Quando Spielberg foi pra briga contra a Netflix

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Existiu um tempo em que Cinema era algo pra ser feito nos chamados theaters. As salas de cinema. Nós não traduzimos muito bem isso por aqui porque tivemos poucos teatros de filme (movie theatres) em nossa história. Aqueles como o Odeon, na Cinelândia, Rio de Janeiro, com 550 lugares. Esse tempo passado contribuiu para que milhões de pessoas pelo mundo aceitassem esse tipo de trabalho como uma arte – e das mais potentes.

Só que hoje, ou melhor, desde a década de 1970 especificamente, Cinema é feito também para a TV. Dois dispositivos do filme diferentes: Sala de Cinema (movie theater) e Sala de TV (living room).

Spielberg, acredito com muita certeza, foi conhecido por você que me lê quando assistia ou à sessão da tarde, ou à tela quente. Filmes: E.T., Tubarão, Inteligência Artificial, Minority Report, etc. Este diretor bilionário pela venda de seus filmes às TVs do mundo, sócio fundador da Dreamworks, saiu da toca pra dizer que Cinema, mesmo, com C maiúsculo, é pra ser feito para as grandes salas. Não para as salas de estar. Paradoxo.

Spielberg provavelmente defende um mercado que se vê em crise. Quem ameaça os Cinemas? Videogames, indústria que tomou conta, praticamente, das grandes bilheterias com as CGs (Computações Gráficas) em filmes de herói; os canais de TV, já conhecidos por “deturpar” o grande cinema com séries e temporadas requentadas; e, finalmente, serviços stream. Netflix, pioneiro nos VOD (vídeos on demand, outro nome para os streamings), é o alvo principal do diretor. Agora você se pergunta: por quê?

A Netflix está produzindo um filme que bate recorde em milhões de dólares. The Irishman, de Martin Scorsese. Segundo alguns, é a falência dos grandes estúdios em Hollywood. O modelo, agora, fica com os canais de filmes pela internet.

Scorsese disse à imprensa: Onde vamos? Não sei. Devemos proteger o cinema, o ritual e a arte, contra os produtos de super-heróis ou quase de animação, que são um género próprio e estão bem, mas não é o cinema a que vou, aquele que quero preservar e gosto de restaurar. Esse também precisa do seu público e devemos convencer as pessoas a irem ver esses filmes. Eu preferia nas salas e não em casa. E esse hábito deve ser encorajado o maior tempo possível, mas os estúdios pararam de apoiar os cineastas: no meu caso, apenas a Netflix apoiou”.

Spielberg então diz: Cinema, mesmo, é feito para as salas de cinema. Não dá, segundo ele, para o Oscar premiar filmes que são produzidos pelo canal Netflix. Caso de Roma, por exemplo. Seria o fim de sua era Dreamworks, ele deve saber disso.

A questão se coloca não somente como “O que é o cinema?. Esta pergunta era feita na época em que Hitchcock, Rosselini e Antonioni produziram filmes para a TV. Ou mesmo quando surgem espaços na programação para filmes longa metragem nos canais norte-americanos. Segundo Spielberg, quando se produz um filme através da TV, é um filme unicamente para a TV – contrariando, por exemplo, canais como a ZDF alemã ou mesmo a Arte 1 francesa.

Longe de errar, Spielberg se denuncia. Mostra que não aprendeu absolutamente nada com Truffaut – se é que ele quis isso em seu contato – , e principalmente, que não se interessa pela democratização do acesso e das produções fílmicas. Sua defesa dos grandes estúdios é uma política que desautoriza o Cinema que foge do modelo industrial hollywoodiano. Há muito o que se considerar nisso, e Scorsese mesmo pareceu refletir sobre.

Há quem concorde com a ideia de que Cinema é nas salas. Mas, hoje em dia, há milhares de salas feitas com Smart TVs planas de 60 polegadas, com som externo chamados “home theaters”. Se isso não for para os filmes de Cinema, não há outra explicação para o sucesso da Netflix como novo modelo de produção.

 

 

 

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