Protesto folião.

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Parece-me ser de Nelson Rodrigues a frase pouco citada: “No Maracanã (ou no Mário Filho, porque ele preferia assim) vaia-se minuto de silêncio e até Hino Nacional”

Possivelmente, como a fase mais polêmica do “obvio ululante” aconteceu no regime autoritário militar, a “flor de obsessão” (como assim restou conhecido) só medrou quando o jornalista, mais que teatro, pintou ridículos “padres de passeata, sem batina nem disciplina, “freiras de minissaia”, atrizes e catraias do teatro rebolado, muitas “Grã-finas, papafinas” em tantas “narinas de cadáver”.

Naqueles acontecidos, excedente amontoado de “canalhas fundamentais” pulava e gritava “o povo unido jamais será vencido” nas célebres manifestações de rebeldes remidos de 1968, “ano que não terminou”, segundo Zuenir Ventura, outro jornalista, que viu tal grito calar desunido, lesto e breve vencido, com o pau botando a todos pra correr; heróis, bandidos, covardes e vedetes.

Vedetismos à parte, antes Nelson Rodrigues era tido como um autor pornográfico, somente.

Alguém cuja literatura ensejava nojo, afinal fazia desprender a miséria do cotidiano da “vida como ela é”.

E Nelson era genial; um frasista fundamental. Aleguem que faz muita falta no cenário nacional.

Há nesse contexto desprezível, hoje desprezado pelo esquecimento que tudo apaga e perdoa, um diálogo contado por Rodrigues de um telefonema que dera a Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, santo escritor que aderira à esquerda daquele tempo, aí incluídos personagens notáveis hoje rejeitados por decaídos moralmente, permitam-me dize-lo assim, afinal todos os tempos se justificam nos seus entendimentos e porfias.

Neste telefonema, Tristão colocara-se como santo consagrado, senão no altar por ostensório, ou quase isso.

Para ele, Nelson era um pecador, a merecer, quem o sabe, a danação eterna. E a cada telefonema recebido Alceu repetia, segundo versão de Rui Castro em “O Anjo Pornográfico”: “Ah, Nelson, acabei de rezar por você” Ou por outra : “Ah, Nelson, você aí nessa lama” ou na versão de Alceu: “então, Nelson, você sempre a remexer nessa lama das ruas?”

E continua Rui Castro, seu melhor biógrafo: “Nelson se ofendeu. Achou que Alceu, na sua ‘imodéstia de santo’, não tinha o direito de dizer aquilo. Pensou em perguntar-lhe de volta: ‘E os seus pântanos, como vão, doutor Alceu? E os seus sapinhos, as suas pererecas?’ Desligou com ‘até logo, passar bem’". 

"Alceu sentiu que dera um fora. Escreveu a Nelson dizendo que não era aquilo que queria dizer, que não o julgava pessoalmente ‘metido na lama. Nelson não o perdoou. Ligara-lhe para que o Doutor Alceu rezasse menos por ele, ou não rezasse, mas fosse seu amigo.”

Eram telefonemas de cortesia e de admiração de um crente a outro, enquanto oponentes no campo das ideias.

No campo das patrulhas ideológicas, enquanto Nelson era aviltado, Tristão de Ataíde, o Santo Dr. Alceu, era reverenciado pela esquerda burra que não escreve mas rumina, muito arrulha e mais patrulha, e fulmina, sem graça nem verve.

Esquerda que, se não matou em balaços como Fidel em “el paredón”, é porque lhe faltou coragem e oportunidade para externar farta ousadia, desamor e violenta razia.

Sobrou-lhe, todavia, o desbastar sorrateiro, lento e continuado, de refazer a história em pintas de maledicência e covardia, num falso equilíbrio de paixão, em parcialidade de ocasião.

Fuzilados pela hidrofobia canhota da estação, resistia naquele tempo um outro cristão beletrista, este um pensador retilíneo, sem vacilo nem desvios de linha conservadora, tradicional, responsável e consequente “ad aeternum” de uma Igreja milenar, em seus Santos, Sábios e Profetes, Ascetas, Anacoretas e Pecadores; todos caminhantes em demanda ao Pai.

Alguém que ao rechaçar a barbarização da política e da religião, vira o regime militar senão um mal necessário, um entreato autoritário brando, “mas non tropo”, que cumpriria o seu encargo de pacificação da alma nacional.

Seu nome era Gustavo Corção. Um homem sábio, tido e fustigado como um “cotolicão” empedernido pela esquerda falante e delirante, em refestelo de lauta mesa e mal deguste.

A esquerda louvava o Dr. Alceu, sobretudo aqueles que queriam uma Igreja revolucionária, ensaiando o que seria tempos depois as comunidades eclesiais de base, a teologia da Libertação, o flerte com os partidos de pensamento socializante, demonizando o capital, a livre empresa e o livre mercado.

Tudo aquilo que deveria surgir após a derrubada “dos milicos”,  para realizar a paz social e a felicidade coletiva.

