Portes d’arma.

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Dizem que o Brasil está mudando. Pelo menos é assim que os empolgados com o julgamento do mensalão estão gritando.

O brasileiro não comemora as festas. Prefere comemorar as vésperas. É como peru; não suspira no ato nem no entreato, seu desempenho se faz na prévia do ato, na perspectiva apenas, com direito à própria ressaca.

Porque os que entendem de peru, e dos galináceos por contra parentescos, dizem ser melhor abatidos, em plena embriaguez prévia, de molde a resultar musculação mais tenra.

Deste modo o peru é embriagado na antevéspera e sangrado na antecedência do festim.

Igual às comemorações do julgamento do mensalão. Nem bem saiu a condenação provisória com a dosimetria da pena ainda no borrão, e já se festeja a condenação como se a punição estivesse já cumprida com direito a literatura em renovado memorial de cárcere.

Ah, Brasil! Como tu és pátria formidável!  Sem trauma e com pouco derramamento de sangue, mas se achando o cenário do sofrimento sem nada igual.

Somos o país cordial, onde a terra é quente, o solo hostil à rama, em que a fruta madura rápido. Pelo menos é assim que a molecada justifica a precocidade sexual das nossas mulheres, neste país pouco destacado por nossos juristas, mas assaz louvado por tantas dançarinas e falta de vergonha.

Vergonha! Capistrano de Abreu, já vai mais de século, dizia ser a nossa real e quase isolada carência. Mas, poucos o pensam assim. Em maioria, queremos ditar ao mundo que a razão está conosco. Nada temos que aprender com erros, acertos ou a experiência de alguém. Eles é que tem que aprender conosco. Nós já nascemos sabendo tudo, por desígnio de Tupã. E se Tupã falou, tá falado!

Assim eis meio mundo de gente feliz da vida com o desfecho do mensalão.

Digo meio mundo, porque há o outro meio mundo, a outra metade. Esta está picada da vida. Para estes não houve roubo, assalto ao erário, corrupção ativa, passiva, peculato ou evasão de divisas. O que aconteceu foi mera luta política.

Enquanto isso a violência cresce. A polícia sendo cassada mediante atentados cirurgicamente eficientes, suscitando um bate-cabeças discursivo cuja solução se faz cada vez mais difícil.

E as soluções perpassam a discussão

O nosso sistema prisional não recupera o preso. “Eu preferia morrer a ficar custodiado pelo estado!” Confissão mais tola e ingênua, quão dolosa e asquerosa, afinal parece esquecer que lhe não cabe culpa custodiar e manter tal depósito inumano.

E o que fazer? Por que não anistiar a todos, reconhecer que a sociedade é quem tem que curar os seus males, com o lobo pastando o cordeiro, como não preceitua o apocalipse, mas que se fará assim no final dos nossos tempos?

Por que não fecharmos os presídios, decretar-lhes a inutilidade, mostrando ao mundo que em terras brasílicas os ódios se extinguem com políticas de boas intenções e solidariedade?

E aí eu constato uma verdade que não consta na estatística, afinal até as ciências duras são amolecidas quando se perquire o convencimento dos tolos.

Diziam que a violência seria coibida com o desarmamento. Aprovaram uma lei impedindo o porte de arma de fogo. A polícia daria conta da segurança do cidadão. Só se esqueceram de avisar os bandidos. Porque estes resistem armados, e a população cada vez mais indefesa, condenada a nem exercer qualquer desforço físico por resistência.

Não resista! Não ofereça qualquer reação! Eis o conselho, perante o assalto cada vez mais comum e rotineiro. Só não dizem para apelar a Deus ou o anjo da guarda para amolecer o coração do malfeitor.

E afora isso, a polícia está sendo caçada como nem passarinho tem sido. Porque, coisas deste nosso tempo; é mais grave caçar um passarinho, um roedor ou um suculento jacaré do que um policial, esteja ele em serviço ou no lazer.

Ah! Mas a polícia mata! Ela é despreparada! Ela é até abusada, mais das vezes!

Pois é, conjugaram-se muitas coisas; o desarmamento da população, a banalidade do erro, a condescendência com o mal feito, o reconhecimento de uma luta já perdida, e até o desapreço, misto de desesperança e desconfiança com o aparato protetor do estado.

E assim ressuda abjeto o desabafo do ministro, que prefere se compadecer com os presídios que administra e não ver a insegurança das ruas, nem a morte sucessiva de policiais, cirúrgica e eficientemente abatidos, em pontaria invejável a qualquer atirador real ou ficcional, como o Chacal, que era único no mundo, conforme famosa criação de Frederick Forsyth.

Hoje, com tanta eficiência de matadores profissionais no Brasil, somos uma terra onde se fertilizam muitos destes Chacais. Uma fartura a invejar a Cosa Nostra, a Mario Puzo e ao Poderoso Chefão. Isso para falar no real ou no ficcional.

Bons sinais dos tempos.

À parte isso e com tudo isso, chama-me a atenção um assunto publicado no Correio de Sergipe, edição de 15 (comemoração da República) e 16 de novembro, cuja manchete bem externa a boa eficiência e nossa proverbial segurança: “PMA não renova porte e os guardas ficam desarmados”.

Manchete que traz consigo a chamada da matéria: “A PF foi informada que a PMA estava com dificuldade de contratar psicólogos para avaliar os guardas”.

Bom! Muito bom!

E continua a notícia que não é minha, mas do jornal: “Membros da Guarda Municipal estão proibidos pela Polícia Federal de usar armas desde o último dia 12 de novembro, pois a Prefeitura de Aracaju não renovou em tempo hábil a licença de porte de armas dos profissionais, que tinha validade de dois anos. A PMA não tem psicólogos para avaliar os guardas”.

Verdade ou não, que aconteceria com as Polícias de Shanghai, de Londres ou de New York se lhes faltassem armas e sobrassem psicólogos?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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