Os Garcia Moreno de Sergipe – Uma saga a perquirir III

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I. O Tempo do Padre Daltro

 

Como dissemos anteriormente, o nascimento de Pedro Garcia Moreno teria que acontecer sem qualquer explicitação e divulgação, porquanto ao seu pai, sacerdote e homem da Igreja, era proibida a paternidade por obrigação e voto de candidez celibatária, sob pena de excomunhão, inclusive, expulsão dos sagrados votos, em reprovação de caráter, tão público quanto condenação religiosa, até com promessas além de danações eternas. 

Tal paternidade não era um fato incomum. Dado à distância, o afastamento dos grandes centros, chegava a ser corriqueiro, a existência de padres assumindo família, para o menosprezo de alguns e a indiferente aceitação geral.

Alguns, a maioria, não via um procedimento a execrar. Possuir família ou tê-la a zelar era símbolo de virilidade e respeito. Uma preocupação para a Igreja, que combatia mediante recomendações breviárias de estudo, sacrifícios e mortificações de modo a conter os “abrasamentos” da carne.

Outros viam tais fraquezas como um motivo para anedotas, gracejos e ditos xistosos.

O tema era rotineiro, recorrente e facultava discussões. Havia inclusive na Arquidiocese de São Paulo um debate acalorado sobre o celibato sacerdotal.

Em outro ponto, de modo sutil e delicado, Julio Dantas colocava em debate a questão do múnus sacerdotal diante dos desafios instigantes do século XIX, em sua aplaudida peça, “A Ceia dos Cardeais”, encenada em Lisboa em 1902 e depois correndo mundo afora. O cenário presenciava em confissão mútua e absolvição recíproca, esta real problemática, vivida por três personagens, altos dignitários da Igreja, renovando promessas e convicções, diante dos votos prestados, das exigências mal-entendidas, e das falhas humanas bem consentidas.

A peça repetia a vida de tantos sacerdotes, constatando sua opção amorável a Cristo, as falhas reconhecidas, contrastando com a submissão ao silício da penitência para amoldar o próprio ser em carência do amor romântico acontecido e não esquecido, como se fora pecado mor, por maior falta.

Quando, diremos agora já bem distante daquela hora, embora não esteja ainda bastante fora de hora: maior erro seria o desamor, a indiferença perante a dor, como se fazia então e agora também, os homens se explorando uns aos outros, no servilismo abusado, na remuneração aviltada, no escravagismo de então, razão de ordem, segurança, obediência, tudo o que a Igreja e os poderes constituídos esclerosados do século XIX, bem pregavam e recomendavam, para que as almas em comiseração, privações e sofrimentos conseguissem a salvação.

Mas, em pensando assim, não estaríamos suscitando a velha racional heresia, afinal a salvação concedida nunca será um dom, mas uma conquista: contra tudo e contra todos!? 

Uma demanda que vararia o século de Daltro, e até agora em desafios continuados?

 

II. O Século do Padre Daltro.

 

Mas, se não podemos inserir parênteses na história, ou fechá-los, se impudentemente os abrirmos, não podemos afastar o mundo do homem ou o homem de seu mundo, da sua circunstância, só para rebuscar Ortega e Gasset, um homem que, vivendo entre 1853 e 1955, contemplou o despertar da racionalidade humana, e o desembestar da irracionalidade amanhecida, em prelúdio de destruição nuclear.

De maneira análoga, de João Batista de Carvalho Daltro, também não será possível discuti-lo, analisá-lo, compreendê-lo sem situá-lo no seu tempo, no seu entorno, enquanto ser refletindo e interagindo com a sua circunstância; suas crenças, imposições, obrigações, exigências e responsabilidade.

Vivendo entre 1828 e 1910, Daltro é um eminente varão do século XIX. Porque, segundo a escola de René Rémond, o século XIX só começa verdadeiramente a partir de 1815, com a derrota de Napoleão Bonaparte, vencido pela Santa Aliança, unidade conservadora das monarquias regressistas da Europa, que assumiu o comando do poder a partir do Congresso de Viena, século que se estendeu até 1914, com o primeiro conflito bélico, verdadeiramente mundial.

Assim não podemos separar este lagartense de Simão Dias, afastando-o das angústias e lutas desse século conflituoso.

É impossível imaginá-lo indiferente a um tempo onde mais se dera a luta entre progressistas e regressistas, debate caloroso diante da tríade revolucionária; liberdade, fraternidade e igualdade.

É difícil concebê-lo afastado da analise política vigente no mundo e na Igreja, debate entre correntes liberais, democráticas e socialistas, os conflitos com os impérios formados em colonização crescente, explorações e protetorados.

É pouco imaginável supor o seu desconhecimento dos textos divulgados louvando a “missão e fardo do homem branco”, as revoluções acontecidas, o despertar da classe obreira, a “primavera dos povos”, os conflitos Igreja-Estado, a entronização do poder civil, laico, democrático e até anticlerical.

Debates de seu século, tanto aqui como lá fora. Aqui, com a Questão Religiosa do Império Brasileiro, sendo condenados à prisão os bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, e fora daqui, com a Igreja sendo expurgada de seu poder temporal, perdendo Roma e o Patrimônio de São Pedro, com o Papa declarando-se prisioneiro no Vaticano.

