A República no Brasil foi proclamada numa quartelada.
O cronista que narrou a parada do desfile e ouvira o marca-passo ao toque austero do clarim, disse que o povo a tudo assistira ´bestificadamente`.
A palavra restou para sempre: ´bestificado!` De besta mesmo.
Alguém já disse por acréscimo que ´o povo é uma besta´.
Uma ´besta quadrada`, para todo o sempre, mal acrescenta outro, sem mesmo explicitar o que seria ´uma besta quadrada`.
O que seria uma besta quadrada?
Não interessa!
A frase soando bem para o que se pretende; gerar chacota e nada esclarecer, cumpriu sua missão!
Do que se sabe, a nossa República foi proclamada porque os militares viviam as turras com os ´casacas`, os políticos de então, usando fraque e gravata, pululando nos corredores da corte, em altos conchavos, cofiando as longas barbas do Imperador Pedro II, que cochilava e nada via, nem o chão que lhe sumia debaixo dos pés.
Já no contrapé, os militares vinham de uma guerra longínqua, lá pelos confins das coxilhas do Paraguai, os heróis sendo esquecidos no desfraldar áureo-anil do roto manto de esperança, enquanto os políticos separados entre Liberais e Conservadores, inspiravam-se em seu eterno desamor febril pelo Brasil, então imperial!
Pouco antes, um jovem poeta, Castro Alves, tinha morrido tuberculoso por consequências de um ferimento mal curado na sua Bahia distante, justo quando ecoavam inúteis ainda suas palavras mais doces: ´Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra / E as promessas divinas da esperança… / Tu que, da liberdade após a guerra, / Foste hasteado dos heróis na lança / Antes te houvessem roto na batalha, / Que servires a um povo de mortalha!…`
Antes, e talvez em outra via, o mesmo poeta imprecara e antecipara, quiçá não pensando tanto em mortalha, mas em outra rima por excesso de abandalha e de canalha, muita canalhice a ser vista no que viria a advir, e no por a vir, em vigarice: ´Existe um povo que a bandeira empresta / P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!… / E deixa-a transformar-se nessa festa / Em manto impuro de bacante fria!… / Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, / Que impudente na gávea tripudia? / Silêncio. Musa… chora, e chora tanto / Que o pavilhão se lave no teu pranto! …
Porque foi nessa basta insatisfação que a tropa foi à rua e baniu toda a família real.
Todavia, como a molecagem sempre graceja, há quem diga em próprio realejo, que a República sem solfejo foi urdida por rejeitos outros; coisa de amor ferido, afagos de uma mulher disputada por dois varões, a restarem para sempre rivais, algumas décadas depois; o alagoano e futuro Marechal, Deodoro da Fonseca, e o político gaúcho, Gaspar Silveira Martins, que faria muito sucesso como Senador do Império.
De Deodoro, os feitos militares eram muitos, sobretudo na Guerra do Paraguai, já Silveira Martins era verboso, dizia-se repetir Shakespeare e Molière, ambos vertidos do original, embevecendo os convescotes guapos das garotas das coxilhas.
Ocorre que Silveira Martins, bom cavalheiro e não muito bom cavaleiro, caiu da montaria, como a Terezinha de Jesus da canção, justo quando se exibia numa visita à propriedade rural da Baronesa do Triunfo, Maria Adelaide Andrade Neves Meireles, tendo fraturado uma perna, e sendo cuidado com muito desvelo e carinho, não ´por três cavaleiros`, mas por aquela que se dizia então, ser a eterna paixão de Deodoro.
Como quem tem seu coração o dá a quem quer, Maria Adelaide, sem nenhuma flor mais a deixar colher, abandonou sua viuvez, preferindo os braços de Silveira Martins, recusando os afagos do ´sargentão`, pejorativa aclamação como assim o gaúcho se referia ao rival que restara, para sempre, o rejeitado.
E é aí desse rejeito, que surge a molecagem.
Conta-se que por ´Fake News` de então, o então Senador Gaspar Silveira Martins iria ser nomeado Primeiro-Ministro do Imperador no lugar do Gabinete Ouro Preto, com a precípua missão de prender o revoltoso maior, Deodoro da Fonseca, aquele seu, dele, ´sargentão`, por antigo rival.
E assim ficou por dito ou não dito, que foi deste amor febril, quase senil, que se fez a República no Brasil, mesmo porque, tanto Silveira Martins quanto Deodoro, eram homens vencidos pelos anos, o nosso Proclamador, retirado à pulso do leito onde ardia de febre, com as sezões costumeiras que acometiam os nossos combatentes, por lembranças palustres dos Charcos Brasiguaios.
O feito e o desfeito virando fato, só para colocar defeito na nossa Proclamação de República, que sem sangue e sem luta, restou em mal pior, aplaudida pelo povo ´bestificadamente`!
E assim o bestificado me chegou ao texto, porque a República continua a revelar escândalos.
Agora, por exemplo, fala-se na renovação do Senado, essa esdruxula câmara em mandato longínquo, oito anos, renováveis a perder de vista e sempre insaciáveis, oras 1/3, oras 2/3, dos membros casacas como agora; só para nada funcionar e/ou mudar.
´Muda, Senado! `, gritavam estes quando assumiram, oito anos passados, e que agora, todos eles, querem renovar os seus mandatos.
