Porque almocei meu pai

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Por que almocei meu pai de Roy Lewis

O mundo está agitado com as palavras da nova sacerdotisa pregando o próximo final do mundo; a sueca Greta Thunberg, ambientalista de 16 anos, a liderar seguidores em todos os quadrantes do nosso planeta azul.

Neste contexto, é bastante interessante o artigo  de Mathieu Laine: “Teria ele comido Greta? Uma lição de Roy Lewis” (Aurait-il mangé Greta? Une leçon de Roy Lewis), publicado recentemente em Le Figaro.

Em princípio, a tradução trouxe-me dúvidas, afinal o verbo “manger” é comer, simplesmente.

E comer alguém traz consigo uma conotação cafajeste, algo que, aplicado a uma garota como Greta, ensejaria uma ofensa terrível, um pensamento hediondo, senão doentio, com nódoas imperdoáveis de pedofilia.

Recusando tal tradução rasteira, pensei: teria alguém “almoçado, jantado, lanchado ou merendado, Greta?”

Como poderia ter acontecido tão miserável canibalismo se a menina continuava fagueira discursando para tantos seus convertidos?

E o que seria esta lição de Roy Lewis, lembrada pelo cronista  Mathieu Laine, que eu nunca aprendera, nem ouvira no noticiário?

Para o articulista Laine, a jovem sueca Greta Thunberg assemelhava-se ao personagem passadista e contraditório, “Tio Vanya”, do antropólogo britânico Roy Lewis em “The Evolution Man or how I ate my father”, best-seller dos anos 1960, editado em português pela Companhia das Letras em 1993 com o título “Por Que Almocei meu Pai”.

Pesquisando na internet, verifiquei que o livro se encontrava indisponível no mercado, mas, por grata surpresa, consegui adquirir uma versão em PDF; uma leitura deliciosa.

O livro de Roy Lewis

Em próprias palavras, Roy Lewis (1913-1996) apresenta sua obra dizendo : “Nunca acreditei na versão do Gênesis – Adão, Eva e a maçã -, e então decidi reescrever a evolução a meu modo. Acho que não fiquei muito longe da verdade. Tudo está escorado sobre sólidas bases científicas.”

No livro de Lewis, Edward é um macaco notável que, mal descido de sua árvore, resolveu manter-se ereto, andando não mais de quatro pés como os demais símios.

Pai de uma grande família, com vasta prole constituída de vários filhos e filhas, Edward possui o desejo incontrolável de conhecer a natureza, dominá-la; deixar de ser repasto de felinos, ofídios e répteis.

Edward se incomoda em ter que desfrutar da proteína suculenta de gazelas, elefantes e bisões, somente nos restos mastigados por tigres e leões, estes bem mais ágeis caçadores que os homens-macacos.

É terrível aguardar o afastamento destes felinos saciados para reiniciar uma luta por seus despojos rejeitados, carnes nem sempre frescas e sadias, quase carniça, uma matéria de porfia dos homens-macacos com hienas, abutres e chacais.

Que dizer da dificuldade para poder pescar um bom linguado, sem ser devidamente devorado por um crocodilo em bote fatal, silencioso?

E o que falar de uma morada inóspita, fora das árvores, sendo perseguido por serpentes e ao desabrigo do frio e da chuva?

E por que não dizer do esforço de Edward e seus iguais, para conseguir repartir a carne com dentes desprovidos de boa capacidade de corte e de desfio, em caninos de pouca utilidade?

Todavia, ao contrário de Edward que observa tudo isso, imaginando suprir suas deficiências, o seu irmão Vanya, semelhante à menina Greta quer que nada mude na natureza; o macaco nunca se torne homem, permanecendo a posar de quatro pernas e bem se pendurar num bom galho de uma árvore.

“Por que andar ereto se isto só lhe trará reumatismo?” –  Repreendia Vanya ao seu irmão vaidoso por andar esguio. – “Isso é contra a natureza! Você vai ser castigado um dia!”

Desnecessário dizer que os dois irmãos discutiam muito, sem chegar a um acordo satisfatório.

Se Edward aprendia a fraturar o sílex, para dali conseguir uma pedra cortante para melhor repartir um pernil de cabra, quem sabe, afiar uma lança, para mais perfeitamente poder abater um coelho, no pensar de Vanya isto só lhe traria um eventual ferimento no pé ou na mão, o que lhe valia novas admoestações do irmão condenando as suas estripulias.

Ao lado de tudo isso, Edward melhorava suas ferramentas, permitindo caçar e se defender de eventuais predadores, adestrando seus filhos naquilo que batizou como “progresso”.

Se a descoberta do corte do sílex dera a Edward um grande avanço, adquirindo melhor fartura de alimentos, a família sofria de tristezas naturais como a morte de crianças alimentadas por cobras e abutres, tudo o que vinha com lágrima e dor e traria muito desgosto, a ponto de revirar-se o corpo de seu pai cujo túmulo era a barriga de um crocodilo que o devorou.

Neste tempo, um animal comer e virar comida, era coisa comum e natural, todos sendo necrófilos uns aos outros, inclusive para adquirir sobrevivência e substância daqueles ingeridos; uma necrofilia em que se acreditava poder adquirir os méritos e as forças comuns, uns dos outros.

