Papai Noel X Jesus Cristo?

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Eis uma disputa, nunca desejada, muito menos consentida.

Nem por Jesus, o Cristo, o filho de Deus feito homem, por absoluta decisão do humano, por consentimento de Maria, aquela que suavizou o próprio Deus, no amor e no sofrimento, pela dor e sentimento de própria fraqueza e imperfeição.

Nem Papai Noel, o bom velhinho, de risada terna e expressão de carinho.  Papai Noel que foi Santa Klauss o bispo nórdico, perdido nas latitudes glaciais, que agradava as crianças com presentes, enternecendo-as no frio inverno, com a lembrança do presépio, e o nascimento de um menino, “sol do mundo”, como o astro Sol, ressurgindo em esperanças de solstício.

Sim solstício, o dia menor em que o Sol descamba no seu ciclo, brilhando sempre menos, cada vez mais distante e menor, parecendo sumir no horizonte. Tempo em que a Terra parece restar abandonada, em inexorável mergulho de treva e escuridão.

Solstício que é promessa de renovação, de ressurgimento da vida, em sucessão de circuitos novos da natureza que, se fazendo criação, em promessas de messes, por plantios e colheitas, faz o solo se entreabrir como fêmea dadivosa, a requerer a necessária fecundação.

E assim eis o Natal, uma festa de culto à natureza por renovação do Sol, dos elementos da terra para reproduzir a vida. Uma festa pagã por origem, comemoração terna, em louvor à vida que prossegue, imortalmente, porque reproduzida em sementes e novos frutos. Festejo de imortalidade do homem também, na sequência de sua descendência, de seu alongamento em sucessão e perpetuidade.

Daí o Natal como festa da vida, da tolerância, da amizade, da aceitação do outro, em suas diferenças, medos e angústias. Uma coisa terrível, aceitar aquilo que não nos agrada, mas saber também que até aí está a necessidade do conviver, como frutos da terra e da luz, para dizer, sobretudo, e também, que é sempre possível ser feliz. Ou ser feliz até por isso!

E neste sentido a festa do Natal nos convida a assumir esse sentimento humano, quando um menino nos nasce para o nosso riso, a nossa alegria. Que só por isso bastaria, não fosse uma promessa utópica, por acalanto da manjedoura.

Nasceu-nos um menino! Ele nos acena em cantos de glória da criação. Um convite à boa vontade. E nesta pregação de Boa Vontade, o bom Noel, velhinho, cheio de riso e carinho, não terce espadas com o menino na manjedoura recebendo os louvores de pastores e as homenagens dos Magos reis a presentear-lhe em agrado.

Neste sentido não há porquê de ensejar maldição de um, e materialização do outro, como se ambos ensejassem a alienação, o misticismo, o ateísmo empedernido que enquadra Deus como um sonho, um mito, uma quimera, ou então, por pior, os que por veneração megera, pregam sua onisciência plena enquanto ser vingativo e castigador.

Neste particular, eu gosto de Papai Noel. Já o Jesus Cristo dissertado por alguns não me parece o cordeiro remidor na cruz pregado, mesmo que se me falem de promessas de salvação como um esforço ilimitado para as minhas imperfeições. E aí eu me insurjo, porque não O creio bem assim.

Jesus era terno, desde o presépio, amparando os pecadores, aqueles derrotados pelo vício do gozo, do prazer e do conceder, em remissão do próprio ser. Ou seja, aqueles que se coisificam, que se vendem, se alugam, se concedem em parca remuneração. Os de pouca coragem como eu próprio, que resisto pouco, e cedo logo sem ousar maior cansaço.

Cristo sofreu na cruz, como se fora crucificado único entre tantos crucificados. Crucificado, sem causa, dirão!

E o que diremos dos que foram e serão pendidos por uma causa justa, ou injusta, ou mais do que justa? Justiçados sofrerão menos quando Mártires ou Heróis?!

Cristo é Deus, dirão, só fez o bem, desde vinho a partir de água de lavagem, água de ablução, de um sabor tão notável que nenhuma enologia resgatou-lhe o segredo da composição.

