade pela cobrança financeira dos associados do Same, entidade filantrópica surgida para minorar os sofrimentos da mendicância, num tempo em que a Diocese de Aracaju, tinha suas missas em Latim, com o Celebrante virado de Costas para os Fiéis, e uma vibrante atuação da Ação Católica, por seu Clero e Laicato.

A Missa na minha infância era rezada em Latim. Dizia-se: dialogada!

Lembro que eu, estudante do Educandário Brasília das Professoras Alaíde Oliveira e Helena Barreto, aprendera sonoramente a dialogá-la em Latim, porque o Padre assim dizia no inicio das Missas: “Introibo ao altare Dei” (Subirei ao altar de Deus).

Ao qual nós todos, crianças, velhos e adultos, homens e mulheres, sem distinção, acolitávamos: “Ad Deum qui laetificat juventutem meam.” (Ao Deus que alegra a minha juventude).

Se tenho algum vício persistente, e os tempos vigentes urgem eliminá-lo, é o de me embevecer ainda com essa prece notável; hoje esquecida sem ninguém mais recitar.

Que elegia! “Ao Deus que nos alegra a juventude”, afinal jovem, criança ou idoso, quem tem Deusconsigo; não envelhece!

Prece banida pela Igreja que o Papa Francisco, assaz festejado pelas esquerdas descabeçadas, resolveu demonizar e proibir todo o Rito Tridentino, aquele, que devia ser o da Missa de Sempre, justo o Salmo 42 ou 43 pela vulgata, gerando cisma “per orbem terrarum”, resistente em toda orbe da Terra, sobretudo na França.

E como esquecer o “Gloria in Excelsis Deo” ( Glória a Deus nas alturas) “Et in terra pax hominibus bonae voluntati ( E na terra aos homens de boa vontade) Laudamus te,  benedicimus te, Adoramus te, Glorificamus te, Gratias agimus tibi…”

E o que dizer do Credo Niceno-costantinopolitano, quando a Igreja reunida estabeleceu seu professar definitivo: Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, Factorem caeli et terrae, visibilium omnium et invisibilium. Et in unum Dominum Iesum Christum, Filium Dei unigenitum et ex Patre natum ante omnia saecula. (Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos)

 

Credo que era uma verdadeira profissão de fé, pois afirmava enquanto dogma fundamental “Deum de Deo, Lumen de Lumine, Deum verum de Deo vero, genitum, non factum,consubstantialem Patri” (Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai).

Sobretudo porque “o consubstancial ao Pai”, ensejou enormes contendas entre os Santos da Igreja, nas diversas heresias surgidas, vencidas muitas delas, a ferro e fogo, quando falhavam os argumentos, afinal o Diabo tem as suas mil facetas, seus enganos… E o homem que ao Demônio tudo cede.

 

Credo, enquanto dogma, que se aprofundava “Per quem omnia facta sunt; (“Por meio de quem todas as coisas foram feitas) qui propter nos homines et propter nostram salutem, descendit de caelis, et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine, et homo factus est, crucifixus etiam pro nobis sub Pontio Pilato, passus et sepultus est, et resurrexit tertia die secundum Scripturas, (Que por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus, e se encarnou pelo Espírito Santo da Virgem Maria, e se fez homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras).

E aí eu intercalo algo que existia na prece antiga, e minha memória falha, porque recitava-se ajoelhado numa descida aos infernos (“descendit ad inferos”) onde fizera ressurgir os mortos antigos, afinal  a ressurreição viera para os de ontem, os de hoje e os de sempre.

Inferno que depois foi suprimido, preferindo-se falar em “mansão dos motos”, afinal era complicado alocar Abraão, Isaac e Jacob, com Moisés, Samuel e David, et all, aguardando padecentes nos infernos, até a vinda e ressurreição de Jesus.

Todavia, após tal descida refeita aos infernos, ou à mansão dos motos,  Iesus ascendit in caelum, sedet ad dexteram Patris, et iterum venturus est cum gloria,iudicare vivos et mortuos;cuius regni non erit finis.(Jesus subiu aos céus, está sentado à direita do Pai e voltará em glória para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.)

 

Se a prece já falara do Pai e do Filho, agora falava do Espírito Santo: “Credo in  Spiritum Sanctum,Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit,qui cum Patre et Filios imul adoratur et conglorificatur,qui locutus est per profetas”.( Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, e que falou pelos profetas.)

