Quando o encanto se desfaz.

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Há pessoas que nos assaltam com suas convicções políticas.

Alguns são agressivos, querem nos impor suas preferências. Chegam a ser chatos, enquanto interlocutores obsessivos, invadindo nossa intimidade por todas as mídias, como o WhatsApp, esta maravilha que permite troca de mensagens a custo zero.

Uns creem que sua religião salva mais que a do outro, desafiando-lhe a fé.

Em verdade, tais mensagens ensejam mais dúvida que crença, sem falar que tenta inocular um germe de insatisfação com a vida do interlocutor, parecendo supor terrivelmente viciosa e viciante, verdadeiro obstáculo inamovível no caminho da salvação.

Salvação de que ou de quem?

Ninguém o sabe, porque perante a morte não há imunidade, nem para santos, deuses ou heróis.

E quanto ao além-morte, sobra medo e insatisfação plena, um bom mercado de ilusões a estimular pregadores e mistificadores.

O além-morte, essa coisa etérea, sombria e fantasmagórica, é tão temido e repelido, que até os melhores acordes, em cantares angélicos, soam tão funéreos quão farsescos e maquiavélicos; coisa para deliciar, enganar ou assustar.

Ou despertar comoção em concordância coletiva.

E as correntes de desejos? Quando mediante um esforço piramidal de progressão geométrica, acredita-se que um alarido incontrolável pode demover o sono dos deuses, acordando-os para a solução dos nossos conflitos?

Não é assim quando nos assaltam com pedidos de oração, ou esforços coletivos de “força positiva”?

Sim. Porque alguns no seu desprezo da súplica e da reza, costumam substituí-la por outros poderes, tidos maiores em esforços e idiotias; as chamadas “forças positivas”, sempre capazes de impossibilidades matemáticas em sua exatidão inexorável, e assaz renegadas pela física, enquanto ciência da experimentação e consolidação.

Ou seja: ninguém verá pedras flutuarem mediante esforço coletivo.

Mas há quem pense que reunindo toda figa do mundo pode-se revogar as Leis de Newton.

Entorno disso, esta coisa de conteúdo religioso, é bom dizer que ninguém escapa do agnóstico ou descrente empedernido.

Neste particular, melhor é papear com um crente que um incréu.

Se o primeiro pode ser um ingênuo, ou alguém que possui a inocência dos santos, o segundo tem a intolerância dos sábios a ensejar um desafio, um debate, uma porfia, esquecido que as coisas de fé são inerentes às escolhas; tem-se ou não.

E nesta preferência, nada acresce ou subtrai.

E mais; se ter fé pacifica o ser, que não se queira perturbá-la, nem com uma mensagem florida de WhatsApp.

Que a descrença permaneça humilde, na certeza plena de que só a dúvida fertiliza.

Daí valer a frase de Jean Guitton em sua notável obra Jesus, em citando São Leão Magno: “A duvida de Tomé me foi mais útil que a fé de Madalena”.

Uma frase que se contrapõe até ao próprio Cristo; “Tomé, você acreditou porque viu e tocou. Felizes os que creram e não viram”.

E outros tantos Tomés, como eu mesmo, vendo sofrimentos de mártires e exemplos de santos, sem de todo restar convencido, resistindo e persistindo pouco crente, eu, que me sinto e me defino como um teísta claudicante em busca sôfrega de fé.

Uma fé que seja só minha, que me satisfaça, que me preencha, mesmo que seja incompreensível para outrem.

Todavia, muito embora se diga que ninguém se salva sozinho, e a salvação de outrem passa pela ação de cada um, não me vejo em missão de a outros colocar a perder.

Vejo-me em missão de ajuda na construção do ser enquanto vivo, em meio as certezas da ciência, dos bons hábitos necessários, e do conhecimento acumulado pelos homens.

No mais, tudo são dúvidas. E eu quero somente carregar as minhas.

Dúvidas, muitas dúvidas, sobretudo quando o encanto se desfaz, porque a finitude do ser, se não é de todo almejo, é, sem dúvida, um bom epílogo; tudo dentro da boa regra da vida. Vida plena enquanto vida

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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