Um desastre, o mandato que se extingue, em promessas do que virão, afinal o grande erro reside na República Federativa, canhestra reprodução da Federação Americana, concebida pelas treze colônias inglesas, que se rebelaram e confirmaram sua independência, cada uma tendo suas regras e suas leis, e que se uniram conservando cada uma sua identidade.
União que gradativamente se confirmou norteada na busca da liberdade, do direito maior de perquirir a felicidade, por mais que isso fosse ilusório e/ou utópico, sem querer ter um Rei, como George Washington, o grande líder que a coroa abominou quando lhe foi oferecida.
Não só recusou todo poder, como rejeitou inclusive um triplo mandato de Presidente da República, algo bem diferente do que aconteceu nas demais paragens de Américas, inclusive do Brasil, como agora Lula, I, II e III, e pleiteando um quarto mandato porque assim o povo ´bestificadamente` sempre o deseja, desde que a Lei bem consinta!
Mas, o que é uma Lei numa terra sem Leis?
Uma Lei não é uma simples convenção da qual juristas dirão seus limites de condenação e de ´des-condenação`palavra nova e mais que tudo poderosa! e que os dicionários léxicos resistem aceitar como existente e menos exitosa?
´Quiosque tandem, Catilina`, até quando, tantos vexaminosos e ominosos, e tantos outros vaselinas e sibilinos, irão nos azucrinar o pensamento!
E que adianta dizer que eu estou cheio de tanta corrupção denunciada!?
Quem seria o ladrão, se eu os vejo tantos, bem pronunciados e explicitados só por esperteza de véspera de eleição?
Eita Brasil que não muda!
Agora, para variar, o personagem do noticiário é um Vorcaro, nome inconsútil, quase impronunciável, por Vade Mecum de vero retro contamino do Ministro Toffoli e do Super Herói Alexandrino, ´tuti buona gente`, que condenou para aplauso da imprensa o único e verdadeiro inocente desse país, que só por isso apodrece detrás das grades, restando cada vez maior herói: Jair Messias Bolsonaro.
Ao dizer assim, já perdi metade do aplauso, afinal a outra metade sempre vaia.
E ainda falam que desta vez alguém, nunca e jamais, um desalmado bolsonarista e pior golpista, bem queria quebrar os dentes, justo de um jornalista!
Que pena que assim não fez e só intentou!
E depois convenientemente se matou!
Coisas do Brasil, e de gente que não se leva a sério.
Não dizem alguns que somos uma república bananeira?
Nem bandido a gente tem que pareça confiável!
Felizmente ninguém nos leva a sério!
Ninguém nunca nos jogará bombas como acontece no país dos aiatolás, graças a Deus!
Não seria uma perda de pólvora, de espoleta e de intenção?
A parte tudo isso, o Senado em fim de feira, quer impeachemar {[(nem eu sei como escrever!)]} alguns Ministros do Supremo, só para o “des-condenado” Lula poder nomear e refazer novos amigos!
Tudo no velho compadrio, desde que o Bolsonaro apodreça!
Quem manda não roubar, nem deixar roubar?
Não é preciso urgentemente cabotinar os bolsonaristas ressurgentes, por golpistas!
Não é assim que recita aquele çábio esquerdista, no seu ranço eterno de vendeta: “Uma vez reacionário, sempre reacionário, uma vez golpista, sempre golpista!”
Já os ladrões, estes podem existir, coexistir e bem se multiplicar, porque a Lei deles cuidará!
No mais, é dizer que o povo nunca se verá bem iludido por tantos demagogos em véspera de eleição.
Porque o povo brasileiro, enquanto plateia de comício ou assembleia, é sempre bestificado, embora nunca se veja tao sonso e inzoneiro, quando se mira no espelho!
Coisa de bestialidade apenas!
Para terminar, em “mutatis mutandidis”, contra tantos corifeus de Asmodeus por seus julgadores, citarei Jesus em Lucas 19:40: atribuindo o enfoque a Bolsonaro e sua inocência, perante uma corte que se desnuda cada vez mais impura: “Se vocês calarem o povo, até as pedras do caminho clamarão” a candura do Mito e sua integridade!
Será um grito arrazoado e sem bestialidade, ou mera e simples bestificação?
Fica como questão para uma metade e outra da nação sob a mesma enganação!
Intrigado e quase massacrado, e de tudo me sentindo refém, já em prévias de loucura ou idiotia, quis queixar-me as rosas.
Como, se nem rosas tenho? Eu que não tenho nem mais jardim?
Lembrei-me enfim de uma amiga de infância que nem sei se vive mais…
Dizia-me ela, em chacota de criança: ´Não é de sua conta, nem de seu rosário! Pegue seu focinho e bote no diário!`
E assim, com tanto roubo no noticiário, fui incomodar o meu pé de ´comigo-ninguém-pode`, e este me aconselhou: – ´Vá rezar! É muita capadoçagem!`
E aí me veio o conforto e a esperança do Salmista; “O Senhor não vai deixar prevalecer por muito tempo o domínio dos malvados sobre a sorte dos seus justos, para os justos não mancharem suas mãos na iniquidade”. Salmo 124/125 3
Derradeiramente porém ficou-me a dúvida cruel: até que ponto, seria o povo brasileiro uma ´besta quadrada`, imune inclusive aos desígnios de Deus?