A título de exemplo, um dos irmãos de Edward, mesmo desaconselhado por todos, morrera engasgado porque, em matando uma jiboia, resolveu degluti-la sem repartir nem mastigar, só porque a cobra assim o fazia com as suas vítimas.

Ou seja, era preciso estabelecer métodos e procedimentos, descobrir o bom comestível, rejeitar o nocivo, o peçonhento, para sobreviver.

Sendo um grande observador, Edward resolveu ver o que acontecia no luzeiro bem distante que iluminava a noite.

Será que poderia trazer de lá um pouquinho dessa luz longínqua, perguntou-se Edward, ao ensejar uma longa excursão.

Fora uma alongada e difícil viagem, afinal o caminho cada vez se fazia aquecido e insuportável.

O fogo vindo da cratera de um vulcão, tornava impossível a proximidade, quanto mais tocá-lo.

O vulcão vomitava fogo de suas entranhas, e tal fogo escorria montanha abaixo inflamando tudo no seu caminho.

Com grande esforço Edward conseguiu mergulhar um galho seco na lava, de lá retirando um fogo que podia ser trazido, transportado.

O problema é que o galho logo se apagava, e Edward tinha que reacende-lo numa caminhada sem fim, iniciando-se um longo aprendizado para a manutenção da chama.

Descobriu que era possível avivá-la, soprando-a, introduzindo novos galhos, sobretudo os ressequidos, de modo que só após uma grande luta conseguiu trazer a novidade para sua família.

O fogo trouxe enorme euforia.

Descobrir-se-ia que com ele era possível espantar um felino qualquer, um leão mesmo, o rei dos animais, expulsá-lo da sua toca, poder com isso ocupa-la, abrigando-se da chuva e do frio.

Desnecessário dizer que o mano Vanya, enquanto um destes homens-macacos de inabaláveis princípios, vivendo em estritas concordâncias com as suas crenças, repudiou o viver em cavernas, exasperando-se com a novidade de se dispor de uma fogueira acesa nas noites frias.

“Possuir vulcões privados, paciência, Edward!” – Gritava Vanya enfurecido –  “Você está indo longe demais! Qualquer dia desses você vai se arrepender!”

E para encurtar a história,  um dia um imenso fogaréu assolou toda a floresta.

Provocado ou natural, por desleixo ou acidente, o fogo vinha arrasando tudo, todo ser vivente corria sem abrigo.

Seria o fim do mundo, não fosse Edward, por loucura, em até então inconcebível, ter ateado outro incêndio, para combater fogo com fogo, formando o que seria um aceiro, um isolamento com cinzas, afinal o fogo, qualquer um, cessa quando não há mais nada a queimar.

Quando o fogaréu cessou e a calma amainou na região, houve um lauto jantar com muita comida disponível, com uma novidade gloriosa.

Nunca ninguém comera tanta carne suculenta, os dentes mastigando fácil, o tutano deliciando línguas e beiços.

Curiosamente é que até o irmão Vanya participava dos acepipes, reafirmando que aquilo seria uma exceção pois continuaria a “ser um simples e inocente filho da natureza”.

“Fiz a minha escolha; permaneço macaco”- discursava – “Não comei da árvore do bem e do mal. Não podemos acelerar a força da natureza. Voltemos para as árvores; para a natureza”.

Neste tempo Edward já tinha forçado seus filhos a se acasalarem com estranhos, promovendo o que seria a exogamia, algo que não se fez sem obstáculos e resistências, porque o comum na sua prole é que os irmãos se acasalassem entre si, o que no seu entender não conduzia ao desenvolvimento e aprimoramento da espécie.

As ideias de Edward, embora notáveis, suscitaram resistências na sua prole.

Queria repartir o seu conhecimento com os outros macacos, e isso foi rejeitado por seus filhos que queriam manter as descobertas para si somente. Seria uma maneira de melhor explorar o seu semelhante.

E quando Edward quis ensinar a todos os macacos viventes o know-how do arco e flecha, sua última e mais recente invenção, um dos seus filhos, o relator da história, impediu-o, flechando-o, como se fora um acidente, por imprudência necessária.

A mania de repartir conhecimentos transformara o velho num perigo para sua horda.

E foi assim que Edward foi almoçado por seus filhos e netos, deixando sua esposa, em lágrimas incontroláveis.

Ensinava-se as instituições básicas do parricídio e da patrifagia, que dão continuidade às comunidades e aos indivíduos.

Moral da história: se há homens como Edward, há muitos como Vanya.

Não estaria a menina Greta, imitando o macaco Vanya, decretando greve contra a escola, numa pregação nova de retorno às árvores?

Houve tempo em que os velho ensinavam aos jovens.

Infelizmente o mundo rotineiramente gosta de desembestar.

Agora está a professar que a menina Greta não tem mais nada a aprender, só a ensinar, daí promover a greve contra a escola e a passeata, mundo afora, contra o uso da energia seja ela de origem fóssil, nuclear ou hídrica, em nome de uma conservação exacerbada da natureza, que não limpa esgotos, o Rio Sergipe, aqui pertinho, nem a própria privada que merecia melhor o seu carinho.

Des-carinhosamente, se é da natureza dos impúberes o alimentar-se dos remidos e vencidos pelos anos, é bom lembrar do melhor conselho que o sábio Nelson Rodrigues dera aos jovens, já no final de sua pródiga vida: – “Envelheçam!!!”

 

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