Pipita está vivo

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Pipita está vivo

 

 

Cena número 1: A polícia, esta inteligência suprema, trouxe o bandido morto, já com as mãos decepadas. Acabou-se o espetáculo. E o Secretário de Segurança, Kércio Pinto, diz que a polícia não é preparada para trabalhar em mata fechada. E isso é prioridade? Pepita é um caso isolado, de um adolescente em surto explosivo de marginalidade que, tal fera ensandecida, invadia matas e casas e estuprava, matava, seqüestrava.

 

Cena número 2: Os jornalistas colocam em suas manchetes “a morte desejada”, “pipita foi para o quinto dos infernos” e por aí vai.

 

Cena número 3: Entro na padaria e o taxista só falta me bater, porque eu disse que a polícia tinha que trazer Pipita vivo. O taxista disse que tinha só que ter arrancado as unhas do bandido, uma a uma, dado choques nos testículos e mais uma série de torturas, apoiado imediatamente pelo padeiro, pelo caixa, pela balconista.

 

A morte de Pipita deu as pessoas uma dimensão real de que a lei de talião “dente por dente, olho por olho”, a pena capital vigora no país –  que só desta  maneira é que se resolve a criminalidade.  Desde a votação popular pelo não desarmamento já dava para se notar o quanto a população brasileira, principalmente a mais pobre, adora fazer justiça com as próprias mãos.

 

Lógico que não deixamos de nos colocar no lugar das vítimas de Pipita, nem muito menos dos pais dessas vítimas, não estamos querendo legitimar o crime, nem isentá-lo de julgamento. O que reflete-se é que toda mídia trabalhou a imagem do bandido temeroso e só o Jornal da Cidade, ouviu psicólogos, sociólogos e analisou com mais profundidade. O que se viu na mídia foi uma vulgarização da notícia, um carnaval de fatos bizarros, elevando o algoz de toda trama até à condição de Virgulino, o Lampião.

 

O que nos salta paradoxalmente aos olhos é a capacidade que temos de legitimar nossa crueldade, justificada pela crueldade do outro. Eu vou arrancar unha por unha, dar um tiro na nuca – ele é o bandido e nós os santos, os isentos de qualquer culpa. Eu posso enfiar um cabo de vassoura, torturar com afogamento, espancar mesmo depois de rendido, furar os olhos, decepar os braços, mandar aos quintos dos infernos, como se fosse um traste e só servisse para brincar com o imaginário popular.

 

Instituímos a pena de morte, desde que esses monstros que surgem não sejam nossos parentes, nem nossos filhos, nem nossos pais. Assim podemos justificar a ira do chinês que é levado ao suplício, enquanto a gente ri. E o mais grave é que todas estas pessoas que querem costelas fraturadas, unhas arrancadas, olhos furados, freqüentam igrejas e comungam todos os domingos. Sem querer usar a religião como pano de fundo “pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem”. Ao invés de legitimarmos nossa ambição pelo posto de juízes, não deveríamos ao menos questionar o que faz um ser sair por aí, insanamente, matando, causando terror? Mesmo quando as vítimas não somos nós mesmos, nem nossos próximos? E se fosse com você – pergunta um leitor. Já foi comigo, tive casa roubada, boca quebrada e toda uma sorte de aberrações, – mas nem por isso – desejei, em nenhum momento, – arrancar os olhos e as unhas de ninguém.

O que fica com a lição de Pipita é que todos nós temos um pouco do sanguinário que era ele – justificando apenas que vamos arrancar as unhas e os dentes, porque ele assim o fez também. Que diferença existe de Hitler, se usamos de nossa diferença de cor, raça, destino sexual, religião, para oprimir, violentar, matar em nome da Justiça?

 

Se assim agimos, vamos fechar o Poder Judiciário. Não precisamos de promotores, nem de juízes, nem de advogados. Vamos todos julgar os monstros com nossas próprias sedes de crueldade. E vamos levar para a fogueira, para o calabouço a mãe que abandonou o filho na lagoa, o outro que roubou o erário público – porque assim resolve, como se nos EUA,onde existe a pena de morte, não existisse a maior fonte de desigualdade social e acinte aos direitos da pessoa humana.

 

Pipita está vivo. Todos torturam e matam à sua maneira. E precisam apenas de razões para legitimar isso. Em nome de uma falsa justiça.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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