Os Deuses da Globalização

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“Vivemos como se estivéssemos numa corrida. Ritmo intenso. Alta velocidade. Uma avalanche interminável de informações. Receitas rápidas. Pratos prontos. A cultura do “quick is beautiful”. Não há tempo para curtir o que só pode ser sentido sem pressa, sem stress…”

Oscar Motomura

 

As pessoas mais criativas do planeta passam todo o seu dia fazendo o que? A maioria delas certamente está usando todo o seu talento para injetar na sociedade de consumo novos produtos “high tech”. As novidades não faltam, os celulares diminuem de tamanho e multiplicam a sua funcionalidade, aparecem milhares de aparelhos com múltiplas funcionalidades que de um dia para outro passam a ser obsoletos como num piscar de olhos. As pessoas – os chamados consumidores – ficam alucinadas porque um aparelho “high tech” adquirido um mês atrás hoje já está obsoleto e o consumismo exacerbado vai para a estratosfera.

 

Onde iremos parar? Na verdade acredito que ninguém sabe. Vivemos no primeiro mundo no início de uma rua, atravessamos e na próxima esquina poderemos estar no terceiro mundo ou até mesmo no quarto ou numa situação de guerrilha urbana. Vemos num mundo de mercados emergentes. Em outras palavras vivemos num mundo muito pequeno no qual somos testemunhas oculares e em tempo de acidentes, catástrofes, guerras que estão acontecendo em qualquer lugar do globo.

 

Na realidade, segundo Naisbitt estamos vivendo em uma ZTI[1] , cujos sintomas são os seguintes:

*       Favorecemos soluções fáceis, da religião à alimentação;

*       Tememos e cultuamos a tecnologia;

*       Confundimos a diferença entre o real e o falsificado;

*       Aceitamos a violência como normal;

*       Gostamos da tecnologia como brinquedo;

*       Vivemos nossa vida distanciados e distraídos.

 

Sintoma 1: Favorecemos as soluções fáceis: Vive-se em todo o mundo um momento intenso de busca de um conforto religioso sem precedentes na história da humanidade. Em vez de conversas, da procura de um mentor que nos dê conselhos, estamos continuamente buscando soluções rápidas e fáceis de resolver sobre tudo o que a vida nos apresenta e sempre sem querermos pensar muito, uma vez que consideramos que não temos tempo para enfrentar e detalhar os problemas. Insistimos em conviver com reuniões nas quais os assuntos são discutidos tangencialmente para que ao final constatemos que precisamos nos reunir novamente porque a solução rápida e inteligente que encontramos não foi eficaz para o problema na forma que desejávamos. As propagandas das mais diferentes mídias sempre procuram vender soluções simples para problemas complexos.

 

Estamos abandonando nossos valores e esquecendo a nossa cultura e raízes numa velocidade espetacular. Tudo é copiado, pasteurizado e apresentado como simples e rotineiro.

 

Tomamos remédios para encobrir os sintomas das doenças e vivemos num mundo de faz de conta onde as pessoas substituem ou reformulam o seu corpo sem lembrar que primeiro precisam trabalhar o seu interior, pois pouco tempo depois da reforma percebem que tudo “despencou” de novo e que precisam de novos retoques. Assim sendo, por esquecerem de olhar para si mesmas cultuam artistas e ídolos criados pela mídia e procuram viver suas vidas como se fossem cópias desses indivíduos.

 

Sintoma 2: o medo e o culto à tecnologia. No campo da tecnologia o avanço da Humanidade foi fantástico. Viagens planetárias, explorações submarinas, comunicação instantânea. Armas poderosas. E, apenas apertando um botão somos capazes de destruir a metade do planeta.

 

Para onde estamos caminhando? Ninguém sabe. As nações ricas gastam bilhões de dólares em programas espaciais, em programas para desenvolver novas tecnologias de destruição e ao mesmo tempo metade do planeta Terra passa fome, destrói a natureza, queima matas… Para onde iremos? Ninguém sabe.

 

Uma questão para se pensar: A tecnologia irá salvar a humanidade ou poderá destruí-la?

 

Enquanto uns endeusam a tecnologia, outros especialmente os cientistas que desenvolvem pesquisas sobre potencial humano nos alertam dos danos que isso poderá acontecer. Os psicólogos educacionais como, por exemplo, a psicóloga Jane Hearly, advertem que o uso prolongado do computador é capaz de causar uma pandemia de DDS[2] e de depressão nas crianças.

 

O grande perigo na verdade está na deificação da tecnologia, o que significa que o homem procura satisfação na tecnologia e recebe ordens da tecnologia. Assim sendo, sempre iremos encontrar pessoas que acreditam que o progresso da humanidade está totalmente fundamentado no desenvolvimento tecnológico e que é nesse aspecto que está fundamentado o progresso da humanidade.

 

A tecnologia é de extrema importância para o homem moderno, todavia ele não pode nem deve ser escravo dessa tecnologia, essa é a grande verdade; na realidade o máximo esperado seria de que a tecnologia fosse escrava do homem.

 

Sintoma 3: Confundimos a diferença entre o real e o falsificado. Estamos vivendo isto. Muitas vezes em coisas mais simples e nos perguntamos isso é real ou criado? É autêntico ou simulado? É genuíno ou uma imitação?

