Passarinho

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Acordou-se naquela manhã assustada pelo sonho da noite passada que mal se dissipara e ainda pairava dentro do quarto, batendo levemente suas asas suaves. Sonhou com o dia em que um passarinho doentinho aparecera na varanda da casa de sua infância. Ela quem viu primeiro e, cheia de dó, correu para chamar a mãe – porque, afinal, só uma mãe tem o poder de curar certas coisas, como os pássaros, por exemplo. Ficou por perto, observando tudo o que a mãe fazia, ajudando a dar comida e água. Depois ficou em vigília ao lado da caixa de sapatos forrada de trapos.

Em três dias, o passarinho já dava passinhos pela varanda e ameaçava voos baixos. A menina inquietou-se: ele poderia ir embora! Também essas coisas, só mãe conserta. Teve uma longa conversa com a filha para explicar-lhe que o lugar do pássaro era voando no céu e não preso dentro de uma gaiola. Amá-lo, minha filha, é deixar que ele voe.

Naquele dia, acordou com essa frase ainda orvalhada nos ouvidos. Amar é deixar que ele voe. O coração sobressaltou-se no susto de rever a verdade. Saltou da cama e foi arrumar-se. Era domingo e não havia compromissos urgentes, senão resolver-se com aquele sonho que se intrometera de repente na manhã ensolarada. Foi para a rua em busca de ar. Estava inquieta havia dias, por isso não conseguia ficar em casa por muito tempo. Para pensar, era preciso andar.

Os pombos da praça a fizeram lembrar de uma tarde já longínqua, em que passeava espantando os pombos do centro da cidade adormecido no domingo. Comprou pipoca e foi para a praça alimentar os pássaros. Ficou longos minutos absorta jogando pipocas aos pombos e recordando sentimentos antigos e doloridos. Não reparou a hora em que aquela velha figura estranha sentara-se ao seu lado. A mulher enrugadíssima puxou um pedaço velho de pão de dentro de uma sacola de plástico e disse, como se não esperasse ser ouvida:

– Não gosto dos pombos. Eles sabem voar alto, mas preferem comer as migalhas sujas do chão – e então pôs-se a jogar pedacinhos de pão para os pássaros.

Ela ficou intrigada e um pouco assustada com tudo aquilo:

– Então porque está alimentando-os? – questionou intrigada.

– Porque tenho pena dos pobrezinhos…

As duas silenciaram a conversa. Não havia mais o que ser dito. Ela ficou absorta por alguns instantes olhando a velha alimentar os pombos, enquanto tentava escutar direito aquela conversa. Ouvir de dentro pra fora. De repente, assustou-se com um vento assobiando em seus ouvidos e levantou de um salto. Voltou a caminhar a esmo, esperando que as coisas se resolvem-se por si mesmas.

Mas quando, num dia, as coisas começam assim tão estranhas, elas só tendem a piorar, até que se toque o impossível ou se aceite de uma vez por toda o inexorável. E no meio de sua caminhada, numa rua adormecida, encontrou um menino com uma gaiola na mão. Parou para olhar o belo pássaro preto preso.

– Ele está triste, ela observou, dirigindo-se ao menino.

– Eu sei, por isso estou vendendo ele!

Ela ficou em silêncio olhando para o menino com cara de quem não entendeu:

– É que eu estou vendendo pra alguém que vá soltar ele – explicou-se.

– Mas quem é que vai pagar pra ter um pássaro só pra soltar?

– Não sei, por isso que eu não vendi ainda!

E assim ia ela, avançando por dentro das mentiras que tecem nossas vidas.

– Por quanto você me vende? – perguntou ao menino, ainda sem acreditar que compraria aquele pássaro.

– Por quanto você quiser pagar, ué?! O pássaro não é seu? Então, você é que sabe quanto vale –  respondeu-lhe rindo.

Pagou pelo pássaro e tirou-o da gaiola com as duas mãos. Ficou segurando-o na concha das mãos fechadas. Sentia o coraçãozinho batendo leve, e arrepiava-se toda de ter a vida guardada bem junto a si. Queria guardar aquele bater de coração para sempre em si, mas não sabia como fazer isso. O menino olhava-a esperando.

– Já pode soltar agora – disse, impaciente.

– Não! Ele agora é meu, eu decido quando soltar!

– Mas se você prender ele aí, ele vai morrer! – assustou-se o menino – Se não o quer, me devolva que eu lhe dou seu dinheiro!

– Eu o quero sim! Mas só vou soltar quando eu quiser, que ele agora é meu, exasperou-se.

– Não! Se você o quer é para soltar, porque passarinho é coisa feita pra céu e não pra prisão.

Estava já quase chorando, assustada, sem querer entender toda aquela história de passarinhos. Abriu as mãos devagar e encarou um olhar assustado de pássaro preso. Ele ainda ficou uns segundos pousado em suas mãos, assegurando-se de que realmente poderia partir, só então levantou voo e se perdeu no azul do céu.

O menino sorriu para ela satisfeito:

– Acabou de fazer um ótimo negócio!, e correu rindo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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