 

III. A Formação Religiosa Tridentina.

 

E nesta discussão é preciso reforçar, amparado nas pesquisas de Péricles Andrade e seu notável “Sob o olhar dirigente do pastor: a Igreja Católica em Sergipe”, que o seminarista Daltro vivenciou a reforma empreendida pelo Arcebispo Dom Romualdo Antônio de Seixas, “Primeiro Brasileiro na Sé da Bahia”, nomeado por D. Pedro I em outubro de 1826 e depois confirmado pelo Papa Leão XII em maio de 1827.

Tal reforma em caráter Tridentino, reafirmava a necessidade da formação católica ditada pelo Concílio de Tridento, atual Trento, cidade do norte da Itália, que fora tão útil frente à Reforma Luterana e Calvinista no século XVI, e que agora, trezentos anos passados, precisava novamente ser reavivada diante das tergiversações do clero no contexto teológico e vivencial.

O momento estava a necessitar de um aprimoramento de modos, ritos e cultos, de modo a coibir a laica adoração de santos de devoção, particulares e familiares, distorcida pelos sincretismos, em devoções afastadas da eclesiologia e sua ortodoxia.

Por outro lado, era preciso também disciplinar o clero tão disperso quanto abandonado, restaurar o celibato clerical, recomendar o uso do hábito religioso, “expressão de segregação do mundo, de renúncia e abnegação, de vida dedicada completamente ao serviço de Deus”, exigir o uso da veste talar para o ministério do ofício, das missas e dos sacramentos.

Tais recomendações constatam a veracidade de notícias e boatos dando conta de “anedotas picantes, sarcasmos e malignidade sobre a ignorância dos Eclesiáticos,… maledicências e exageros tão conformes ao espírito do Século”.

Alguns padres, em conduta licenciosa e reprovável, generalizavam o erro, espalhando a descrença do seu múnus, num tempo, em que os presbíteros e prelados eram também servidores públicos do Estado, uma fonte contínua de crise por inversão de poder, uma vez que a Igreja Católica possuía caráter oficial de exclusiva cultuação no Império Brasileiro.

É este o estado das coisas encontrado por Dom Romualdo Seixas na Arquidiocese da Bahia, da qual pertencia também a Província recém criada de Sergipe D’El Rei, há sete anos apenas, em meio a muitas lutas e incompreensões, com a metade do povo querendo ser sergipano, e um tanto, quase igual, se odiando por não continuar baiano. Coisas da nossa sergipanidade, com sua política dividida entre os homens canavieiros da Cotinguiba e os pecuaristas do sul, do Vaza Barris ao Real.

E desta discussão Real, o menino Daltro, da juventude à velhice, também verá bastante, porque a questão de limites se alongou por todo o século, Sergipe perdendo sobremodo terreno, de Sento Sé a Juazeiro, de Paulo Afonso a Jeremoabo, todo o Raso da Catarina, o sertão que o Conselheiro faria mar, o cenário predileto de Lampião, restando tolhido e aguerrido entre o Real e o Velho Chico.

 

IV. O mundo em convulsão.

 

Também não podemos dissociar João Batista Daltro do seu mundo em convulsão. O século XIX, nascido da reação à Revolução Francesa e ao Império Napoleônico queria o retorno integral do “Ancien Régime”, o regime aristocrático dos franceses.

E isso logo demonstraria ser uma tolice inexeqüível. Os experimentos de liberdade, expurgados dos seus excessos sanguinários e vandálicos, mais contribuíram para a humanidade, que atuaram em seu desfavor. Mas, os que sentiram na própria pele e aqueles que viram, como Joseph De Maistre, o terror liberticida, tornaram-se os mais ferrenhos defensores da reação, da entronização do sacro e do cetro como imposição de ordem em caráter divino, ao qual não cabia repelir.

Os tempos, porem, eram outros. A sociedade não mais aceitava ser tolhida nos seus anseios de livre pensar e agir. Logo vingaria o liberalismo, as revoltas burguesas, aglutinando o povo como massa de manobra para o primado da liberdade censitária, dos que tinham posses, em terra e dinheiro, conquistando, país a país, tornando-os governos constitucionais, bicamerais, e em separação tripartite de poder, nos moldes prescritos por Montesquieu.

E o império brasileiro, desde 1824, fora uma destas poucas nações de constituição avançada em termos liberais, embora inscrevesse a desigualdade com a permissão do cativeiro e o servilismo negreiro.

Por outro lado, a Europa fervilharia em agitação burguesa, sucedida pelos levantes populares, a revolução de 1848, as barricadas temáticas de Victor Hugo em “Os Miseráveis”, a “primavera dos povos”, o manifesto socialista de Marx, conclamando a unidade dos explorados pela mais valia.

Movimentos que o jovem Daltro escutava em eco de notícias na Bahia, e que depois constataria in loco, afinal recém formado, motivado por moléstia viajou à Europa, tomando, quem o sabe, conhecimento da ação solidária e vigorosa de Lamenais, Lacordaire e Montalembert, sacerdotes pregando um catolicismo renovado e sensível aos humildes e desprovidos de tudo, ação que depois foi considerada herética e que seria combatida pela reação, porque de 1831 a 1878, dois Papas, Gregório XVI, a princípio, e principalmente Pio IX, destacaram-se, pela inimizade diante da modernidade, que chegara para derrubar o sacro poder temporal, pregando a tolerância religiosa, o livre pensar e a democracia.

Era um tempo de muitas lutas de um campo a outro, debates em torno dos quais o jovem sacerdote irá exercer o seu púlpito, e sua pregação, temas sem os quais não se poderá dizer muito do que foi o homem perante o cenário em que viveu.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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