Os Garcia Moreno de Sergipe – Uma saga a perquirir VI.

0

1. “Missão ao Riachão” do Padre Daltro.

 

O texto “Missão ao Riachão”, de autoria do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro, publicado no Jornal Correio Sergipense em 7 de janeiro de 1864, citado com destaque no verbete do referido sacerdote no Dicionário Biobliográfico Sergipano de Armindo Guaraná, como dito anteriormente, mo foi divulgado pelo Jornalista João Oliva Alves

 

Trata-se da transcrição de uma missiva endereçada pelo então Padre Daltro, àquele Jornal em 15 de dezembro de 1863. Neste tempo, Daltro era Vigário de Nossa Senhora do Amparo do Riachão, hoje Município de Riachão do Dantas, ministério assumido desde 1856, como primeiro Pároco daquela recém criada Freguezia.

 

2. Um pouco do Riachão, ainda dos Fontes.

 

Anteriormente, as terras onde se situaria a Freguezia à Virgem do Amparo do Riachão, hoje Riachão do Dantas, constituíam patrimônio do Engenho Riachão, pertencente a João Martins Fontes, que ali habitou desde 1836, tendo construído a Capela e desenvolvido um pequeno povoamento nascente.

Posteriormente, com a morte de João Martins Fontes, mediante escritura pública de 1853, seus familiares e sucessores, procederam a doação daquelas terras, da Igreja e seus arredores arruados, à Capela ali erguida, glebas às margens do riacho Limeira, pertencentes então à Vila do Lagarto.

 

A doação, um ato meritório de grandeza, desprendimento, providência e espírito comunitário, tinha por finalidade uma futura promoção canônica a Freguezia, passos inerentes ao desenvolvimento de administração, enquanto povoamento, Vila, Cidade, Município.

 

3. A Freguezia do Riachão.

 

A Freguezia do Riachão seria sancionada pelo Presidente Provincial Inácio Joaquim Barbosa em 27 de abril de 1855, pouco depois do seu polêmico decreto de transferência da Capital Sergipense de São Cristóvão para os palustres alagados dos mangues de Aracaju.

 

Consistente e consoante ao estatuto do Padroado, a Freguezia do Riachão seria depois sancionada em 20 de agosto de 1856, pelo Arcebispado da Bahia, região canônica a quem pertencia o território provincial de Sergipe, feito que nomeou o Padre Daltro de Carvalho como seu primeiro Vigário.

 

4.Em Tempos de Bigbrother há quem deseje ser Santo?

 

O texto “Missão ao Riachão”, do Padre João Batista de Carvalho Daltro, constitui uma profissão de fé de um Sacerdote Cura de sua pequena Freguezia do Riachão, realçando a importância das suas escolhas, enquanto homem e ministro do altar.

 

Aos nossos olhos, afastados quase um século e meio em descrença e miopia perante o transcendente e os milagres da fé, o texto parece reunir considerações tolas e ingênuas, dissonantes até mesmo à temática do catolicismo pós Vaticano II, em meio ao relativismo e ao cientificismo dos sempre apressados formadores de opinião.

 

Em tempos televisivos e “progressistas” de Bigbrother, quanto vale a pregação santificante de uma Santa Missão? Por acaso, os homens, em sua cidadania onanista de aridez helmínto-pretenciosa, querem ainda acreditar nos Santos ou desejam ser mais um Santo entre tantos Santos?

 

5. O texto de um simples Cura de Aldeia.

 

Talvez, até para repelir este regresso que se faz urtiga e rejeito ganga do progresso, seja útil ainda, rever o texto do Cura Daltro, testemunhando de pena e voz, como a força da fé pacificava os homens, semibárbaros de sua aldeia, seu povoado, e os reunia para a promoção da concórdia, do progresso material e do bem comum, mediante simples chamado de conversão à remissão dos erros e à busca de Deus.

 

Vamos ao texto:

 

Missão ao Riachão

 

A religião sempre imprime seu caráter nos maiores acontecimentos da vida humana, e tudo quanto há na sociedade de mais nobre e sublime a ela deve sua origem.

Não se pode dizer quanto o indiferentismo religioso tem lavrado e corroído a nossa sociedade; mas não é menos evidente que, quando a semente Evangélica é semeada a tempo e por mãos hábeis, o homem curva a cabeça altiva, o erro cede à verdade, e o sentimento religioso renasce e nos faz recordar os belos tempos da primitiva Igreja.

A MISSÃO, que acaba de praticar-se na freguezia do Riachão, a meu cargo, é um corolário destes princípios. Não se diga que estou fascinado pelo prisma de verdades fosfóricas, ou fanatismo; mercê ao Céu, distinção destas cousas, e os efeitos da MISSÃO DO RIACHÃO, que sucintamente passo a referir, foram testemunhados, por mais de 8 a 10 mil pessoas, que poderão contestar, se por ventura nos deslizarmos da verdade.

