Que as bonitas palavras não restem inúteis!

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Eles tem as armas. À merda as armas. Nós temos o Champanhe.

Na quinta-feira, 13 de setembro de 2001, eu participava de uma reunião com empresários e profissionais quando requeri e foi concedido pelo Presidente da mesa que dirigia os trabalhos um minuto de silêncio em condolência às vítimas dos ataques suicidas contra as “Torres Gêmeas” do complexo empresarial World Trade Center, em Nova Iorque.

Naquela quinta-feira o mundo ainda estava em polvorosa. O ataque acontecido dois dias antes permanecia inimaginável; quatro aviões cheios de combustíveis tinham sido dominados por sequestradores desconhecidos e jogados como bombas sobre edificações representativas do invejável progresso americano.

Tudo era dúvida e espanto. Houve até quem pensasse que estava em desfecho uma Terceira Guerra Mundial ou um programa de suspense televisivo.

O que animava tais ataques?

Dois aviões jogados contra o edifício geminado mais alto da cidade era uma coisa imprevisível, sobretudo numa edificação comercial que se tornara bem turístico visitado pelo mundo inteiro.

Mas, enquanto as torres fumegavam, noticiou-se que um terceiro avião caíra mal assestando dependências do Pentágono, o edifício sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Enquanto tudo isso acontecia, eis que um disperso noticiário desconexo falava de uma quarta aeronave que fora desviada da Casa Branca ou do Capitólio para onde apontava. Avião que terminou caindo num campo aberto na localidade de Shanquesville, na Pensilvânia.

Ao tempo da minha reunião, ninguém mais tinha dúvida quanto a autoria do quádruplo atentado. Naquele 13 de setembro o mundo já sabia que não foi um acidente banal ditado por controle de voo computacional. Fora um atentado misterioso e sombrio, com incontáveis vítimas.

Quantos estariam entre os escombros das Torres Gêmeas? O mundo se indagava perplexo.

Naquela quinta-feira, cerca de quarenta horas distante do infausto acontecimento, não se sabia ainda que cerca de 3000 pessoas jaziam sobre o monte de ferro e pedra, ali amalgamados junto a 227 civis e 19 sequestradores que estavam a bordo dos aviões, em plena inocência de homens e mulheres de boa vontade.

O mundo repudiava o ataque e eu resolvera fazer a minha parte. Dar a minha solidariedade e repulsa, unir minhas lágrimas ao sofrimento que não se restringia à nação americana, afinal em tantos desaparecidos, confirmar-se-ia depois, que haviam perecido cidadãos de mais de 70 países, ali incluídos alguns brasileiros, quatro, salvo engano.

Em tosca homenagem, pedi um minuto de silêncio aos meus companheiros de reunião em homenagem aos mortos, e como é comum, nestes casos, o silêncio foi respeitado.

Quando, porém, o burburinho retornou, alguém entre os convivas interrompeu o seu jantar, pedindo a palavra, agora para enaltecer o feito terrorista, afinal os “Estados Unidos gostam também de jogar bomba na cabeça dos outros e, portanto,… estavam a merecer o sofrimento daquele ataque corajoso”.

Fiquei desolado e jamais esqueci aquela inferência, tão cínica, quão lamentável, verdadeiro testemunho cético da impossibilidade dos homens se compreenderem uns aos outros.

Estou a relembrá-la agora, em tempos outros de distância, sem a conseguir digerir e maturar para acalmia do meu ser.

E não esqueci, sobremodo, porque aquela comunidade da qual eu fazia parte nascera com o objetivo de promover a compreensão entre os homens em suas diferenças e anseios, permeando a boa relação entre prestadores de serviço, empregados e empregadores, a tolerância com a livre concepção individual e religiosa de cada ser, a busca da paz universal e a mitigação do sofrimento dos menos afortunados mundo afora.

Jamais imaginara que entre tantos homens cordiais em deleite frugal de uma mesa, vingasse entre nós tal pensamento hostil, e que um ato desumano como aquele ali merecesse guarida.

Fiquei sem palavra. Não pensei nem mesmo em deflagrar um debate. Silenciei, não vi razão para replicar, nem retomar o tema, imaginando que seria melhor assim para serenar e encerrar o dilema.

Senti-me num ambiente Taliban. Porque o repúdio ao ataque terrorista suscitado por mim não conseguiu suplantar-lhe o apoio explicitado com tanta veemência e discordância, e que fora endossado pelo silêncio subsequente acontecido, espécie de aceitação tácita em consciente indiferença.

Senti-me imerso e perdido na borralha de um campo inútil de batalha.

De repente tudo ali me parecera fútil perante meu agir e opinar. Não havia ali uma contextura inconsútil a construir, um ganho ético a adquirir e melhor era fugir.

Na minha ótica ficou um aplauso surdo ao feito tresloucado.

