Que 2017 nos traga Juízo!

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Para que servem as recente passeatas?

A do domingo 4 de dezembro, por exemplo? Para agitar, somente.

Alguns insatisfeitos por malquerer a circunstância e não conseguir reter boa querência, no aqui de agora em seu entorno circundante, promovem um grito surdo que não consigo entender. 

Seria um gemido dorido de bem sofridos? Não!

Nunca os eternos sofridos foram tão amparados em tantas políticas compensatórias, para lhes dirimir diferenças.

Teria entonação doída de uma ferida reaberta? Que ferida?

Alguém neste país poderá exibir cicatrizes tão terríveis, quão insanáveis, que jamais serão esquecidas a despertar carpição infinita? Também não!

No nosso choro de cada dia, o pranto e o protesto não são eminentemente políticos e reivindicatórios, algo para adquirir vantagens e nunca um evocatório para não repetir o erro, sua causa e seu efeito?

Ou estou errado em tantas passeatas de descontentes, sobretudo de associações corporativas do Estado brasileiro, contra este mesmo Estado, seu arrimo, seu sustento e sua razão de existir, com excedentes sanguessugas em poses de orquídea? 

Pose de orquídea, somente, porque a orquídea se reveste de beleza como uma planta epífita, que se apoia nas outras plantas, apenas como seus adereços, seu embelezamento, nunca como um simples comensal arrevesso, um  parasita somenos, como é o caso dessas categorias em protesto.

E com tanto grito e passeata, não está o Estado cada vez pior, insolvente e perdulário, ou é este o dealbar ordinário que sonhamos para a democracia do  Estado brasileiro, a nação almejada em nosso desejo pleno, enquanto povo?

Seria apenas um incerto solfejo, um sobejo mal asserto, de um acerto pouco veraz em falsear senão arteiro ou quase trapaceiro? 

Incerto dir-se-ia quase, trapaceiro talvez não.

Seria uma espécie de “trampiculinagem”, bem concebida e mal assestada? (“Trampiculinagem” era um termo muito terno para descrever uma traquinagem infantil digna de reparo e só admoestação que se usava na minha infância longínqua.)

Não! “trampiculinagem” não era nenhuma traquinagem parecida com o atual concerto, em passeatas de Brasil infantil.

Quanto ao pensar imaturo e pueril, o ardil, o logro e a trapaça, nunca são percebidos na ingênua motivação e no idealismo insincero e caviloso do aboio que conduz a passeata, enquanto jericada imodesta.

E como esse passear asnático serve e segue bem tal aboio bem conduzido!

Igual em suavidade e mansidão àquele que manobra e pacifica as manadas desembestadas, levando-as ao curral que enclausura, ou ao matadouro que as extermina.

Não agiam assim os nazistas, de infeliz lembrança?

Ora, fascista ninguém se quer ou deseja!

Mas os fascistas surgiram com idêntica campanha de descrédito da democracia representativa.

Mussolini, por exemplo, surgiu para promover a ordem, o respeito à lei, sendo inclusive autorizado a descumpri-la, enquanto líder, “Il Duce”, o ideal condutor, para organizar a pátria romana.

Hitler fez o mesmo. Lenin, Stalin e Fidel Castro também, embora se diga que os três últimos merecem santificação e louvores afinal foram anjos exterminadores necessários para a purga salvífica da História.

Todos sabemos que há quem pense que a História sempre necessita de expurgos nos seus engasgos.

E assim, porque a utopia é sempre um sonho de custo terrível, a esquerda bem sabe reverenciar os seus heróis, e até os seus bandidos são mais santos e produzem maiores encantos.

Já o sinistro, o banditismo perigoso, este restará à direita. E são ambos perigosos e calamitosos.

Quanto ao centro, ou como diziam os franceses em seu terror revolucionário: “Le Marais” (o pântano) ou “Les Crapauds” (os sapos), os de pose mais moderada, espécie de baixo clero existente em todo parlamento, ou o “centrão”, como se diz aqui, este bem sabe flertar com todo e qualquer espectro ideológico.

Neste particular lhes são ambidestros excelentes como massa de manobra.

O centro é, todavia, um perigo quando assanhado. Não lhes cutuque enquanto vespeiro. Anima-lhes uma calamidade em potencial.

