Preto, estuprador e pedófilo

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Não sei porque cargas d´água o maestro Carlos Magno, do Canarinhos, foi condenado a 42 anos de prisão. Atenta ao episódio, a sociedade assistiu a tudo conivente e calada. Iam levar Carlos Magno à cova dos leões. A imprensa tratou já em primeira página, dando a notícia. Seria Carlos, o Magno, este pedófilo que bolinava as alunas? Nos autos, como na sentença, a vítima diz que não houve violência e nem grave ameaça.

A sentença reconhece que as vítimas não relataram sofrer violência ou grave ameaça, mas a mesma sentença interpreta que houve ameaça e violência. A sentença, segundo Roosevelt Batista, advogado do maestro, é inverídica. “A sentença atribui a ele apenas ato libidinoso. As denúncias só ocorreram por uma desavença familiar e que teve uma má interpretação de cunho sexual, porque várias mães foram depor a favor dele”, diz. Claro que não são inverídicas, algo houve. No decorrer do processo, dezenas de mães e ex-alunas, hoje adultas e formadas, se manifestaram a favor do maestro, dizendo inclusive que nunca foram assediadas pelo mesmo.

No episódio específico, se há dolo, há crime. Claro e necessário que as três meninas, que deporam contra o maestro, merecem acompanhamento psicológico e do Estado, bem como a mãe que as acompanhou para que não haja traumas mais adiante. O que se questiona, de fato, é se houve mesmo o crime de estupro ou pedofilia, mesmo as meninas hoje tendo 17 anos. Frise-se que, em casos como este, a gravidade se torna maior, quando o envolvido é professor, pai, parente ou tutor.

Segundo a denúncia feita à polícia, a garota de 17 anos teria sido convidada para participar de um almoço com o professor e outras pessoas do instituto. Ao invés de ir ao restaurante, o professor levou a adolescente para um motel. No motel a menina teria ficado apenas de calcinha. O professor teria passado a mão no corpo dela, a beijado e por pouco não houve penetração.

A mãe da adolescente relata que não desconfiou do professor, mas posteriormente percebeu o comportamento estranho da menina. Foi quando a garota revelou o que teria acontecido. Já a segunda denúncia partiu de uma aluna de 16 anos, prima da outra adolescente. De acordo com a denúncia, o professor tentou abusar da garota, que conseguiu escapar das investidas.

Preto, pedófilo e estuprador. Estas pechas pesaram e ainda pesam sobre Carlos Magno, que agora é um réu sentenciado. Fico pensando como deve estar ele, depois de tantos anos dedicados à musica. Lembro-me dele regendo os Canarinhos em frente ao prédio do Tribunal de Justiça, com aquele sorrisão e emoção sem par. No natal, na páscoa, no ano novo, Carlos Magno sempre foi um destaque, porque além de reger toca piano. O destino o fisgou e dizem que foi por disputa da entidade Canarinhos que rende dinheiro, mas esta é outra história na qual me aprofundarei.

Fico aqui desanuivado, indagando como um preto, porque Carlos Magno é negro mesmo, retinto, pode ter sido tão esculhambado, segregado, denegrido e escurraçado pela imprensa, sem ter OAB, entidades negras e Conselhos de Justiça Federal em sua solidariedade. Falei solidariedade, não defesa. Tenho pavor a pedófilos e não saberemos nunca a dor de quem sofre o ato. Mas o que me incomoda é que é claramente uma pessoa que pode ter um tratamento especializado, psiquiátrico, com acompanhamento e medicação, e não tratado como um macaco, comum,  por se tratar de um professor-maestro, formador de gerações de músicos e com filhos também.

O fato de ser preto é relevante sim, no caso. Preto e pobre. De cor. Sem ninguém que o punisse por vias mais correlatas, menos austeras. Conseguiram destruir uma vida, humilhá-la em público, sem que os advogados de defesa se dirigissem aos organismos internacionais para auxílio, organismos poderosos com ações nesse sentido muitas das vezes ganham, se não houver comprovação real, por câmeras ou imagens.