Pareceu-me entre tantos endossos gestuais ou silenciosos, que havia naquele auditório uma espécie de frustração geral na imagem contemplada na TV.

Para estes, o sofrimento por ser americano apenas, melhor pareceria se as Torres Gêmeas não desabassem verticalmente. Sua queda assim parecia-lhes decepcionante.  Melhor seria se o desabamento do World Trade Center deflagrasse uma queda em cascata destruindo Nova Iorque e sua gente que nunca dorme.

No entanto as torres fumegantes desabaram verticalmente de pé e a cidade permanecia insone para pensar suas feridas.

Não pensaram os atacantes que as torres resistiriam, como glória de uma Engenharia vitoriosa. Não imaginaram que elas fletiriam apenas, sem se dobrar.

Não houve então aquela destruição pretendida em efeito dominó, prédio caindo sobre prédio, por toda a parte baixa de Manhattan.

As Torres Gêmeas caíram de pé. Literalmente de pé. E a cidade continuou de pé.

Dir-se-ia que a queda em meio a terrível fogaréu fora um holocausto símbolo da insensatez humana, mas que em verdade, foi um hausto tornado exausto pela termodinâmica dos materiais apenas.

E neste infausto acontecimento, todos bem sabemos que sob ação da temperatura, as pedras se esfacelam e os metais se liquefazem. Trata-se de um fato corriqueiro estimado e quantificado por coeficientes de dilatação e calores latentes de fusão.

E, por via de consequência, tal minudência sempre é passível de repetição a exaustão, demonstrando a falência térmica das forças resistentes de elasticidade no equilíbrio de tração e compressão, tudo o que mantem de pé, tanto as estruturas que suportam a gravidade, quanto aquelas que oscilam em própria mobilidade. Um desafio matemático do arquiteto que imagina e sonha ao calculista que quantifica e o viabiliza em realidade.

Realidades à parte, hoje estamos a prantear os atentados de Paris.

Primeiro foi o de um jornal satírico, a Revista Charlie Hebdo, em 7 de janeiro deste ano. O mundo acreditou tratar-se de um simples ataque à liberdade de imprensa.

Agora atentou-se contra uma casa noturna, o Ba’ta Clan, cenário de alegria despreocupação, e um estádio de futebol, lá em Saint Denis, na proximidade da Igreja onde repousam os reis franceses.

Felizmente o atentado restou frustrante. Morreu menos gente que o esperado. Poderia ter sido pior, se as explosões suicidas acontecessem no interior do Stade de France, ou no show do U-2 que acontecera no dia anterior.

Entre mortos e feridos, nenhuma autoridade constituída, alguém que fosse um alvo notório a perseguir.

Não foi também a imprensa assestada por seu agir.

No padecimento inocente de agora, constata-se o deflagrar de uma guerra contra os valores ocidentais.

A nossa maneira de viver em liberdade está ensejando uma insatisfação perigosa a nos meter medo.

Mas o mundo não pode reagir com flores e lágrimas apenas.

É preciso ser preciso na resposta.

Não basta o cartaz tolo da Charlie Hebdo considerado por muitos, suprassumo genial.

No cartaz da revista um cadáver verte champanhe por vários furos de bala no corpo, ao tempo que grita: “Eles tem as armas. Que se danem (ou se fodam, ou vá à merda) as armas! Nós temos Champanhe!”

Embriagado em liberdade e entorpecido no conforto de bom consumo, do mundo enlouquecido exige-se temperança e moderação, sem jamais fraquejar perante o medo e a indiferença, mesmo que isso pareça o melhor remédio contra os excessos do terror.

Se o esmagamento do terror é impossível, que seja contido pelo menos; jamais menosprezado, esquecido e tolerado, enquanto salutar divergência.

O terror religioso ou marginal é um mal necessário a coibir sempre com firmeza, perseverança e tenacidade.

A civilização humana não pode conviver com a insegurança crescente dos nossos dias.

Se há um califado em construção, lembremos que outros califados estão nos fazendo reféns e tolhendo o nosso ir e vir.

Ninguém pode nem sair para rezar, ir à Missa em Aracaju, por exemplo.

E não é o Estado Islâmico que nos assusta. É a violência do nosso entorno entre inocentes flanelinhas e delinquentes trombadinhas, só para falar do que nos parece simples ausência  de ternura em tão pouca caridade.

Em displicência, concordância e complacência perante o medo nosso de cada dia, amanhã sempre será um outro tempo. Teremos um mundo pior ou melhor em função das nossas escolhas.

A vela acesa, a flor desfolhada, e a revista satírica gerarão comoção, entre riso e lágrima. Bonito, muito bonito, tudo muito sofrido e meigo, mas… muito pouco suficiente.

Que as bonitas palavras não restem inúteis nos epitáfios!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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