 

E isso não acontece apenas com jogos, filmes ou brinquedos. Muitas vezes nos perguntamos em relação às pessoas com relação ao seu corpo, adereços e vestimentas. Para onde estamos caminhando?

 

Estamos na era dos efeitos especiais, dos “realities shows”, das guerras ao vivo. Estamos no mundo das muitas telas quando apenas com um toque no controle poderemos tanto mudar o programa como ir assistir ao vivo uma das muitas guerras que acontecem simultaneamente no planeta.

 

Ao mesmo tempo em que fica difícil distinguir o real do falso, o mundo dos negócios, cada vez mais se preocupa com a autenticidade. As idéias não são mais geradas nos escritórios através dos seus designers e sim através de pessoas que ficam nas ruas em contato com os mais diferentes grupos de pessoas para saber o que elas buscam, o que elas desejam ou o que elas sonham. Ou seja, o mundo da oferta mudou radicalmente, antes se oferecia às pessoas o que se acreditava que elas queriam hoje é necessário saber realmente o que elas desejam se quisermos obter sucesso com os produtos e serviços oferecidos.

Sintoma 4: Aceitamos a violência com naturalidade. Os filmes de ação, os seriados e os diversos produtos da mídia eletrônica banalizaram a violência a tal ponto que tudo virou rotina e normal. Assim sendo, os vários filmes que mostram a guerra como uma maneira honrosa de resolver os problemas entre nações fez com que a indústria de brinquedos gerasse muitos produtos que se tornaram sucesso de mercado e que ao mesmo tempo fizeram com que as crianças passassem a ver a guerra como uma diversão agradável.

 

Por outro lado, a vulgaridade como as notícias são mostradas ou como são feitas para chamar atenção dos mais diversos públicos das mais variadas mídias tornou quase uma rotina o desastre do dia, a guerra do dia, o holocausto do dia, a escola que virou um campo de batalha.

 

Sintoma 5: Gostamos da tecnologia como um brinquedo. O lazer ou o passa tempo, muitas vezes, está focado em fliperama, jogos eletrônicos ou filmes de guerra e ação, e assim ficamos passivos e parados totalmente dominados pelo grande brinquedo gerado pela tecnologia. Decidimos vidas, doações, quem ganha uma geladeira, quem ganha uma casa e etc. através de ligações telefônicas como se a vida devesse ficar à mercê exclusivamente da tecnologia. Grandes parques temáticos, simuladores de viagens espaciais, escaladas imaginárias tudo isso são modernos brinquedos eletrônicos que são muito mais dirigidos para os adultos – que não tiveram essas oportunidades na infância – do que para as crianças verdadeiramente.

 

As salas das casas que antigamente eram silenciosas e confortáveis agora mais parecem um estúdio de TV com telas, câmaras e equipamentos de som altamente sofisticados. Assim sendo confundimos tudo. Acreditamos que o lazer é uma forma de nos esquecermos dos problemas e assim sendo mergulhamos num aparato de ruídos altos sem procedentes como uma forma de não pensarmos, de não olharmos para dentro de nós mesmos na busca por resolver os problemas do dia a dia. Portanto, os momentos de lazer que deveriam permitir que os nossos sentimentos de busca e do significado da vida viessem à tona, fazem justamente que os atropelemos e depois nos surpreendamos por estar estressados ou deprimidos.

 

Portanto, o necessário silêncio que poderá alimentar a alma, gera sabedoria e muitas vezes nos permite fazer grandes descobertas é atropelado continuamente por elevados decibéis de auto-falantes que por sua vez tocam músicas frenéticas e eletrizantes. Assim percebemos muitas vezes tardiamente que quando não encontramos nosso momento silencioso, na maioria das vezes não conseguimos parar e pensar acerca da nossa vida, nossos objetivos e nossas escolhas. E, muitas vezes quando descobrirmos isso não temos tempo para recuperar o que perdemos.

 

Sintoma 6 – Vivemos nossas vidas distanciados e distraídos. A internet possibilitou uma comunicação numa velocidade em tempo real; todavia, ao mesmo tempo permitiu e favoreceu com que as pessoas se desligassem ou se afastassem dos contatos físicos, do olho no olho. Nas empresas as pessoas mandam e-mails de congratulações e aniversário para colegas que estão sentados ao seu lado, pessoas ficam sozinhas em suas casas e em seu quartos conversando horas com pessoas em salas de bate papo as quais não conhecem e muitas vezes jamais se encontrarão e por sua vez criam situações e personagens imaginários fantásticos.

 

A tecnologia afasta ou une? Parece que enquanto une pessoas de diferentes locais, separa famílias inteiras na sua individualidade quando jovens em seu quarto têm o seu mundo eletrônico particular e se isolam dos familiares e amigos mais próximos. Ou seja, muitas famílias hoje em dia vivem juntas e isoladas ao mesmo tempo.

Queiramos ou não a globalização é um caminho sem volta; todavia acredito que mais do que levantarmos as suas falhas, precisamos aumentar, divulgar e utilizar as suas vantagens que são infinitas e com certeza vêm trazendo muitos benefícios para as pessoas e para a humanidade.



[1] Zona tecnologicamente infectada – in High Tech, High Touch – John Naisbitt Ed. Cultrix, 1999

[2] DDS = desordem da atenção

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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