“Passeatomania”

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Do meu conhecimento, o termo “Passeatomania” só aparece no livro de Zuenir Ventura, “1968, O ANO QUE NÃO TERMINOU”, página 254, 4ª edição, 1988, da Nova Fronteira.

Ali o neologismo é grafado em itálico, fazendo parte de uma declaração do líder estudantil Vladimir Palmeira, dada em setembro de 1969, quando da sua libertação do cativeiro iniciado em 13 de outubro de 1968, como desfecho do malogrado XXX Congresso da UNE, em Ibiúna – São Paulo.

Vladimir era então uma liderança de 1ª grandeza, talvez a maior, das grandes manifestações populares de 1968, e ao sair da prisão por exigência dos sequestradores do embaixador americano, acontecida como feito desafiador ao regime militar, já sentia o imperativo de fazer um balanço do movimento, pregando ‘a necessidade de recuo, já que “os ascensos e descensos” são inevitáveis na história dos movimentos sociais’.

Neste particular, ‘condenava a passeatomania e insistia que a UNE devia ser uma “entidade de representação estudantil e não um partido”. Uma de suas estocadas, prossegue Zuenir Ventura, era muito oportuna: “o movimento não é a vanguarda da revolução brasileira, como alguns radicais querem afirmar”’.

O recado havia sido dado antes do malogrado XXX Congresso da UNE evidenciando que Vladimir já constatava um “tal nível de radicalização,… que o próximo passo só poderá ser a tomada do poder, e os estudantes não têm condições para isso”.

Hoje, passado tanto tempo em descaminhos, equívocos e sofrimentos, estamos a viver nova onda de protestos Brasil afora.

Protestos que no parecer de tantos juízos a louvar um alarido pleno e irrestrito, que se quer bem colorido e sortido, mas que se faz descuidado e mascarado também, parece que estamos a viver um novo alvorecer, algo a ressoar, sei lá; “o dia do Fico”, no distante 1821, que fez Pedro de Alcântara um reinol libertador, ou a “noite das garrafadas”, que em besteirol o rejeitou. E outros atos e fatos, como o da maioridade de Pedro II, e depois a sua própria queda, em marchas e contra marchas, de crises e mais crises, não resolvidas nem por um ministério parlamentar, quando então se preferiu uma ditadura militar.

Porque foi uma ditadura militar o início da nossa República, com Deodoro erguido e derrubado em “bestificada” assistência popular, sempre aplaudindo “a banda passar”, inclusive com Floriano ousando “receber à bala” os seus descontentes.

Descontentamentos a se debulharem em revoltas e passeatas; da chibata repressora e cruel, à vacina preventiva e necessária, com o velho e sempre nosso obscurantismo, mistura de civilismo em contraponto ao militarismo, com direito a cartas falsas, denúncias anônimas, tropas se rebelando; dos tenentes aos coronéis, destes aos generais, granadeiros sendo insuflados por vivandeiras arrepiadas; uma sucessão anárquica que se erige, não por geração espontânea, mas que tem sido fruto da democracia nunca de todo aceita e respeitada, que sempre resta rejeitável e solapável, o que é lamentável, enquanto Estado Democrático de Direito.

Mas as passeatas de agora, com tantos aplausos e louvações em desalinho, parecem não representar um manifesto de desapreço a esse Estado Democrático de Direito.

No entanto, o são, algo que deveríamos achar impensável, pois vivemos um momento único de liberdade, com a imprensa falando o que quer e bem entende, o congresso funcionando feliz toda quarta e toda quinta-feira, o executivo eleito pelo povo mediante maioria absoluta de votos, o judiciário sem restrições no seu múnus judicante, os promotores e defensores públicos pululando no foro, o país sem palavrório de crise, porque foram bem reduzidos os índices de pobreza, há um pequeno desemprego, a classe média nunca viajou tanto ao exterior, nem comprou tanto carro barato, com direito até a redução do custo de energia elétrica, num feito que nunca vi em mais de sessenta anos de vida. Entretanto, há uma raiva generalizada, uma insatisfação com tudo e com todos.

Só porque houve um aumento de passagem de ônibus, por reajuste inflacionário, ou um arrependimento atemporal dos gastos com a Copa do Mundo, este feito extraordinário, do nosso bestial anedotário futebolístico nacional?

Nós não somos o país do futebol? Ou não o queremos mais assim?

Se a passeata vocaliza a real verdade com tantos revoltados contra os estádios degradados por arenas, não seria melhor que sua arenga rejeitasse o país de pouca vergonha, no dizer de Capistrano de Abreu?

Não! O país de pouca vergonha continua e segue com a passeata e o quebra-quebra que não é aprovado por ninguém, mas sem ele tudo vira convescote de desocupados.

Eita país difícil! Experimenta todas as drogas: lícitas e ilícitas, em mais de cinquenta partidos políticos, uma miríade de ongs, associações, movimentos unitários e minoritários, miliardários perdulários do erário, para quem nenhuma regra deve ter permanência, correção e responsabilidade, e tudo pode ser mutável ao seu favor.

