PROCESSO CRIATIVO NA EDUCAÇÃO, IMPORTANTE OU NÃO?(*)

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“O verbo latino cogito, penso, significa etimologicamente agitar junto”.

J. Hadamard

 

Disseminar o conhecimento sobre Processo Criativo em uma empresa ou numa instituição de ensino não é brincadeira nem tampouco algo que possa ser feito sem ter uma sólida orientação, planejamento, estratégia, paciência e boa vontade. De início temos que pensar que três elementos essenciais precisam estar sendo estrategicamente levados em consideração: as pessoas (alunos, professores, pais e a equipe da instituição), os processos (ou seja, a metodologia que será inserida para que a criatividade possa realmente florescer) e os produtos, ou melhor, dizendo os resultados (para os alunos, para os professores, para os pais e para a instituição). Portanto, como afirmei não é brincadeira.

 

Todavia, não consigo enxergar como conseguiremos dar o monumental salto necessário para a transformação evolutiva no Brasil sem que o processo criativo seja disseminado no sistema educacional como um conhecimento obrigatório. Justamente, porque o que mais precisamos no nosso país é mudar os nossos velhos modelos mentais ultrapassados e questionados; ou seja, ou aprendermos a enxergar os nossos já seculares problemas sob novas óticas ou então permaneceremos na corda bamba como estamos vivendo há muitos séculos. Onde poderemos encontrar a melhor seara para iniciarmos a decantada transformação do nosso país? Evidentemente que será nos bancos escolares.

 

Fico bastante tranqüilo ao afirmar isto. Desde 1995 vendo tendo a oportunidade de trabalhar em empresas, instituições públicas e privadas com a finalidade de disseminar o conhecimento sobre processo criativo. E, ainda hoje, quase dez anos de trabalho ainda me surpreendo com o que escuto das pessoas que não só aproveitaram a oportunidade ao participarem desses programas, mas – principalmente – tiveram a ousadia de investirem verdadeiramente no desenvolvimento do seu potencial criativo. Minha surpresa é justamente sobre os resultados que elas me afirmam que obtiveram e que hoje são – literalmente – outras pessoas. E, muitas delas sempre utilizam a mesma explicação: “Foi como seu eu tivesse despertado de um torpor, de um sono pesado que não me deixava evoluir”. E, na maioria dos casos são adultos com mais de 30 anos, que depois de “acordarem” voltaram a estudar, reviram seus conceitos de relacionamentos, aprenderam a trabalhar em equipe, a respeitar as diferenças e, sobretudo – a adiar julgamentos. Literalmente, deram a volta por cima nos seus velhos modelos de pensar!

 

Imagino o que já estaria acontecendo se as próprias escolas (primária e secundária) já iniciassem o resgate do potencial criativo dos seus alunos. Há alguns anos atrás depois de um fóruns de processo criativo promovido pela FBC, os professores de um reconhecido colégio do Estado encantados com esse novo conhecimento me convidaram para falar sobre criatividade. Como sempre, procuro atender esses pedidos e fomos eu, equipe da FBC e alguns membros. Depois da palestra alguns professores mais entusiasmados me perguntaram como poderiam desenvolver/investir na criatividade no colégio. O diretor estava perto e disse: “Infelizmente agora não podemos investir novamente em novidades, a nossa inadimplência está alta. O que o senhor sugere para resolvermos a nossa inadimplência?” Me perguntou o referido diretor.

 

Então eu respondi: “Ofereça aos pais algo que seja um diferencial. Uma maneira de ensinar para a vida e não para o emprego. Só assim eles perceberão a diferença de manter os filhos na sua escola”, respondi.

 

É claro que eu estava justamente pensando em trabalhar em toda a rede escolar o processo criativo. Tenho certeza de que essa será uma fantástica diferença e quando as escolas que estão realmente interessadas não apenas só em ganhar dinheiro, mas também em preparar cidadãos entenderem que o processo será este haverá uma transformação cidadão e poderosa no seu clima institucional e os resultados serão passíveis de serem notados e observados em poucos anos.

