Predomínio do Fátuo.

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Poderia ser um domínio flato, esta mistura gasosa e malcheirosa, exalante dos orifícios humanos que todos temos, e dali escapam, propositadamente ou por escapulida descuidada, mas que nos envergonha, e devia sê-lo assim, por empestear o entorno circundante e envolvente.

Flato, é bom refletir, porque restará assim.

E para ter acontecido como pretendido, foi estendido por necessário um cordão sanitário quilométrico, que contivesse o almíscar para fixar tal perfume, que deveria embevecer a nação, com tão douta e sábia decisão.

O cordão sanitário fora necessário, é verdade! Olfatos desprezíveis por acostumados ao lixo e ao bodum cheirume, não deviam jamais, e nunca mais nesse país, ser incluídos na apreciação de tão nobre perfume.

E o perfume, como se esperava daquela hora em diante, restou miasmático e infeccioso, desafiando olfatos, em maus acatos e rasos recatos, num estuarino larvar por desacato.

Desacatos à parte, talvez ensejando o riso, a galhofa e a pilhéria, recebi via e-mail um cartaz consistente ao nosso judiciário, que está respondendo, moderadamente até, o esgar clamor sedicioso.

Dizia o cartaz: “John Lennon foi morto por um fã. Ana Hichmann quase foi morta por um fã. E o Lula com tantos fãs !!!! Não me conformo….

Digo um cartaz consistente, porque os três valentes desembargadores, ilhados e defendidos por armas e barões assinalados em guaíba terra gaúcha, não precisaram se afastar de suas poltronas macias e confortáveis, para lhes conceder um permeio deste clamor.

E assim eis Lula, ferrado na testa como o corrupto símbolo dessa terra de gente miserável, quando nossa miserabilidade está apenas no povo, que é incapaz de odiar, de se ofender com quem lhe engana e esgana.

Lula, que ousou ser Presidente da República, mas que não deveria ter sido, recebe com galhardia a soberbia funesta que o tenta molestar com tão injuriosa acusação.

Algo que não lhe resta suficiente para o idealizador do cartaz, e melhor seria que lhe fosse prolatado o aniquilamento físico; assassiná-lo como o fizeram a Emiliano Zapata, no México, e a Jean Jaurès na França e a Mahatma Gandhi na Índia. Isso, porém, não podia ser exigido dos três Desembargadores gaúchos. Foi-se o tempo impune da “gravata vermelha”, barbárie gesta no lacero a jugular.

Para estes sedentos de sangue, não basta aplaudir os Desembargadores escondidos, cujas palavras no bom tempo recolhidas, bem serão melhor escandidas e escandalizadas mundo afora, como julgar errático a ressaltar.

Porque quando a emoção cessa e a razão impera, vale real por verdadeiro a prova cartesiana exigida pelo comum cidadão isento de paixão

E os que nenhuma afinidade possuem, iguais a mim, sem interesses afins (pois me vejo assim, cartesiano enfim), já vemos neste palmar sem-fim, mais um lamento que um portento.

E assim ecoa o “decisum” na sarjeta das cloacas sem eco, estro ou brilho, qual poltrão intento em lamento quase igual, ao projétil mortal sugerido.

Pelo menos é deste nível o aplauso aos julgadores escondidos, sob guarda ampla no seu derredor para botar o guizo no gigante, ao talante de uma “Teoria do Domínio do Fato”, nova heresia, para contemporânea inquisição, igual àquela do medievo trevoso, onde uma “Teoria do Domínio do Fátuo”, que apelido agora, mas alcunhavam então os que deveriam perecer, por entendimento despautério a proferir.

Amparo-me no “Fátuo”, desmistificando o “Fato”, porque diferente dele, o fato não faz como o fátuo que acolhe e agasalha a presunção, a vaidade, a insensatez, ousando parecer tolo, mentiroso e pérfido.

O “Fátuo” ensaia estulta virtuosa, mas virtual e ilusória, parecendo culto e ostensório, mas restando derrisório e delinquente, por deliquescente e provisório.