 

Profissão de fé que era concluída, agora falando da Igreja Católica, por Única,  Santa e Verdadeira: “Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam. Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum. Et expecto resurrectionem mortuorum; Et vitam ventúri saeculi Amen”. (Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. Espero a ressurreição dos mortos; E a vida do mundo que há de vir. Amém.)

A prece em Latim, fiz questão de a explicitar, não com um saudosismo tolo. E que seja! Eu tenho os meus direitos!

Isto é: não tenho esse direito todo!

Dizem que é um vício que preciso eliminar, sobretudo agora que a Igreja reverencia sua Semana Santa, e teima em esquecer suas preces tradicionais em nome da modernidade que relativiza todas as crenças, inclusive a de não possuir nenhuma, por suprema intolerância, que a tudo aceita!

E nesse reboar niilista, a Missa Tridentina, tão bela e piedosa, tem resistido ao banimento ditado pelo Papa Francisco, sobretudo na França, cada vez mais descristianizada, com as igrejas se esvaziando, e dando lugar, não ao racionalismo ateu dos Revolucionários da Marselhesa e da Bastilha, mas a muito Minaretes de Mesquitas, erguidos ao sabor da modernidade, evidenciando um prenúncio de derrota, frente aos inúteis esforços de Charles Martel, aquele que barrou a invasão moura da Europa em Tours ou Poitiers, nos idos heroicos de 732.

Se o laicismo é tão belo em tolerância, por sua conta a cruz vem merecendo ser banida nos edifícios e repartições públicas, para que se possa erigir em equidade um crescente lunar, ou outro qualquer símbolo de crença, cada um cedendo o seu pensar ao de seu oponente e divergente, como símbolos maiores de uma rasa liberdade, uma falsa igualdade, e uma, sempre farsesca e demagógica, fraternidade!

E nesse meu vício persistente, eu continuo a lamentar enquanto católico praticante, ver tudo assim crescer, até no rito de minha Igreja, cedendo-se ao vulgo, até na prece, afinal não se recita mais o Glória nem o Credo, prefere-se cantar qualquer coisa no lugar.

Uma certeza de que, dia virá, e não está longe, em que tais preces não serão mais sabidas, de cor, nem pelos próprios celebrantes.

É o excesso de “aggiornamiento”, palavra muito louvada nos idos de um Papa Santo, João XXIII, quando abriu o Concilio Vaticano II.

Para concluir minhas reclamações, devo dizer que no Domingo de Ramos, deste 2026, fui mais uma vez à Capela do São Salvador.

Trata-se de um costume antigo meu, de longa data!

Ali fui desde os idos de criança, quando o Padre Luciano Duarte, sem imaginar que um dia seria um Arcebispo Notável da nossa Igreja, adotou aquela Capela como a de sua preferência.

No Domingo passado, encontrei alguns conhecidos, todos como eu, envelhecidos.

Outros ficaram apenas em minha memória.

Rezei por eles, pelo menos.

Esta é a missão também dos vivos: rezar pelos que resistem em nossa memória.

O próprio salmista canta expressamente, que ninguém louva a Deus na mansão dos mortos.

Quanto aos Ramos, eu os levei de casa, porque assim foi recomendado na matéria divulgada aqui na Infonet.

Foi-se o tempo, sinal dos tempos (e sua decadência), em que a Igrejinha se cobria de muitas palmas de palmeiras.

Por certo não existe mais um abnegado que abasteça previamente os ramos, ou então é por extinção de palmeiras, ou quem o sabe: alguém o proibiu, em preservação da natureza…

Para que danificar as palmeirinhas, não é mesmo?

Assim, se antes eu saia da Igrejinha com muitos ramos, até para oferecer tolamente a alguns familiares, eu levei e trouxe os dois raminhos, sem repartir, um meu e outro de Tereza, minha eterna companhia.

Como de costume, eu coloco os meus ramos já abençoados num Crucifixo que eu venero no meu viver, ali ficando todo ano, até que uma nova Semana Santa os renove.

O meu Cristo na Semana Santa de 2026

 

 

Partilho com os meus leitores uma fotografia do meu Cristo com os Ramos de 2026. Ele ficou lindo!

 

Desejo a meus leitores uma Feliz Páscoa e que Deus nos aumente a nossa fé.

 

Quanto a esses meus vícios, que Deus me permita tê-los por mais um tempo!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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