E olhe que neste enredo, Jesus não quisera punir, pelo contrário, divertir, ensejar a comemoração da existência, com a vida se renovando no amor a dois de um casal em promessas de carinho. E ali Jesus virou vinhateiro, fermentando sem glicose nem levedura, muito menos envelhecimento e maturação, só de água de lavação, sem demandar tempo para filtragem e decantação. Num tempo que não existia detergente ou sabão, nem Q-suco, aquele pó mágico de fazer refresco na minha infância? Nem fora inventada a Coca-Cola, a beberagem mais requerida no mundo inteiro, por conjugar uma escura repugnância, com a melhor substância de satisfação gustativa em arroto quase divino?

Que dizer de Papai Noel, o bom velhinho lapão, que tudo fez por ser um servidor de Cristo, um Cristão? E o que dizer das bocas saciadas no Natal cristão? Natal de consumo, de cores e luzes, de empregos e serviços renovados, geração de riqueza, multiplicação de bens e distribuição de méis e réis?

Natal sem palavras cruéis, em pregação de danação e de castigos infernais. Aquele inferno só próprio, por fogo interno de seu imo coração?

Ah, meu tempo de Papai Noel, quando eu menino colocava o sapatinho, para que meu pai e minha mãe me dessem em beijos de carinho o presente tosco de seu mimo, como se fora um paraíso terreno!

“Ah, não! Que veneno! É preciso matar o Natal de riso e luz, e com ele o diabólico Papai Noel”, dizem alguns em revolta insana ou pejos de santidade. Alegam que só assim vai-se ao céu. Parecem reviver Torquemada, o monge cruel inquisidor de trevas eras, assando o herético de seu desagrado, agora querendo lançar minha mãezinha na fogueira, porque me criou assim, venerando Papai Noel e me inspirando a sê-lo assim.

Logo minha mãe, uma Maria também, que nunca pariu Deus, mas tinha um olhar tão azul e terno, uma Maria entre muitas, mas bem mais querida por mim, por ser minha mãe somente, e não minha exclusiva! Uma Maria que me deu amor e pôs o melhor do seu Deus em minha vida! E também Papai Noel, o bom velhinho sorriso!?

É quando eu me volto para o céu, rejeitando-o. Por que querer um céu assim, tão mal descrito em lonjuras e esconjuras, se tenho a perder tanto? Para quê um céu intolerante, se melhor é o nada, onde reina a calma, o silêncio que tudo acaricia e pacifica, em ternura de ausência total?

Ah, o nada! Como o nada é atraente e necessário! Mais que o céu, inclusive! Porque o nada não promete nem exige! É pleno, é lúcido, e preenche todas as reentrâncias vazias.

Do não esvaziado Papai Noel, dir-se-á que todos o temos em apreciação por idade. Há um tempo de acreditar, e outro de não crer na vinda do bom velhinho. Depois há um tempo de ser Papai Noel; uma delícia! Depois vem o tempo em que nos parecemos com Papai Noel; um perigo! Porque nem sempre somos assim tão bons velhinhos!

Que neste Natal, Deus me dê esta sensibilidade de não querer nada, nem desejar tanto.

Que o amor do Bom Velhinho seja pleno na humanidade, para satisfação própria, egoística e epicuramente também. 

Por que não, com todo gozo, todo orgasmo, toda bênção que a vida nos dá por dom especial de Deus, para curtir e sonhar, sem condoimentos de bem cevados pernis e deliciosos perus condimentados?

Por que destemperar a festa, banindo-lhe o riso e o sabor, dissociando-os do presépio de Jesus Menino e de Papai Noel, o bom velhinho que é sonho de todo menino, como se fora um mal a ferretear em pior pecado a coibir, se neste ato, comete-se o desacato de demonizar o vero espírito natalino, por entendê-lo só compatível aos eunucos, mal amados ou anoréxicos anacoretas?

Quem desejar um Natal assim careta, inclua-me fora de sua farsa burleta. Deixem Jesus, Papai Noel, e até a minha ceia familiar de Natal em paz!

É preciso que seja dito: nasceu-nos um Menino! É a vida se renovando em risos e esperanças. Daí Papai Noel, por extensão e convite, em afago de ternura, e sorriso de boa vontade.

Que não se coloque Jesus em duelo com Papai Noel; jamais!

Jesus é o Emanuel, o Deus conosco. Papai Noel é apenas uma figura humana, e por isso não é nada, mesmo entoando bem-vindos de glórias, em hosanas nas alturas. Ele é apenas a nossa limitada e imperfeita resposta, enquanto humanidade de boa vontade. O resto é louvação à vida! Feliz Natal a todos!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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