O “Fátuo” só não é elogioso e bem referenciado, porque pertence ao reino dos fantasmas, aquilo que assusta e amedronta os circunstantes, como o “fogo-fátuo” das queimas lúgubres de pântanos e jazigos; aquele “fogo corredor” tão temido, das almas mal penadas e indormidas.

E assim eis a “Teoria do Domínio Fátuo”, tornando todos tão culpados, mais até que Josef K., o processado na ficção pesadelo de Franz Kafka.

Mas, voltando ao cartaz obtuso que me fizera lembrar o assassinato de Zapata, Jean Jaurès e o Mahatma Gandhi, relembro que não é da tradição brasileira usar da violência para produzir desfechos políticos, como estes retirados do México, da França e da Índia.

Exemplos, incontáveis, podem vir do resto do mundo, inclusive com gestos suicidas inesperados e nunca de todo prevenidos.

Nos Estados Unidos da América, por exemplo, quatro Presidentes foram mortos à bala ou por suas consequências: Abraham Lincoln, ferido por um segregacionista; James Garfield, por infecção na retirada do balaço que o atingiu; William McKinley; e John Kennedy na frente da TV para todo mundo ver.

Há alguns casos de defenestração, pura e simples; caso de Gabriel Garcia Moreno no Equador, o Almirante Coligny, na França, e aqueles ocorridos em Praga, em 1618, quando nobres protestantes da Boêmia invadiram o castelo da capital e arremessaram os representantes do Governo Imperial pelas janelas. Janela que visitei, enquanto turista.

No Brasil, salvo engano, graças a nossa índole cordial, só houve um atentado político.

Atentado a Prudente de Morais

Foi após a queda de Canudos, quando o exército posando raso brio desfilava no Arsenal da Marinha, no Rio de Janeiro, isso em 1897. Um anspeçada de nome Marcelino Bispo, tentou dar um tiro de garrucha no Presidente Prudente de Morais, disparo que falhou, tendo o sicário apunhalado o Ministro do Exército, Carlos Machado Bittencourt, que se interpôs entre o Presidente e o assassino.

O atentado viu-se depois, tinha inspiração jacobina.

Não o jacobinismo francês, de Robespierre, mas um jacobino degolador, por florianista. O que não é a mesma coisa, embora use navalhas distintas.

Em outro atentado, o tiro mirou Carlos Lacerda na Rua Toneleros, atingindo o coração de Getúlio Vargas no seu leito no Catete.

Se de Gandhi, Hollywood edulcorou o suficiente, dele não pretendo falar.

Prefiro falar de Zapata, e sobretudo de Jean Jaurès, o líder pacifista francês.

O mexicano Emiliano Zapata foi morto por arapuca de um aliado chamado Jesus Guajardo em troca de uma recompensa de algumas moedas.

Moedas à parte, Jean Jaurès o grande tribuno da esquerda francesa, morreu por sua campanha pacifista em prévias da 1a Grande Guerra, em meio a uma ceia com três amigos.

Jaurès ou a necessidade do combate.

Estava jantando de costas para uma janela quando um estudante desequilibrado chamado Raoul Villain, do lado de fora do restaurante, arrastou bruscamente a cortina que o encobria, desferindo-lhe tiros fatais na cabeça.

Atendido pelo médico Paulo Paranhos, filho do nosso Barão do Rio Branco, o tribuno socialista não resistiu ao atentado.

Se Jean Jaurès teve exéquias momentosas, Raoul Villain, preso em flagrante, embora imobilizado na fuga, nunca seria apenado.

A justiça francesa, talvez por conveniência similar à “Doutrina do Direito do Fátuo”, em meio a forte movimento nacionalista vigente após a guerra, o absolveu cinco anos depois.

E Jean Jaurès, o pacifista, restou naquele momento, impatrioticamente execrado, tendo sua viúva condenada a pagar civilmente as custas processuais, as multas condenatórias e outras despesas advocatícias do assassino absolvido.

