Que não seja debaixo de Vara!

O Ex-Presidente Lula foi conduzido sob coerção a prestar depoimento pela Polícia Federal.

Meio mundo de gente ficou feliz, se esbaldou de alegria.

Nunca se viu tanto “Pixuleco”, balão xistoso e depreciativo, sendo içado país afora, enquanto anedota debochada, assumida por um povo que não se leva a sério e graceja consigo mesmo, só por quintessência própria, picaresca.

Alguém, já disse que somos um povo pigmeu, universalmente falando. O brasileiro não se destaca como jurista, nem por seus cientistas.

Dizem que somos um zero à esquerda em todos os ramos da cultura e do saber.

Realçam-nos, por melhor, a exibição de nossas dançarinas em requebros e maneiras, seus úberes afortunados e suas nádegas magníficas, sinuosas e dadivosas, sobremodo.

Paraíso do sexo, é assim que o mundo nos vê em praias cálidas, garotas convidativas e nativos contemplativos.

O brasileiro constitui um povo devotado ao riso fácil, mesmo sob a lide do Sol e  sua ira.

E também à merencória luz da Lua, como disse Ari Barroso em sua melhor canção.

Somos o paraíso jamais contemplado bem aquém da linha do equador.

Isso de longas datas, desde  Pero Vaz de Caminha, já lá vão quinhentos anos, em exposição de vergonhas sem desvergonhas, com as índias se apaixonando pelo tacape português, como bem insinuou o lagartense Abelardo Romero.

Em discutível esmero, dizem os envergonhados de agora que estamos a viver tempos sombrios.

De pouco brio, digo eu, ao ver o noticiário carcomendo os três poderes, indistintamente; o Executivo com uma Presidente reeleita, mas pouco aceita, o Legislativo discursando entre o escândalo e seu desplante, e o Judiciário podendo borrachá-los, a todos, sem exceção, a seu próprio talante, entendendo-se num status maior, intocável, sem expressiva emanação popular.

Um cenário a requerer um roteiro para bem sorrir e jamais prantear, mesmo porque o drama pode ser compatibilizado com rebolados e outros babados, em requebros convidativos, na trama que se quiser incluir.

Os que veem um ambiente sombroso, denunciam tempos carbonários. São aqueles que almejam queimar o circo, repintar a zebra, banir de vez o “Pixuleco”.

Carbonarismo à parte, na historiografia brasileira não se encontra bem explicitado qualquer tempo que tivesse sido assim.

Felizmente o nosso apuro quintessencial não é de erigir fogueiras; preferimos prantear o cômico e sorrir perante o trágico.

Aqui chora-se pelo assassinato incorpóreo, carpe-se pior pela chacina imaterial inverossímil e inconvincente, e soluça-se com excedente derrame lacrimal daquele estupro que restou na intenção, sem violação comprovada e testemunhada.

Aqui também não vale o dito pré-casamentício: “Fale agora ou cale-se para sempre”. Daí as incansáveis Comissões de Verdade por revanche.

Uma revanche que não se quer vendeta, tão funesta e desonesta, quão pouco corajosa, sem limpeza de mágoa, lavação e enxague em sangue reparador.

Prefere-se a reparação insaciável e ilógica das harpias: abocanha-se um pedaço do fígado de outros quase iguais a Prometeu,  por dilaceramento trágico perpetuamente deferido como penitência cotidiana.

Prometeu, é bom referir, não é ninguém em particular.  Foi um herói mítico dos gregos que cometeu o grave crime de roubar o fogo dos deuses para  presenteá-lo aos homens.

Em paga deste seu erro, foi aprisionado num penhasco, sem perdão eternamente.

Castigo em que era atacado diariamente por harpias, espécie de aves de rapina, que lhe dilacerava o fígado, sem mata-lo, nem lhe dar descanso.

Como o fígado tem um poder de regeneração, o ferimento era reaberto e ulcerado com Prometeu padecendo sem sossego para sempre. 

Em tantos como Prometeu denunciados, nestes tempos carbonários, o povo está indócil na rua contra aqueles que não se viam como heróis carcomidos.

Há um balão simbolizando-os em ebulição. É o “Pixuleco”, bexiga cheia de vento, ou ventosidade, flatulência lançada ao leu, no barlavento de ocasião.

Bom seria que existisse só o vento sem sotaventos e barlaventos  de ocasião; nem à esquerda ou à direita. Não existiriam heróis nem bandidos forjados, muito menos “Comissões de Verdade” a cevar harpias.

