Para onde foi o coronavírus?

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Nos últimos meses, dedicamos uma atenção especial aos assuntos relacionados à Pandemia, afinal, estamos vivendo um momento histórico, que fez, literalmente, o mundo inteiro parar. Com o número elevado de mortes em diversos países, antes do pico de mortes e contágio chegar ao Brasil, parecia que a população daqui estava vivendo um momento de histeria coletiva em dois pólos muito distintos. O primeiro deles, o do medo. Medo da morte, das sequelas, das incertezas, de ficar trancado, de perder emprego, de fechar empresas etc. O outro é o da descrença. O grupo que não acredita na doença, e que acha que não passa de um exagero da mídia para vender ou para destituir o atual presidente.

Atualmente, permanecemos habitando os dois pólos, porém com algumas nuances que só o povo brasileiro consegue realizar em meio a um problema sério de saúde pública. Dentro do grupo do medo, há os subgrupos dos que acham que estão imunes, afinal, depois de 7 meses, se não pegaram ou não perderam parentes e amigos, está tudo bem, podem afrouxar o isolamento, mas claro, sem postar nas redes, pra não pegar mal entre seus seguidores. Há também o subgrupo dos que já pegaram, não morreram, não tiveram graves sequelas, então, tudo bem também, vão aglomerar. Há, ainda, o grupo dos que justificam as furadas do isolamento social como uma questão de cuidar da saúde mental, mesmo sem procurar os profissionais adequados e que lidam diretamente com o assunto, afinal, o brasileiro acha que sabe de tudo um pouco. O grupo dos que não acreditam, permanecem desde sempre convictos e assumem suas convicções nas redes e na vida. Concordando ou não, de contraditórios, não podemos chamá-los.

O que esses grupos têm em comum: a morte. O medo e aceitação dela, ou a negação que ela exista. Sim, a nossa cultura ocidental lida com a morte como se ela não fosse um fenômeno natural ao qual todos os seres que habitam esta Terra estarão, algum momento, submetidos. Como disse Phillipe Ariès (1990), sociólogo francês, “não é, pois, no momento da morte nem na proximidade da morte que se torna preciso pensar nela. É durante toda a vida”. O fenômeno da morte, apesar de ser um processo natural da vida humana, é por vezes tratado como um espetáculo pela sociedade e meios de comunicação, especialmente quando este fato é resultado de uma ação criminosa, sobretudo que envolva perversidade ou violência. Chama muito mais a atenção, uma morte brutal, do que mais de cento e cinquenta mil pessoas mortas em 7 meses por causa de um vírus.  O sensacionalismo não admite moderação, é preciso chocar, causar impacto, fazer com que a audiência se entregue às emoções e viva com os personagens. Quando enfocamos num crime brutal, banalizamos as mortes em massa, e transformamos as vidas em números, tornando as mortes pelo vírus, algo comum, esperado, afinal, todos vamos morrer.

Mas é aí onde chegamos na controvérsia, visto que, se a morte é algo comum, por que não nos preocupamos com a vida, já que sabemos que podemos deixar esse mundo a qualquer momento? De acordo com Louis-Vincent Thomas (1980), em sua obra Antropologia da morte, “a morte é a certeza suprema da Biologia”, além de inspirar quase todas as reflexões humanas, não podendo a sociedade deixar de esquecer deste fenômeno nem dos mortos. O que se questiona, por fim, é, como viramos as costas para todas essas mortes, as inúmeras internações, e não conseguimos ainda compreender a grande reflexão e construção de uma consciência humana coletiva para de fato, superar o contágio com responsabilidade consigo mesmo e com o outro? Será que essas pessoas que colocam os seus desejos de uma “normalidade” que já não existe, podem ser consideradas egoístas, ou será que é falta de amor próprio? Afinal, estamos no ápice da discussão sobre o autocuidado, não seria uma forma de cuidar de si, colocando- se em segurança?

Retomo e reitero que, mais do que nunca, o senso de coletividade tem apontado como único caminho para viver em sociedade. Segundo alguns psicanalistas, o Eu é uma extensão do Outro, e é a partir desse cuidado individual, que asseguramos um bem estar coletivo, de certa maneira. Deixo essa reflexão, e sigo apelando para que, quem puder, fique em casa, saia somente para o necessário, e se sair, tenha responsabilidade, e não coloque a sua vida, ou a de outras pessoas em risco por conta de momentos que podem ser realizados futuramente e de maneira mais segura. Afinal, o vírus ainda está por aqui.

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