De Jean Jaurès, escreveu Leon Trotsky: “Jaurès, atleta da ideia, caiu na arena combatendo o mais terrível flagelo da humanidade e do gênero humano; a guerra. Ele restará na memória da posteridade como o precursor, o protótipo do homem superior que deve nascer dos sofrimentos e das quedas, das esperanças e da luta”. 

Humanité sobre o assassinato de Jean Jaurès.

Sobre Jean Jaurès também escreveu Anatole France, em repulsa ao julgamento que inocentou seu matador: “Travailleurs, veillez!” “O assassino de Jaurès foi inocentado. Trabalhadores, Jaurès viveu por vocês; ele morreu por vocês! Um veredito monstruoso proclama que seu assassinato não foi um crime. Este veredito os coloca fora da lei, você e a todos os que defendem a sua causa. Trabalhadores, acordem (tenham cuidado)!”

E os trabalhadores, como sempre ressonaram pacíficos, indiferente ao poder das palavras e a reflexão do pensamento.

De Jaurès, uma homenagem surgiu anos depois, sendo inumado no Panthéon de Paris, e reverenciado, décadas após, quando já não se ouvia sua palavra, mas seu eco reverberava.

Tempo em que o Partido Socialista atingiu o poder com François Mitterrand; um socialismo amansado e amadurecido.

Do assassino de Jean Jaurès, por inclusão necessária e curricular, será morto por fuzilamento nas ilhas baleares por se inserir indevidamente nos conflitos falangistas da Espanha.

Quanto ao Brasil, merecidamente ou não, deu a Getúlio Vargas um enterro apoteótico, sendo vácuo e rastro de vasta liderança política a perdurar no tempo e nas ideias.

Não estaria aí também tudo quanto se diz sobre o merecimento da condenação de Lula, por descarte, ao arrepio da lei, ao bom julgo e ao parecer sem embaralho, desafiando o cartesiano que destrona por razão científica o que pensa a cúria e sua fúria?

De Getúlio dir-se-á por extensão, como o tiro restou por reverso, aqui mesmo em Aracaju, o povo saiu às ruas sedento de sangue; queria esganar os seus assassinos.

Todavia, entre mortos e feridos, igual ao poeta Cina na tragédia de Shakespeare, morreu um operário retirado do palanque, chamado Lídio da Paixão, por palavras amenas, proferidas e não agradadas pela massa enfurecida, que lhe rejeitou a acalmia e o desconsolo.

Foi morto pela multidão enfurecida, seu corpo sendo jogado como se fora um boneco de estofo, uma peteca, de mão em mão rebatida e dilacerada.

Estofos à parte, lembro que enquanto vivo fora, o Deputado Francisco de Araújo Macedo comemorava a morte de Vargas, com um grande comício, todo 24 de agosto.

Seus fãs batizaram, para isso, uma praça com o nome de Getúlio Vargas.

Depois o Presidente, “Pai dos Pobres”, restou esquecido.

Alguém na mesma praça construiu um minicampo de golfe.

E com tantos atletas do taco, rapazes e moçoilas refizeram a história à sua mutante e diletante indiferença.

Getúlio foi afastado, restando não o golfe, mas o minigolfe, suprema criação municipal.

O tempo passou e o minigolfe se acabou, ficando apenas o nome deleteriamente alterado: Praça do Minigolfe. Sem Panteão, nem memória.

Igual a Lula como defendem os seus inimigos em tantos enraivecidos.

Ou não pensa assim o comum mortal, aquele que não frequenta a patrulha injuriada dos seus adversários, e que, hoje se vê, convidado e contaminado para o comisso do deletério uso do ódio, perante a prova que não se comprova mas resiste, sob paixões e exceções?

Com a covardia do funesto ataque, travestido em atesto honesto. Uma ousadia tão suprema como tal soberba acusação, só com excessiva soberbia e odienta justificação é possível imaginar que nestes tempos de desmandos generalizados, em tão recentes “mares-de-lama” anunciados, seja tudo por culpa de Lula, de modo a servir como bode expiatório ideal, para o perdão dos males, meus e seus, e de todos na nação por igual.

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