Há 4 para 5 anos, Sr. Redator, que desejo mimosear com uma MISSÃO a esta Freguezia, que me é tão cara; porém as secas freqüentes sempre obstaram este desideratum. É que a marca da previdência não é sempre seguida de venturas sucessivas; antes os sucessos mais estupendos foram preconizados com duras provações. Atualmente, o Riachão, pequeno como é, ofereceu um espetáculo de grandeza: não houve necessidade, que não fosse plenamente satisfeito; a abundância de víveres, d´água (cuja falta sempre se sentia) e sobretudo o ardor e ânsia geral, tudo bem significava ser ao agrado de DEUS esta MISSÃO.

No dia 20 de novembro próximo passado aqui chegaram os Missionários Fr. Paulo de Casas Novas e Fr. David de Perugia; grande concurso de homens e mulheres, assim a pé como a cavalo, saiu ao seu encontro; esses homens Apostólicos foram recebidos como Anjos de luz, que vinha anunciar a salvação e a paz; e, graças à Divina Providência, não desmentiram um só instante seu caráter e sua MISSÃO.

Na tarde do dia 26 foi instalada a MISSÃO o Revmo. Sr. Padre Mestre Frei Paulo encarregou-se de introduzir o grande concurso por meio de Catecismos. Era tocante, e edificativo ver a maneira com que esse Ancião respeitável expunha com clareza e precisão, elegância e singeleza, os altos princípios da religião! A moral e o Dogma, a História e a Disciplina, a Doutrina enfim da Igreja Católica era acessível à mais rude inteligência. Cada um colhia na grande seara Evangélica os frutos, digo, os corretivos e estímulos, do que precisava, ou para evitar o erro, ou para abraçar a verdade.

Cada um guardava em seu coração as imagens ou exemplos claros e frisantes, com que o Sr. Frei Paulo costumava selar a sua Doutrina, confirmando destarte a fé e a piedade de seu imenso auditório.

O Sr. Padre Mestre Frei David, homem consumado na arte de pregar, orador completo e bem penetrado das verdades, que ensina, levantou vôo a uma esfera mais sublime, e, considerando nesse ponto a ciência da Salvação, tratou magistralmente do princípio e fim do homem, da sublimidade d´alma, da Redenção, do Juízo Final, da Justiça e Misericórdia de Deus; ele conseguiu o duplo efeito, não só de instruir com sua lógica irresistível, como de abalar, mover e persuadir as turbas.

Não lhe pretendo formar elogios, que a sua modéstia repele; mas é justiça confessar, que só voz poderosa e enérgica tinha virtude de penetrar os corações mais obstinados, e sempre contava o tributo das lágrimas. Não me sinto habilitado para equilibrar a quem pertence maior glória, se ao Sr. Frei Paulo com sua sólida catequese, se ao Sr. Frei David com os seus profundos e tocantes sermões. Ao ouvi-los, os concubinados, ou deixavam a ocasião próxima, os recebiam-se em legítimo matrimônio; o ofendido perdoava a injúria, o ofensor pedia perdão; os inimigos davam-se as mãos; os pecadores enfim buscavam depor seus erros e ouvir a sentença de sua reconciliação com Deus.

Era tocante e magnífico ver o fervor e piedade dos primitivos séculos, neste século, e nestes dias de indiferença e corrupção! Era tocante e agradável ouvir-se de cada ângulo, e qualquer hora as homenagens e louvores ao Deus de Misericórdias! Sim, todos se ocupavam de um só pensamento, porque todos estavam possuídos de um só espírito, e dum só coração!…

Dizer-se que a MISSÃO do Riachão foi frutuosa, só porque (durante os intervalos) arrasou-se um monte, ao pé da Matriz, que na estação invernosa lhe transmitia grande umidade, e assim ficaram a Matriz e a Praça mais formosas, dizer-se que foi frutuosa só porque desentulhou-se uma rua, que estava intransitável pelas grandes escavações do inverno, e a cujo avultado serviço sempre se recusou a Câmara Municipal, dizer-se que foi proveitosa, só porque carregaram-se grandes tulhas de pedras, que serviram para o calçamento da mesma rua; ou porque promoveu-se o entulho de um barracão, que ameaçava iminente perigo ao pé d´outra rua e estrada pública; dizer-se enfim que o Riachão lucrou só porque as casas foram novamente reparadas, ativou-se o comércio, e desenvolveram-se as artes mecânicas: tudo isso é uma verdade de fato, que, está nos olhos de todos; mas tudo isso nada significa, porque o fim de uma MISSÃO é todo moral, e não material.