Assim, nada melhor que sejam queimados pneus na rua, mesmo tolhendo o vai e vem das pessoas, porque isso é a verdadeira democracia. E as pessoas que tudo veem e sofrem com a anarquia, acham a passeata e o grevismo uma maravilha; desde a anarquia do educador que reprova o futuro da juventude, à anestesia daquele profissional da cura que nega o alívio da dor alheia, por exercer o paredismo de uma saúde pública impublicável, temas que não são senão genericamente contemplados, em frases tolas, por vazias, de melhor educação e saúde, nas passeatas de agora.

Enfim as passeatas de “não pago” usam o mote do aumento da passagem dos ônibus para externar generalidades mais abstratas, que concretas, afinal todos são contra a corrupção, sobretudo o corrupto, mesmo já a descoberto; contra a impunidade do outro; contra o desvio de dinheiro público do partido contrário; contra as obras superfaturadas e até contra a inflação que está voltando; só para mostrar que serve a vasto estuário reivindicador: dos mais abonados em recursos, o vasto empresário sonegador, as opulentas classes produtoras, e cada vez menos participação do segmento obreiro e mal nutrido, estamento único que moureja no transporte coletivo, que não pode seguir o cortejo sem que lhe descontem o salário. Ou seja: a passeata está mudando o discurso e sendo manipulada, para permanecer inútil.

Ou não está ficando assim, quando há gente que afirme estar o protesto se voltando contra o acréscimo tributário? Por acaso isso é discurso de povo ou uma verbosa loquacidade do empresariado sonegador? Há por acaso algum grupo político, no poder, fora dele, ou em perspectiva tal, que professe a redução de impostos como meta?

Neste campo, e não na passeata, eu gostaria até que existisse uma reflexão liberal, ensejando o bom debate sobre a possibilidade de um regime com sensibilidade social sobreviver sem a necessária contrapartida tributária, sobretudo num país de extrema pobreza como o nosso.

Ah! Mas a pobreza não está na passeata. Se estiver, cortar-lhe-ão o ponto e o salário, ou serão admoestados por repreensão incomodativa. A passeata é dos bem nutridos, daqueles a quem não falta nada, mas querem mais, se possível o poder, para o nada fazer.

E aqui eu relembro os idos descabeçados de 1968; em Paris, com Jean Paul Sartre no comando do palanque da Sorbonne em verdadeira explosão reivindicadora: “J’ai quelque chose a dire, mais je ne sais pas quoi“ (Eu tenho algo a dizer, mas não sei o quê). Ou seja: o guru da primavera francesa de 1968 era um pastel de vento.

Ventania que ao amainar, restou massacrada sem gritos pelas forças da ordem.

Hoje, em meio a tantos festejos, e quantas ereções de heróis em comissões de verdade, ou de retaliações, achávamos todos que a anarquia do passado responsável pelo recrudescimento do autoritarismo era uma lembrança terrível do remido, e a democracia representativa, tão almejada e conquistada, a custo de mais negociação que diluída sangueira, viera para permanecer e frutificar.

Mas o noticiário não pressupõe assim.

Somos, enquanto povo, e a passeata bem se exemplifica com quebra-quebra ou não, somos norteados pela improvisação e desordem. Somos, então, golpistas mirins por essência.

Todos, enquanto parco grupo organizado, queremos empalmar o poder, nem que seja de uma rua, uma estrada importante, um boicote de ferrovia, uma paralização judicial ou um desfazimento de engenharia.

O golpe desferido, se não for legítimo se convalida pelo direito maior do protesto, afinal o coletivo, indefeso quase sempre, continuamente pode vir a reboque do direito individual, com aplauso geral e irrestrito, e sem ninguém ficar mal restrito nem bem contrito.

Somos, repito, golpistas por excelência, seja queimando pneus na rodovia, uma estultice arruaceira, sem criminal baderneira, à utilização em mister procrastinatório da judicialização de tudo só por invocação de liminares eminentemente protelatórias.

Neste particular o tempo que deveria ser o senhor da razão, vira o retardo necessário para a ocasião, porque em lógica igual à espera do carro de bombeiros, a decisão por transitado e julgado a ele se nivela em inutilidade, com o golpe permanecido, tão eterno enquanto durou.

São coisas do Brasil que se vê vacinado contra as tentações golpistas, mas repete no dia a dia, gestos autoritários que nem Getúlio Vargas ousara tanto, muito menos os Generais Presidentes.

No mais, é preciso consignar que é também da natureza do brasileiro dar periodicamente uma bruta vaia dirigida ao Presidente de plantão. E a Presidenta Dilma foi vaiada no Maracanã que novo está como arena, mais apupa como o prisco estádio velhacão, valendo por consigna a imprecação de Nelson Rodrigues: “No Mário Filho, vaia-se até o Hino Nacional”. E agora está vaiando até mulher!

Há, porém, um destaque notável a consignar por histórico, real e verdadeiro; Só houve um Presidente da República vivamente aplaudido no Maracanã: foi o General Emílio Garrastazu Médici, aquele que mais ferozmente regeu os chamados “anos de chumbo”, que extinguiu todo grito de passeata.

Por detestar aqueles anos furibundos, vejo com preocupação a “passeatomania” ressurgida nas nossas ruas país afora, com tantos corifeus, em quantos horácios e curiácios no seu elogio.  

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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