Ouvir é o mesmo que escutar?

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“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

Rubem Alves, Professor, Teólogo, Psicanalista,  Doutor em Filosofia,

Os termos ouvir e escutar não deveriam ser sinônimos, pois mesmo parecendo significar a mesma coisa é fácil perceber que são bem diferentes, ou seja, ouvir, a gente ouve, o gato ouve, a vaca, também ouve. Ou seja, todos os animais, assim como o homem, ouvem.

Até sem querer, nós ouvimos. Ouvimos o barulho do carro que passa, do grilo que canta, do avião que voa, do rádio que toca, da criança que chora e do velho que rir; dizem que ouvimos até o som do silêncio.
Para ouvir, basta apenas um ouvido receptor e um som emitido.

No simples ouvir, nem sempre há a comunicação completa e, assim sendo, não haverá também o entendimento da mensagem. É fácil notarmos isso no nosso dia a dia. Imagine quantos sons você ouve ao passar por uma rua movimentada, num restaurante lotado, nos corredores de um Shopping, num local de recreio de crianças, ou num show musical… São tantos os sons que um acaba por anular o outro numa competição sem fim. De todo aquele alarido, pouco, ou quase nada, fica de importante, tudo, como se diz: entra por um ouvido e sai pelo outro.

Nas nossas casas, sobretudo nos diálogos, – ou seria melhor chamarmos de monólogos a dois? – Com os nossos, para não irmos muito além, o que acontece nesse processo, na maioria das vezes, é apenas a sensação de que algo, de certa forma, afetou um dos nossos sentidos, no caso, a audição e passou, foi embora, sem alterar nada em nós, e muito menos no nosso comportamento.

Ordinariamente é assim, na maioria dos lares, que acontece com aquilo que deveriam ser agradáveis diálogos entre esposo e esposa, pais e filhos e em meio aos irmãos… Lamentavelmente, ressalvadas aí aquelas valiosas exceções, o que de fato ocorrem são intermináveis monólogos ou arengas.

De fato, ao que parece, houve inteligência do Criador que, ao colocar os ouvidos do ser humano no mesmo nível, permitiu que aquilo que não interessasse entrasse por um ouvido e saísse pelo outro, sem, contudo, nada deixar ou levar.

Já perceberam uma discussão?  Um fica selecionando o que o outro diz para que, então, possa fazer a sua contra-argumentação, dar a sua resposta ou preparar o seu contra-ataque, o restante do blá blá blá, ele sequer escuta, ou seja, apenas ouve, pois ouvir é compulsório. Porém, escutar é outra coisa. Quem escuta retém, pois interessa, e quem houve, como já vimos deixa passar, posto que banal, não interessa.

Escutar, pelo que percebemos é bem diferente do ouvir. Ouvir, ao que parece se resume na simples sensação provocada pelo som no aparelho auditivo. Já o escutar cala mais fundo. Ou seja, se ouve com o ouvido e se escuta com o coração.
Na verdade, fica fácil perceber que a verdadeira comunicação só acontece quando passando pela razão, (cérebro), repousa na emoção, (coração). Somente neste momento haverá a concórdia (a palavra “cordis”, vem do latim e quer dizer coração).

Porém, para que isso aconteça deverá haver esta conformidade de aceitação entre aquele que diz e daquele que escuta. De nada adianta falar, falar, falar, quando não existe entre o emissor e o receptor uma sintonia de ideias e propósitos.

Talvez aí more a grande dificuldade do diálogo. É, precisamente quando um diz o que o outro não quer escutar. É fácil perceber isso nos reiterados e repetidos “sermões”, aplicados pelos pais aos filhos. Infelizmente, eles, os pais, não percebem a indisposição estampada no rosto do filho na hora da aplicação daquela “arenga”. Às vezes, mesmo percebendo, repetem, repetem, repetem e, lógico, nunca atingem o objetivo desejado, pois não há a comunicação, a mensagem não é recebida, não há a concórdia.

Inteligente seria procurar uma forma de tornar toda aquela preleção em algo agradável, sobretudo, naquilo que, de certa forma, agradasse ao filho, para que houvesse o diálogo, a aceitação e acontecesse a comunicação e, por consequência, o resultado esperado.

PENSE NISSO

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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