“OS REGISTROS SONOROS DOS AMADORES TAMBÉM MUDARAM”

0

 OS MÚSICOS AMADORES TROCARAM O LUAU POR BARES E BOTECOS, TRAZEM EQUIPAMENTOS MODERNOS E UMA VONTADE MUITO GRANDE DE SEREM RECONHECIDOS COMO ARTISTAS QUE SÃO.

O título dessa semana é uma súplica de retorno à Boêmia do genial e saudoso Nelson Gonçalves, que ainda se explica:  “…voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria; me acompanha o meu violão…”; é assim que ele conta a história do boêmio que retornou ao seu habitat natural e abandonou a amada, que mesmo assim se dá por feliz em  saber que é a segunda paixão do mesmo.

A título de curiosidade é interessante descobrir que Boemia, Boêmia ou ainda, Boémia é uma palavra que deriva do francês “Bohème, o habitante da Boêmia e do topônimo latino medieval “Bohemus” do latim clássico “Boihaemum”, o país dos “Boii”, povo celta da Europa Central. A partir do século XV passa a significar também “cigano” ou “membro de tribos nômades originárias da Boêmia” e partindo desse princípio passou por inúmeras definições, sempre resultando em títulos como “vagabundo”, “de vida desregrada”, até que por volta do século XIX, no Rio de Janeiro, sintetiza-se o que imaginamos por Boêmia, todo um movimento artístico e literário, composto por jovens músicos, artistas plásticos, poetas, entre outros, que namoravam com a noite e flertavam com o que fosse oposto aos padrões impostos pela aristocracia carioca à época. Na novela parisiense escrita em 1840 por Honoré de Balzac: “Um Prince de La bohéme (Um príncipe da boêmia), ele a define magistralmente com essas palavras – “A palavra Boémia diz tudo. Ela não tem nada e vive tudo. A esperança é a sua religião, a fé em si mesma é o código, a caridade o seu orçamento. Todos esses jovens são maiores do que o seu infortúnio, abaixo da sorte, mas acima do destino.
Essa minha breve passagem pela história da Boemia foi uma forma de chegar a um fenômeno que é muito especial para o músico amador e um tanto saudosista para mim, mas que olhos e ouvidos menos atentos podem deixar passar despercebido. A volta dos músicos amadores ao ambiente dos barzinhos e botecos, algo que era natural em minha juventude e vi sumir aos poucos.
Longe daqueles tempos da “degradação” boêmia e de todo o estilo de vida imbuído aos que estavam de cabeça nela, venho falar dos amigos, do fim de tarde, dos finais de semana, do final de expediente,  amigos que entre um gole e outro de cerveja (ou não) estão unidos em só objetivo, a risada solta e a comunhão da boa música, ainda que nem tão bem tocada, pois o que vale é o simples ímpeto de usufruir do mais simples prazer de estar ali e compartilhar horas a fio de bons momentos.
Os grupos de amigos e seus instrumentos vêm surgindo aos poucos, de forma gratuita e totalmente descompromissada, enchendo os botecos da cidade e os transformando em pontos de encontro, onde acontecem verdadeiros saraus, o lugar onde todos são políticos, atletas, religiosos fervorosos e acima de tudo, músicos, produtores e empresários de bandas fictícias, mas que existem no coração de cada um.

(Os músicos amadores e parceiros de décadas em locais cativos, Valério Lafayete (ENG AGRÔNO9MO) e Álvaro Azevedo (PROF FÍSICA) conhecidos como Badaró e Nikimba em nosso grupo de amigos)

Os points deixam de ser um estabelecimento, e tornam-se entidades, maiores que o tempo e a própria vida, pois é lugar também de lembrar os que já não podem mais tocar por terem nos deixado, mas não deixam de ser queridos, é onde o tempo para por algumas horas e as pessoas presentes podem testemunhar o que considero a verdadeira razão de ser da música: A alegria, a partilha e o prazer de ser e estar vivo e ter companheiros nessa jornada com quem dividir tudo isso. O amador é talvez o profissional mais feliz, seu pagamento é a realização pessoal e de quem o rodeia; por isso quem tiver a oportunidade e quem o acompanhe, encha as praças, os bares e botecos de música, ainda que não esteja perfeitamente tocada, o que conta é o riso.
Vale ressaltar que esse movimento não interfere no âmbito profissional da música, bem como não deve haver permuta entre a conta e prazer de tocar.
Várias Gigs estão espalhadas por suas cidades, descubra a sua Gig e vá curtir.
Sugiro que deixem aqui registrado o local e estilo musical da sua galera, tem gente próxima querendo curtir com vocês.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais