Quando se está vivo

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Tem gente que, na viagem, prefere só olhar o asfalto. Céu sem brilhos, morto, tedioso. E tem quem mira o céu mesmo, estrelas e lua. Ver Cruzeiro do Sul aparecer manso no côncavo da noite é certeza de que a vida mesma se sustém, apesar de tudo, por causa de tudo. Chakana sagrada, que já guiou ancestrais no mar e na terra, que parece guiar a própria noite para que ela não se perca em seu caminho: vê-la sempre e a cada dia é nutrir-se da certeza de que ainda é possível seguir adiante.

Porque a noite é escura e longa (embora exista sempre a esperança da próxima aurora que sempre vem). A viagem é longa, sim, triste, solitária, há tantas pedras e pouca sombra. Ainda assim, quem tem olhos para ver, pode, de repente, até em meio à noite mais cerrada enxergar um vaga-lume. Acende e apaga. E tudo é poesia outra vez. Mais uma vez. Sempre. Pode ser também que, do meio das nuvens cinzas pesadas, se abra um clarão de lua cheia no céu. E, mesmo que por uns poucos minutos, um vislumbre sorrateiro, dá tempo de sorrir de encantamento, dizer uns versinhos ou uma oração pra abuelita luna llena nel cielo nero. Dá tempo ser feliz.

Sim, a morte, invariavelmente, vem. Seja meia-noite, seja meio-dia. Morrer, contudo, é bom que se lembre, faz parte de viver. Morre-se sempre, a cada noite, a cada sonho quebrado, a cada partida sem volta, a cada violência escancarada, velada, a cada mudança brusca de rumo, cada pausa profunda do fluir do rio. Morte não é o contrário de vida, é seu complemento inseparável. Se não há morte, não há nascer. As folhas caem mortas da árvore e viram adubo para as próximas folhas. Num tempo cíclico, vida morte vida giram com o mundo, com o passar dos dias e das horas, dançam uma ciranda.

Há quem entre na roda e dance dance dance a ciranda até o fim dos tempos, dos dias, até a morte derradeira. Há quem se quede paralisado, amedrontado, tombando, tropeçando as próprias pernas, errando os passos, caindo e logo se reerguendo, sofrendo a morte e não gozando a vida por medo da próxima morte. Há quem sente no chão, negando, negando-se, pranteando, mas a dança segue, e atropela, pisoteia, ri e sofre. O rio sempre segue para o mar. Apesar das pedras. E a escolha – a cada dia, a cada hora – é entre deixar-se levar pelo fluir do rio ou nadar contra a corrente.

Sim, há sempre uma escolha – ou várias – possível. Quem tiver o coração aberto e a mente tranquila, que sinta para onde o fluir do rio nos leva.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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