O Dr. Corção, um “ébrio de Deus”, como assim o batizara o polêmico Nelson Rodrigues, era espinafrado por esse grupo, o Pasquim, sobremodo em ironia, enquanto a Igreja em tantos “padres e freiras da moda em passeata”, esvaziava se, enveredando por uma vertente ideológica que demonizava o capital, construindo novos muros e guetos.

Negavam-lhe o valor, como bem comum neste país e mundo afora.

O Dr. Corção não ousara seguir o  Poema de sete faces de Drummond: “Quando nasci, um anjo meio torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”.

Gauche era ser comunista; ou posar como tal.

Quem não era ou parecia assim, era um “alienado”- diziam à farta! 

Sobretudo aqueles estudantes universitários que cursavam faculdades de pouca ou nenhuma concorrência, pessoal hoje melhor remunerado que muitos Matemáticos, Físicos e Engenheiros.

Eram pessoas birrentas, rabugentas e virulentas.

Alguns eram violentos, porque exibiriam a seu tempo, fuzis e metralhadoras tchecas, enveredando na luta armada, assaltando banco, por usura capitalista, sequestrando e matando até, assassinatos tidos como necessários por seus desvarios revolucionários.

Um povo que exibia uma raiva hostil com o mundo nosso entorno, e a todos no seu derredor que os toleravam, sem lhes conceder aplauso, nem apoio.

Aplauso mesmo quem recebia era Nelson Rodrigues, um homem já idoso.

Morreria jovem, 68 anos (não 68 dias, mas 68 anos!), em 1980, antes aconselhando aos jovens e ao badalado “poder jovem”: “Envelheçam!”

Obstinadamente, Nelson incomodava; sua inteligência era polêmica, irônica, magnífica.

Não era, porem, um homem odioso, muito menos odiento como lhe pintavam a alma em degeneração e virulência.

Jamais pegaria em armas para assaltar um Banco, sequestrar um Embaixador, justiçar um oponente.

Neste particular, era um homem atormentado pela tragédia.

Presenciou o irmão Roberto ser assassinado por uma mulher, Sylvia Serafim Thibau, que lhe desferira um tiro destinado ao pai de ambos; Mário Rodrigues.

A homicida intentava matar o dono do Jornal “Crítica”, e por engano, assassinara um filho do dono.

Sylvia Thibau seria inocentada por júri popular, com direito a faixa de “Morte ao Tarado!” em seu apoio, conduzida por sufragistas, as feministas de então, lideradas por Berta Lutz .

A sociedade carioca ficara a seu favor, afinal tivera seu desquite noticiado como matéria escandalosa no Jornal, um adultério relatado com texto de Orestes Barbosa e gravuras de Roberto Rodrigues, o jovem assassinado, recém-saído da adolescência, que sob protesto deveria ressuscitar para ser decapitado.

O assassinato do irmão marcara Nelson para sempre, e sua dramaturgia exibiria esta traumática comum no cotidiano da vida como ela é, entre adultério, pederastia, amores proibidos por libidinosos, tarados odiosos, incestos e contextos pecaminosos.

Temas eminentemente atuais, sobretudo em tantos assédios sexuais alardeados mundo afora.

No cotidiano jornalístico dos anos 1960-70, Nelson teceu duelos com vasta intelligentsia nacional, munido apenas de uma máquina Olivette ou Remington, sem tecla erase, del ou clear.

Menos ainda o ctrl-c, ctrl-v, embora fosse repetitivo à exaustão, em verve, graça e ironia, com direito a cascatas monumentais de piscinas e filhotes de jacaré, bebedeiras de água mineral Lindoia, tempestades tonitruantes e ribombantes dignas do 5o Ato de Rigoletto.

Isso em cenários paradisíacos de uma cabra vadia num terreno baldio, ou na Aldeia Campista, com fraque e colete.

E até com uma sábia vizinha gorda e patusca a ensinar-lhe, para sempre: “na vida a gente vive aprendendo”.

Nelson Rodrigues é um homem fundamental que faz falta ao Brasil, sobretudo agora quando o mundo todo saiu de casa e foi brincar no Carnaval.

Nunca vi tanta gente feliz. Sem panela, sem crucifixo, sem marcha por Jesus, sem parada gay, sem sanduiche de mortadela, e sem petista gritando golpe!

O golpe foi usar a alegria do povo para dizer que o vasto estuário folião sofre peias em correias, escravizado com a reforma trabalhista, o governo Temer e a reforma previdenciária semimorta.

Ou seja: o Brasil é o que é porque assim o quer; pulando, dançando e protestando.

Quanto a Nelson, Tristão e Corção, voltarei ao assunto um outro dia.

Melhor por agora é repetir o conceito de Orson Wells, um americano famoso que nos visitou em pleno carnaval de 1942, tempo em que nem eu era nascido. “Os brasileiros são o povo mais feliz do mundo”.

E completou genial e definitivamente: “Quatro dias de felicidade no ano é uma coisa que nem todos conseguem”.

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