Dito isto, sinto no aboio ressoado na esquina um flertar com este perigo.

Em nome de uma discutível eficiência de detenções para averiguações e investigações está a massa erigindo um novo herói; O juiz Moro e um rosário de Promotores de Justiça a reivindicar legislações excepcionais.

Estes indivíduos, enquanto novos heróis, estão em pose de arcanjos de Deus, querendo portar espadas e decepar cabeças, se possível em eficiência sumária.

Já derrubaram uma Presidente, legitimamente eleita em discutível processo de “pedaladas fiscais”.

Um golpe que ficará por acontecido e já remido, mas perdurará assaz fedido e bem mal pago, a ser repetido por vício de cachimbo.

Golpe que não saciou a sanha do grito na rua, que deseja repeti-lo agora em novas cachimbadas, seja contra o Vice Michel Temer, enquanto Presidente recém-investido, mas já depreciado, o Congresso de Renan Calheiros, das Alagoas, e de Rodrigo Maia do Rio de Janeiro por extensão de desfigura, porque ousou botar ordem no pleito autoritário requerido num discutível projeto de “iniciativa popular”, esta excrescência presente na nossa Constituição Cidadã, que define uma democracia bicameral, sem estofo nem independência.

Não creio que estejamos a viver um bom momento, permitindo tanta evocação radical vindo da toga e de seus entornos.

Cada tempo Jacobino tem o seu verboso Saint Just, o seu acusador púbico Fouquier-Tinville, como exemplos luminares e até o seu Rene-François Dumas, um Dumas menor, sem romance, esgrima ou cortesã, mas o temido magistrado presidente do tribunal revolucionário.

Estes três revolucionários como tantos outros, açulados pelas galerias, eram detentores de aplausos inenarráveis e jamais esquecidos. Ousavam tudo como retórica; caluniar Maria Antonieta como incestuosa, aquela que apelara em sua defesa apenas toda e qualquer mãe, francesa ou não, e até vilipendiar Lavoisier, o sábio Químico, entendendo-o desnecessário como cientista.

Animava-lhes o radicalismo de bem cumprir a Lei de 10 de junho de 1794 (22 Prairial do ano II, como se dizia então), segundo a qual “o prazo para punir os inimigos da pátria deve ser apenas o de identificá-los,… trata-se menos de puni-los que de aniquilá-los”. Afinal bons cidadãos em Convenção republicana definiram que: “A pena para todos os delitos da alçada do Tribunal Revolucionário é a morte”.

E ainda: O interrogatório prévio e a presença de advogados tinham sido considerados desnecessários; “Se existirem provas materiais e morais, não serão ouvidas testemunhas”. O artigo 16 preceituava: “Os defensores que a lei dá aos patriotas caluniados são jurados patriotas; não dá aos caluniadores”. 

Com tanto ódio exaltado a República aplaudia Marat e Robespierre e seu terror entendido com necessário.

Aí, a coisa cansou, e como reverso deste cansaço o primeiro foi assassinado no banho, enquanto “aborto da humanidade”, e o segundo deixando de ser “animal anfíbio”, como era entendido e interpretado enquanto verticalmente incorruptível.

E  até o Promotor Fouquier-Tinville e o Juiz Rene-François Dumas foram eliminados na mesma lâmina republicana.

Bom! Muito bom! Porque depois a alma nacional erigiu uma Praça da Concórdia com direito até a obelisco surrupiado de Luxor.

Nestes nossos tempos de novos heróis erigidos e tantos bandidos denunciados em linchamento de vazamentos deletérios de delatores escandalosos, sinto uma ar de justiçamento em muito aplauso.

Não! Inclua-me fora dessas passeatas clamando derrubadas de cabeças!

Prefiro desconfiar plenamente do que as anima e crer no bom senso como norteador das ações.

Se todos conhecêssemos os erros da História nós não os repetiríamos em tantos pogroms cada um a seu modo e sua motivação…

Infelizmente não é assim. Pogroms não existem em balido de boa vontade.

Eu, cidadão miúdo e comum, que não venho servindo a grupos, nem vislumbro interesses e objetivos, limito-me a perguntar, opinativamente e isoladamente recolhido onde pretendo permanecer: A quem serve tudo isso, ou para que serve tudo isso?

Que o Ano Novo de 2017 nos chegue com mais Juízo!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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