 

Algumas instituições no Brasil já estão com cursos de criatividade em sala da aula; todavia, vale a pena ressaltar que existem muitas abordagens sobre a criatividade, a maioria delas muito séria, mas algumas apenas exploram a veia “artística” das pessoas. Não é desse tipo de criatividade apenas que estou me referido. A Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, de São Paulo, uma instituição bastante respeitada em todo o Brasil e que tem mais de 12.000 alunos universitários já instituiu a obrigatoriedade de cursos de criatividade em todos os seus programas. Outras faculdades estão adotando essa postura, e na nossa pequenina Aracaju, temo uma cadeira de Gestão do Processo Criativo no curso de Administração da Faculdade São Luis, e desde setembro passado essa mesma faculdade criou em parceria com a FBC um “Núcleo de Criatividade” que iniciará suas atividades este ano. Portanto, também nesse caso estamos caminhando junto aos vanguardistas.

 

Uma das experiências mais interessantes por que tenho passado ultimamente tem sido ministrar aulas sobre Criatividade e, ao mesmo tempo, instigar os alunos com o intuito de facilitar para que vivam experiências que lhes permitam aprender e entender a importância de resgatar o seu potencial criativo.

 

No dia a dia da sala da aula é possível vislumbrar toda uma variada gama de atitudes e, ao mesmo tempo, estar em contato com alunos muito, pouco ou nada interessados com o assunto. Por conta dessa observação e da minha experiência profissional considero necessário alertá-los sobre a importância do processo criativo como um diferencial de competência para as suas vidas pessoais e/ou profissionais. Via de regra é possível perceber, ao longo do tempo, algumas transformações nas atitudes de uma parte expressiva dos alunos. Muitos até chegam para dizer o quanto tem sido uma experiência rica para as suas vidas; mas, mesmo assim alguns ainda resolvem ficar apenas como espectadores do processo, como se nada estivesse acontecendo à sua volta. E, em sala de aula é possível ver e constatar os mesmos comportamentos que observo, muitas vezes, quando sou convidado para trabalhar em organizações, onde encontramos pessoas já não tão jovens, muitos dos quais motivados e esperançosos e outros apenas sonhando em uma aposentadoria ainda longe, para que, segundo eles, possam “descansar” e curtir a vida.

 

Tem sido muito interessante trabalhar com estudantes porque todos eles trazem experiências resultantes em parte da sua educação familiar, em parte de um sistema de ensino que prevalece a muitos anos, no qual os alunos parecem ser considerados receptáculos passivos de informações e não indivíduos que precisam saber pensar, que precisam utilizar o pensamento criativo como uma forma de enriquecer o seu conhecimento e suas atitudes perante a vida.

 

Quando explico o significado do conceito de pensamento criativo, costumo a lhes pedir para escreverem rapidamente as suas idéias sobre uma determinada questão. Na maioria das vezes observo a forte resistência de muitos deles em transcreverem para o papel as suas idéias, seus projetos, seu sonhos. Embora eles afirmem que não fica bem claro num primeiro momento que a maioria nunca parou para pensar o que realmente deseja da vida. Qual o seu sonho maior? Onde pretende chegar daqui a dez anos? Que obstáculos precisarão se preparar para vencer? E por aí vai…

 

Noutros tempos isso me deixaria mortificado. Todavia, há um texto do Neil Postman (Tecnopólio, 1992) que li há alguns anos atrás e que permite que possamos entender o porquê dessa resistência: “Por um lado, há o mundo da palavra impressa, com sua ênfase na lógica, na seqüência, na história, na objetividade. Por outro lado, há o mundo da televisão, com sua ênfase na fantasia, na narrativa, na presença, na gratificação imediata e na resposta emocional rápida. Portanto, as crianças vão à escola após serem bastante condicionadas às imagens da televisão. No mundo da escola é preciso pensar, raciocinar, exercitar, sair do encantamento… Aí ocorre uma espécie de batalha psíquica, e há muitas baixas infelizmente! Há crianças que não querem aprender a ler, crianças que não conseguem organizar o seu pensamento, crianças que não conseguem prestar atenção às aulas ou as explicações orais por mais de cinco minutos”.