Mas, o Brasil continua a não saber o que quer; daí a massa na rua, cantando o Hino Nacional.

De passeata em passeata, os “Pixulecos” de agora nunca perderam a oportunidade para crescer no afago popular, oportunisticamente.

Não foram eles que prometeram a felicidade, num convite ousado àqueles que não tinham medo de ser felizes?

Não estavam eles liderando a “Passeata dos Cem Mil” de 1968, movimento que só provocou lágrimas com o fechamento do regime, o recrudescimento da linha dura, e o “famigerado” Ato Institucional no5? E também nas “Diretas Já” e no “Fora Collor”, manipulando a insatisfação da ocasião?

E nesta vontade de espraiar felicidade, não tentaram refazer a história em “Comissões de Verdade” facciosas, tentando entronizar heróis e decapitar bandidos, ousando até violar jazigos e conspurcar mausoléus?

Enquanto isso, não estava a pátria distraída, aí sim, subtraída, em tenebrosas transações?

Porque nunca uma rapinagem assim fora constatada na história pátria!

À parte isso, as “Comissões de Verdade” nem ousavam pensar assim.

Como poderiam pensar deste modo se sua missão era outra?

Não lhes animava a desforra apenas? Desanistiar seletivamente a anistia?

Não fora assim encomendada e até remunerada só para construir heróis, sacralizar mitos, conferir beatitudes e excomungar hereges do não seu agrado?

Ou lhes motivava a confecção de nuvens de fumaça, para que em missão hidrofóbica pudesse distribuir babas em sessões públicas de molde a esconder o verdadeiro perigo, o roubo da “Lava-jato”, por exemplo, com depoimentos pungentes de gente que foi apenas inconsequente e imprudente, em excessiva idiotia por mocidade?

E por falar em idiotia, não é bom repetir Paulo Francis (1930-1997); formidável que dizia: “Até os trinta anos todos temos o direito de ser debilóides”?

"Até os trinta anos todos temos o di reito de ser debilóides" Paulo Francis

Ora, o debilóide tangencia a idiotia, mas pode nela mergulhar e permanecer sem retorno.

Já a frase de Francis, ela é bem melhor do que aquela sempre repetida e atribuída a Georges Clemenceau (1841-1929); “o tigre”: “Um homem que não seja um socialista aos vinte anos não tem coração. Um homem que ainda seja um socialista aos quarenta não tem cabeça”.

Frase que foi refeita por Winston Churchill (1874-1965), por corolário: “Quem aos 25 anos não foi liberal não tinha coração. E quem aos 35 não for conservador não possui cérebro”.

Prefiro o “debilóide” de Francis do que a ausência de coração do pensar anglo-francês.

Afora isso, a passeata está a repelir este grupamento surgido e nutrido por “Comissões de Verdade”, e que cresceu na ofensa ao regime dos Generais Presidentes.

Sem acanhamento é bom dizer, que aqueles militares briosos eram bem mais sérios, mais probos, dignos e diligentes que estes “Pixulecos” manhosos.

E ninguém iria sabe-lo se não surgisse no Paraná o Juiz Moro e o noticiário não evidenciasse a montanha de denúncias debulhadas em excedentes delações comprovadas.

Não fosse assim o país de fantasia seguiria no descaminho sem fim.

Vejo, porém, a passeata de agora como mais uma ilusão coletiva; como todas: a do enterro de Getúlio Vargas, em 1954; aquela do comício das reformas de João Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1963; a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, seis dias depois; a Passeata dos Cem Mil, em 26 de junho de 1968; os comícios da Diretas Já, em 1983-1984, os manifestos dos “Caras-pintadas” do Fora Collor; os protestos “não vai ter copa” de 2014, e todos os demais de lá para cá, inclusive o de ontem, 13 de março, monumental.

Nestes movimentos, algum presidente foi ou será derrubado, com mortos e feridos sobrando todos, e lágrimas pouco enxutas em suficiência.

Em outros casos algum autoritarismo amainou o grito, mantendo senão igual, uma democracia quase igual, com um parlamento jungido ou enfurecido, perante um presidencialismo dito “imperial”, no qual os punhais são sempre afiados para aniquilar o César da vez.

Tudo continuando igual, sem tragédia e só comédia. Até que Deus tenha pena do povo brasileiro e mande um líder que empalme o gigante e o faça rugir.

Que não seja debaixo de vara!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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