Sim a nova MISSÃO foi frutuosa e mereceu as bênçãos dos Céus, porque houve inúmeras reconciliações entre inimigos; pelo restabelecimento da paz de concórdia; pelo comparecimento desses e imensos pobres miseráveis escravos, que por sua indigência, e cativeiro, sempre estarão privados de ouvir a Divina Palavra, de firmar a sua fé e regular os seus costumes; foi frutuosa porque cinquenta e sete casamentos (além d´outros revalidados) todos de pessoas concubinadas, e tão miseráveis que, a não ser os indultos da MISSÃO, jamais poderiam pretender legitimar o seu matrimônio; por 971 pessoas que foram confirmadas pelo crisma, depois de previamente confessados (os adultos), fazendo cessar o abuso de alguns Delegados de Sua Excia. Revma., que não exigem semelhante disposição, indispensável aos que recebem os Sacramentos de vivos; foi sobremodo proveitosa, por mais de mil pessoas, que foram admitidas à participação do Sacrossanto Corpo e Cristo (exceto que não comungaram) e, entre elas, pecadores velhos, que há 10, 20, 30 e 40 anos não se confessavam!….Ou que nunca se confessaram!…

A nossa MISSÃO ainda foi frutuosa, pela conduta exemplar dos dignos Missionários, que, uma vida modéstia e frugal, eram acessíveis a toda sorte de pessoas, atentos e previdentes às suas necessidades, respeitáveis, sem serem temíveis, amados e idolatrados, como Pais ternos e compassivos.

Se, pois, a compulsão, e sinais externos, são muitas vezes a manifestação dos nossos sentimentos íntimos, a nossa MISSÃO obteve os melhores resultados. Só a Deus que conhece os corações, e a sinceridade da penitência, está reservado saber de interno, rogar, dar vida e incremento a sua palavra e continuar-nos a Graça da perseverança.

Mil graças pois aos dignos Missionários, esses homens ricos na sua pobreza, cheios de abnegação de si mesmo e das cousas mundanas; que recusaram qualquer presente por mais espontâneo que lhes fossem oferecidos, nem uma vela, nem um vintém.

Eles ficam ainda gravados em nossos corações pela generosa dedicação, e valioso auxílio, com que me animaram, e se prestaram a celebração da Festa da Imaculada Conceição; e ainda mais pela esmola de 190$000 réis que alcançaram dos fieis, para a compra de um Pálio e algumas alfaias, de que temos necessidade esta Igreja.

Sr. Redator, nunca escrevi uma linha para o prelo; porém à vista da satisfação geral d oito ou dez mil pessoas, segundo cálculo mais aproximado, que concorreram à MISSÃO, em que uma só não ficou desagradada, julguei conveniente fazer publicar estas linhas sobre os efeitos da nossa MISSÃO, que sendo realizadas em uma pobre Freguezia da província, podem servir de alguma utilidade à Religião e à Sociedade máxime nestes tempos de materialismo onde as MISSÕES são muitas vezes mal aparecidas; digne-se pois Vossa Senhoria de as mandar imprimir em seu jornal, que com muito o obrigará ao de

 

                    V. S. Atento Venerador,

                                                    e Criado

 

                    Riachão, 15 de dezembro de 1863.

 

                    O Vigário João Batista de Carvalho Daltro.

 

7. O porquê de Frei Paulo

 

Mostrando quão notável fora o trabalho da Igreja e dos Missionários Fr. Paulo de Casas Novas e Fr. David de Perugia, citados em “Missão ao Riachão”, é necessário dizer que sua pregação se estendeu por farta região do sertão da Bahia e de Sergipe.

 

Neste contexto, vale ressaltar como divagação necessária, o convite de José Alves Teixeira e Brás Vieira de Matos, proprietários de terras em Chã de Jenipapo, que ouvindo a pregação desses frades numa Santa Missão em Itabaiana, levaram-nos a conhecer o nascente povoamento naquele ermo das “matas de Itabaiana”.

 

Vem daí a origem e evolução do Município Frei Paulo de Sergipe, com os frades ali permanecendo, e erguendo uma capela em louvação a São Paulo, ajudados por Antônio Teixeira, Lourenço da Rocha Travassos e Tomaz de Aquino e Silva.

 

Assim fora o Povoamento Chã do Jenipapo, logo passando a ser conhecido como aldeia de São Paulo. Depois a Capelania é promovida a Freguezia por Decreto de 29 de abril de 1886, do presidente da Província de Sergipe, Manoel de Araújo Góes.

 

Posteriormente, já município, São Paulo de Sergipe, por causa da repetição de nomes, confusão com a Capital Paulista, teve o seu nome alterado para Frei Paulo. E o povo nativo de Chã do Jenipapo deixou de ter o gentílico debochado de “Paulistano Moleque” ou “Paulistano Calça Curta”, para oficialmente ser chamado Frei-Paulistano, uma bem merecida homenagem a Frei Paulo de Casas-Novas, um dos santos pregadores de “Missão ao Riachão”, eminentes civilizadores do então desertão sergipano.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários