OS SANTOS DA TERRA: Quando a prata da casa é ouro (*)

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“Eu tentei encontrá-Lo na Cruz Cristã, porém Ele não estava lá… Então eu fui ao tempo dos Hindus, às velhas sinagogas, porém eu não consegui encontrar nenhuma pista Dele por lá também… Eu escalei o topo da montanhas mais altas  e fui até os vales mais profundos, porém nem nas alturas nem nas profundezas eu O encontrei. Então eu fui à Caaba na Mecca, porém Ele também não estava lá. Eu então perguntei a professores e filósofos; mas Ele estava fora das suas compreensões. Finalmente, eu olhei para dentro do meu coração e… Era lá que Ele estava escondido e me permitiu enxergá-Lo. Ele esteve o tempo todo lá para ser encontrado…”

 

Anônimo

 

Esta semana tomei conhecimento, através da mídia local, que um grupo de empresas e instituições sergipanas haviam se juntado com a finalidade de ajudar os artistas da terra e também a Cultura do Estado. Não sou sergipano por nascimento, e sim por opção de vida e posso dizer que são poucas as cidades pelas quais eu escolheria morar se tivesse de sair da Aracaju.

 

Todavia, hoje em dia, face ao meu trabalho da FBC me confronto todo dia ou melhor dizendo todo ano com a questão que damos aos “Santos de Fora” em detrimento aos “Santos da Casa”. Todo ano recebemos “reprimendas” nas avaliações do Fórum Internacional de Processo Criativo porque às vezes utilizávamos música gravada no evento; este ano resolvemos suprimir isto, e lá vem nas avaliações as criticas porque usamos o pessoal da terra que já é muito visto nos eventos de Aracaju.

 

Essa é uma dicotomia sem precedentes. E comecei a pensar como havia sido a minha carreira quando há dez anos atrás comecei a trabalhar com processo criativo; foi ai que percebi que tal qual os demais “santos da terra” que também passei pelo mesmo processo.

 

Em 1998 um projeto que eu idealizei e coordenei durante quatro anos recebeu o Prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia-98 concedido pela ABRH/Nacional, São Paulo, além da apresentação oficial feita durante o CONHARH, no Palácio do Anhembi foram feitas várias apresentações em diversos Estados do Brasil por conta dos convites sucessivos que chegavam à empresa e eu ia cumprir os compromissos. Essa jornada de apresentações culminou com uma viagem aos USA para mostrar o nosso trabalho no Creative Problem Solving Institute – CPSI –, naquela época o maior evento do mundo sobre processo criativo, realizado pela Creative Education Foundation (Buffalo, NY, USA) e que reunião em torno de mil pessoas de 35 países do mundo.

 

Portanto, só depois que viagem para vários Estados do Brasil e para o Exterior foi que apresentei o projeto em Aracaju, a uma platéia reduzida e a maior parte por amigos meus… Coisas da vida, como eu diria… Percebo que apesar de tudo evoluir – via de regra – continuarmos a valorizar “o que vem de fora”, ou seja, um velho hábito brasileiro que sempre tem que ter um “convidado” especial em um evento, principalmente se for de fora do Estado ou de outro país, para o evento ser “prestigiado”. Quantas e quantas vezes as pessoas nos dizem vou “prestigiar” o seu evento com a minha presença… Esse é um hábito cultural de nós brasileiros desde o tempo do Brasil Império, quando tudo o que era bom e novidades vinham da Corte e depois se espalhava por todo o país.

 

Assim sendo, quando uma peça sergipana entra em cartaz é ínfima a participação dos sergipanos, se uma banda sergipana se apresenta, via de regra ela “aquece” shows das grandes bandas de fora e por ai vai. Há alguns anos atrás conversando com um grande consultor amigo ele me disse uma coisa que nunca esqueci: “Se nós mesmos não acendemos as nossas luzes internas, ninguém mesmo irá acreditar no que estamos fazendo.”

 

Acredito que está mais do que na hora de nos organizarmos e apoiarmos os “Santos da Terra” antes que eles batam asas e voem para longe. Muitas vezes, estrelas grandiosas estão ao nosso lado e não as percebemos, por esse motivo coloquei o texto “Enigma” logo no início desse artigo. Quantas e quantas vezes os melhore tesouros estão bem pertinho a nós e não os valorizamos, quantas e quantas vezes não percebemos que talentos grandiosos estão ao nosso lado e só acordamos quando eles literalmente “batem as asas”. São amigos, são colegas de trabalho, são relacionamentos, são simplesmente pessoas maravilhosas que a nossa “cegueira” cotidiana não nos permite enxergar.

 

Sábado passado tive a alegria de assistir a peça encenada pelos atores sergipanos Cícero Vieira e Iraci Evangelino. Acompanhei a construção desse espetáculo, os meses de trabalho, as dificuldades de espaço, etc. Ao vê-la encenada, um grande alento e a certeza de que outras empresas da terra poderão estar acordando e dando apoio aos “Santos da Terra” e esquecendo um pouco os universais. Quantos outros “cíceros e iracis” temos em nosso Estado?

 

Mas, voltando aos “Santos da Terra”, a peça “O cão siamês de Alzira Power” deixou à mostra dois grandes artistas sergipanos que sustentam com rara genialidade os noventa minutos do espetáculo. E como bem sabemos que teatro é cultura, realmente a peça trata justamente nos nossos modelos mentais e das nossas crenças e dos monstros que muitas vezes poderemos nos tornar quando optamos por nos isolar da família, dos amigos e da sociedade como um todo. Acredito que poderemos começar mudar as nossas atitudes e não só cobrar o patrocínio do Estado, do Município e das Empresas, mas principalmente do nosso atitudinal de não acreditar que a “prata da casa, muitas vezes é ouro”.

 

Que tal irmos ao Teatro Lourival Batista, às quintas, sextas e sábados, conferir a beleza do espetáculo? Com essa pequena atitude poderemos estar iniciando uma “corrente” de mudança de atitudes, de sairmos de casa, de ficarmos à frente da TV assistindo as maravilhosas novelas globais, que precisam ser vistas, apenas na primeira semana para conhecer a trama e na última quanto tudo se desvenda….Enquanto isso nas outras semanas participar de concertos, de espetáculos culturais que “pipocam” toda noite… Discussão de filmes, pequenos workshops culturais, oficinas de teatro, etc e etc… É só procurar que vamos encontrar. Então vamos nos movimentar?

 

* Fernando Viana é diretor presidente da Fundação Brasil Criativo
presidente@fbcriativo.org.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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