 

Sousa, F. (2002) no artigo “Criatividade na formação de professores” tece alguns comentários muito interessantes:

 

A criatividade não pode ser ensinada e sim “facilitada”.Em outras palavras não se pode ensinar alguém a ser criativo dizendo ou mostrando o que deve fazer.

As pessoas precisam de oportunidades para entender que são indivíduos criativos e caberá aos seus professores estabelecer essa oportunidade.

 

Uma das melhores formas de aprender mais rápido é vivenciando o conhecimento, ou seja, através de experiências.

 

A educação é um processo que continua por toda a vida.

 

É mais importante aprender do que medir o que foi aprendido.

 

Na maioria das vezes as pessoas precisam de tempos diferentes para perceber o que estão aprendendo.

 

Portanto, sob o ponto de vista do processo criativo caberá ao professor alertar ao aluno para que o mesmo não se limite apenas a reproduzir os ensinamentos (copiar/colar dados da internet, por exemplo), seja no que se refere a conceitos, ao manejo de máquinas e equipamentos ou a definição de procedimentos.

 

É bem verdade que a escola não pode ensinar a criar, já que isso é um ato do próprio indivíduo, todavia poderá estimular ao aluno o gosto pela geração de idéias. A assumir atitudes que permitam aflorar e desenvolver o seu pensamento criativo e, conseqüentemente, ser capaz de gerar diversas hipóteses para a solução de um mesmo problema, procurando sempre explorá-las, experimentá-las e testá-las para que encontre novas soluções que não sejam aquelas mesmas já conhecidas, testadas e aprovadas.

 

É importante salientar que a escolha por um estilo de vida voltado para a adoção de uma atitude criativa perante a sociedade não deverá estar limitada apenas a um aprendizado nos bancos escolares, e sim a partir de uma escolha individual. Com isto não se deve entender que o indivíduo deve abandonar e desrespeitar os princípios éticos e os valores humanos, para viver em profunda liberdade “criativa”, muito pelo contrário o individuo que resgatou o seu potencial criativo precisará utilizar esses valores humanos essenciais como norteadores da sua criatividade.

 

Portanto, a criatividade na educação pode ser considerada muito mais do que a possibilidade de organizarmos a qualidade do nosso pensamento e deixarmos de continuar trabalhando, raciocinando, agindo e tomando decisões em cima do modelo reducionista, como se as nossas ações e situações não tivessem uma maior ligação com o todo que nos envolve.

 

Em relação ao conceito do pensamento criativo, precisamos entender, trabalhar e agir em redes interligadas e interconectadas com um objetivo comum: o indivíduo, o cidadão, o ser humano.

 

Assim sendo, o verdadeiro papel das instituições de ensino não é o apenas de lançar “profissionais diplomados” no mercado, os quais foram preparados, durante toda a vida, para fazer parte de uma estrutura mecanicista e elitista, porque ao invés de serem orientados para aprenderem a organizar a qualidade do seu pensamento e, conseqüentemente, aprenderes a resolver problemas de forma criativa, foram educados e “treinados” a preencher quadradinhos e saber responder questionários sem ter que pensar muito.

 

Um dos papéis essenciais da escola (primária, secundária ou do terceiro grau) é preparar jovens para que saibam exercer a sua cidadania, a alcançarem a sua plenitude como seres humanos, uma vez que na escola da vida não encontrarão questionários nem, muito menos, quadradinhos vazios para serem preenchidos quando se depararem com problemas pessoais ou profissionais.

 

As pessoas precisam, antes de tudo, voltar a agi, a encarar e vencer as suas dificuldades, enfrentando e ultrapassando os seus medos e anseios, e buscando estar continuamente norteadas por conceitos de cidadania, ética, respeito, responsabilidade, humildade e outros valores humanos essenciais, e, quando isto acontecer com certeza estarão utilizando toda a riqueza do seu potencial criativo.

 

 

* Fernando Viana é diretor presidente da Fundação Brasil Criativo
presidente@fbcriativo.org.br

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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