Uma nuvem negra rasga os céus de Aracaju. Não há santo, nem pecador. A Lolita de Nabokov nunca esteve tão presente entre nós. Desafio aquele que não tiver pecado atirar a primeira pedra. A psiquiatria evoluiu muito e pode, nesses casos, ajudar e auxiliar. Não cabe aqui defender crimes contra jovens e adolescentes – tem que haver uma cobrança da sociedade e da justiça e punição. Aqui, especificamente se trata de um maestro! Faz diferença? Faz, sim. Ele é negro, pobre e mora no subúrbio. Não é reincidente, não causa perigo, nem nunca ameaçou as vítimas, nem a família, nem é um Guilherme de Pádua, nem o médico Roger Abdelmassih, sem remorso.

Pessoas são forçadas a viver fora do mundo comum (refugiados, clandestinos, internos,de campo de concentração). Tornam-se descartáveis, supérfluas, sem lugar. É como se não existissem e esta é uma das características básicas dos totalitarismos. A igualdade, na visão de Hannah Arendt, pressupõe uma sociedade onde prevaleça um mínimo de igualdade no plano econômico. A igualdade resulta da organização humana, pois as pessoas não nascem iguais e não são iguais nas suas vidas. É a Lei que torna ou deveria tornar os homens iguais, ou seja, as diferenças deveriam ser igualadas através das instituições.

Assim, a igualdade deveria ser garantida e ter lugar na esfera do espaço público (a diferença tem lugar na esfera do privado). O destituído de cidadania, ao ver-se limitado à esfera do privado, fica privado de seus direitos, fica privado do acesso à igualdade, à justiça. Se os homens não fossem iguais não poderiam se entender; se não fossem diferentes não precisariam nem da palavra, nem da ação para se fazerem entender. Este é o caso do maestro.

Para Hannah Arendt, os direitos só existem em função da pluralidade dos homens, ou seja, da garantia tácita que os membros de uma comunidade dão-se uns aos outros. É neste sentido preciso que, para Arendt, a política institui a pluralidade humana e um mundo comum. Para ela, assim como para nós, os direitos humanos derivam da ação. Os direitos são necessários para garantir que a pessoa seja reconhecida não apenas pelo imponderável da amizade, da simpatia e do amor. A partir dos problemas jurídicos suscitados pelo totalitarismo, Hannah realça que o primeiro direito é o direito a ter direitos.

Por isso precisamos estar atentos a Sartre “Acusadores como todos os outros, estamos ao mesmo tempo sozinhos e acusados por todos.

Como a relação social é ambígua e comporta sempre uma parte de fracasso, como somos simultaneamente a multidão chinesa que ri e o chinês aterrado que arrastam ao suplício, como cada pensamento divide tanto quanto une, como toda palavra aproxima pelo que exprime e isola pelo que não diz, como um abismo intransponível separa a certeza subjetiva que temos de nós mesmos e a verdade objetiva que somos para os outros, como não deixamos de nos julgar culpados exatamente quando nos sentimos inocentes, como um acontecimento transforma as melhores intenções em vontade criminosa não apenas na História, mas até na vida familiar, como não estamos nunca seguros de retrospectivamente nos tornarmos traidores, como fracassamos sempre na comunicação, no amor, em nos fazermos amar, e cada fracasso nos faz experimentar a nossa solidão, como sonhamos às vezes em apagar a nossa singularidade criminosa confessando-a humildemente, e outras vezes em afirmá-la em desafio na vã esperança de a assumir inteiramente, como somos conformistas às claras, vencidos e patifes no segredo da consciência, como o único recurso do culpado e a única dignidade é a ideia  obstinada, o amor, a má-fé e o ressentimento, como não podemos nos arrancar até a objetividade que nos esmaga nem despir a subjetividade que nos desterra, como não nos é permitido nem nos elevar ao ser nem nos abismar ao nada, como em todas as circunstâncias somos impossíveis nulidades, é necessário escutar a voz do nosso próximo, nosso irmão."

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